sexta-feira, junho 10, 2016

À NOITINHA, COM MIA COUTO: "TARDIO"





TARDIO

Quando quis ser fruto
fui fome,
não mais do que areia
de um chão sem cio.

Quando sonhei ser pano
fui agulha.
E morri no sono do gesto
de enrolar o fio.

Quando aprendi a ser poente
já não havia céu.

Quando quis anoitecer
tudo era luz.

E assim me condeno
em livre vício:
no mais derradeiro
eu só vislumbro um início.


MIA COUTO
(idades, cidades, divindades)
Maputo, 2005



2 comentários:

Ana Nunes da mata maio Ribeir disse...

Muito bonito...gostei! Muitos parabéns e obrigada sempre pela sua partilha!! Bom fim de semana!!

olharbiju disse...

Fascinante.
Sentido e com muita verdade.
Obrigada
Beijinho
Maria Alice Ferreira//Alice Ferreira

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