quarta-feira, junho 15, 2016

PELA NOITE, COM MANUEL ALEGRE: "ROSAS VERMELHAS"





ROSAS 
VERMELHAS


Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chega o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia doze de Maio, às dez e um quarto da manhã ( que foi a hora em que nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Sá as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse tempo o sol nascia exactamente no meu quarto.

(...)E eu dormia, poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-me e então exclamava:
    
   - Mãe!

e logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
    

MANUEL ALEGRE,
    in Praça da Canção
    




1 comentário:

Ana Nunes da mata maio Ribeir disse...

Lindisimo...também adoro rosas! Mais uma vez muitos parabéns pela escolha!! Linda noite!! Beijinhos!!

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