domingo, fevereiro 28, 2016

PELA NOITE, COM MIA COUTO: "DIZ O MEU NOME"




DIZ O MEU NOME


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

  
MIA COUTO,
in 'Raiz de Orvalho'



sexta-feira, fevereiro 26, 2016

IMAGEM DO DIA, COM MIA COUTO E SEBASTIÃO SALGADO





"— Dói-te alguma coisa?

—Dói-me a vida, doutor.

— E o que fazes quando te assaltam essas dores?

— O que melhor sei fazer, excelência.

— E o que é?

— É sonhar."


MIA COUTO


Fotografia: Sebastião Salgado


quarta-feira, fevereiro 24, 2016

À NOITINHA, COM MANUEL ALEGRE: "AGORA MESMO"



AGORA MESMO


Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também


Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele


Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a
[despedir-se


A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen


MANUEL ALEGRE, in "Chegar Aqui"



PELA NOITE, COM MANUEL ALEGRE: "BALADA DO POEMA QUE NÃO HÁ"




BALADA DO POEMA QUE NÃO HÁ


Quero escrever um poema
Um poema não sei de quê
Que venha todo vermelho
Que venha todo de negro
Às de copas às de espadas
Quero escrever um poema
Como de sortes cruzadas

Quero escrever um poema
Como quem escreve o momento
Cheiro de terra molhada
Abril com chuva por dentro
E este ramo de alfazema
Por sobre a tua almofada
Quero escrever um poema
Que seja de tudo ou nada

Um poema não sei de quê
Que traga a notícia louca
Da história que ninguém crê
Ou esta afta na boca
Esta noite sem sentido
Coisa pouca coisa pouca
Tão aquém do pressentido
Que me dói não sei porquê

Quero um poema ao contrário
Deste estado que padeço
Meu cavalo solitário
A cavalgar no avesso
De um verso que não conheço

Que venha de capa e espada
Ou de chicote na mão
Sobre esta noite acordada
Quero um poema noitada
Um poema até mais não

Quero um poema que diga
Que nada há que dizer
Senão que a noite castiga
Quem procura uma cantiga
Que não é de adormecer

Poema de amor e morte
No reino da Dinamarca
Ser ou não ser eis a sorte
O resto é silêncio e dor
Poema que traga a marca
Do Castelo de Elsenor

Quero o poema que me dê
Aquela música antiga
Da Provença e da Toscânia
Vinho velho de Chianti
Com Ezra Pound em Rapallo
E versos de Cavalcanti
Ou Guilherme de Aquitânia
Dormindo sobre um cavalo

E com ele então dizer
O meu poema está feito
Não sei de quê nem sobre quê

Dormindo sobre um cavalo

Quero o poema perfeito
Que ninguém há-de escrever
Que ele traga a estrela negra
Do canto e da solidão
Ou aquela toutinegra
De Camões quando escrevia
Sôbolos rios que vão

Que venha como um destino
Às de copas às de espadas
Que venha para viver
Que venha para morrer
Se tiver que ser será
E não há cartas marcadas
Só assim poderá ser
O poema que não há


MANUEL ALEGRE,
in "Babilónia"



sábado, fevereiro 20, 2016

UMBERTO ECO(1932-2016), UM DOS MAIORES VULTOS DA CULTURA DOS SÉCULOS XX E XXI, LAMENTAVELMENTE DEIXOU-NOS...




“Acho que um escritor deveria escrever o que o leitor não espera"
Umberto Eco


Umberto Eco, filósofo, semiólogo e romancista italiano, autor de "O nome da rosa" e "O pêndulo de Foucault", morreu nesta sexta-feira, dia 19, segundo os jornais italianos "La Repubblica" e "Corriere della Sera". A informação foi dada por um familiar do escritor, ao informar que Eco morrera aos 84 anos em sua casa às 22h30 do horário local.

A causa da morte não foi informada, mas o escritor lutava já contra um cancro.
Umberto Eco nasceu na cidade de Alexandria, no dia 5 de janeiro de 1932. Quando pequeno, durante a Segunda Guerra Mundial, mudou-se com sua mãe para uma vila pequena, na região montanhosa de Piemonte. O seu pai, oriundo de uma família de 13 filhos, foi mobilizado para lutar em três guerras.

O pai de Umberto queria que o filho estudasse direito, mas este decidiu entrar na Universidade de Turin para estudar filosofia medieval e literatura. Mais tarde, Umberto também foi professor na mesma Universidade.
Trabalhou como editor de cultura no canal de televisão RAI, onde conheceu um grupo de escritores, pintores e músicos que  influenciou a sua futura carreira de escritor.

Em setembro de 1962, Eco casou-se com Renate Ramge, uma professora de arte alemã de quem teve dois filhos. Dividia O seu tempo entre um apartamento em Milão, onde tinha uma biblioteca de 30 mil volumes, e uma casa de veraneio perto de Rimini, em que guardava cerca de 20 mil exemplares.

Em 1992 e 1993, Eco foi professor na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Também lecionou nas universidades de Oxford, Columbia e Indiana, na Universidade de San Marino e na Universidade de Bologna, onde foi presidente da Faculdade de Ciências Humanas.

Tornou-se popular sobretudo pelo seu romance "O nome da rosa" publicado em 1980. O livro combina semiótica, ficção, análise bíblica, estudos medievais e teoria literária. Conta a história do frei Guilherme de Baskerville, enviado para investigar o caso de um mosteiro franciscano italiano, cujos monges são suspeitos de cometer heresias. A história, que se passa em 1327, envolve mortes misteriosas, crueldade e sedução erótica.

Em 1986 foi lançado o filme de mesmo nome, dirigido por Jean-Jacques Annaud e protagonizado pelo ator Sean Connery.


Descanse em paz.



Entre as suas obras mais conhecidas também estão os romances "O Pêndulo de Foucault" (1988) e "O Cemitério de Praga" (2010), além dos ensaios "A Estrutura Ausente" e "História da Beleza". O seu último romance "O número Zero" foi publicado no ano passado.

Com quase 50 anos, começou a escrever romances, após uma brilhante carreira académica. Já era autor de vários livros de não ficção e de ensaios, quando decidiu procurar novos desafios. "Num certo momento, decidi escrever uma história. Eu não tinha mais filhos pequenos para lhes contar histórias", dizia o escritor.


Em 2013, Eco foi agraciado com a medalha de ouro da cultura italiana na Argentina pela Società Itália Argentina (SAI). Dias depois, comentou a escolha feita pelo Vaticano do Papa Francisco, nascido na Argentina, para ocupar o cargo na Igreja Católica. O escritor definiu Francisco como "o papa da globalização" e opinou que o Papa Francisco representa algo "absolutamente novo" na história da Igreja Católica:


"Estou convencido que o Papa Francisco representa um facto absolutamente novo na história da Igreja e, talvez, na história do mundo", declarou na entrevista dada ao jornal argentino "La Nación".

O escritor foi defensor da saída de Silvio Berlusconi do cargo de primeiro-ministro de Itália, na altura mergulhado num mar de escândalos sexuais, acusações de corrupção e crises financeiras no país. Berlusconi renunciou em novembro de 2011. "É o fim de um pesadelo", manifestou Eco naquele ano, numa entrevista destinada a promover seu romance, "O Cemitério de Praga".










quinta-feira, fevereiro 18, 2016

À NOITINHA, COM PEDRO HOMEM DE MELLO: "ETERNIDADE"



ETERNIDADE


A minha eternidade neste mundo
Sejam vinte anos só, depois da morte!
O vento, eles passados, que, enfim, corte
A flor que no jardim plantei tão fundo.


As minhas cartas leia-as quem quiser!
Torne-se público o meu pensamento!
E a terra a que chamei — minha mulher —
A outros dê seu lábio sumarento!


A outros abra as fontes do prazer
E teça o leito em pétalas e lume!
A outros dê seus frutos a comer
E em cada noite a outros dê perfume!


O globo tem dois pólos: Ontem e hoje.
Dizemos só: — Meu pai! ou só:— Meu filho!
O resto é baile que não deixa trilho.
Rosto sem carne; fixidez que foge.


Venham beijar-me a campa os que me beijam
Agora, frágeis, frívolos e humanos!
Os que me virem, morto, ainda me vejam
Depois da morte, vivo, ainda vinte anos!


Nuvem subindo, anis que se evapora...
Assim um dia passe a minha vida!
Mas, antes, que uma lágrima sentida
Traga a certeza de que alguém me chora!


Adro! Cabanas! Meu cantar do Norte!
(Negasse eu tudo acreditava em Deus!)
Não peço mais: — Depois da minha morte
Haja vinte anos que ainda sejam meus!


PEDRO HOMEM DE MELLO,
in "Bodas Vermelhas"




PELA NOITE, COM CHARLES CHAPLIN: "SORRI"




SORRI


Sorri
quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri
quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador


Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos


Sorri
Vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz.



CHARLES CHAPLIN



UM ENCONTRO HISTÓRICO







O Papa Francisco, chefe da Igreja Católica Romana, reuniu-se sexta-feira passada com o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa Kirill (Cirilo). Oraram e pediram a união dos dois dos principais ramos do cristianismo desde sua separação, no ano de 1054.

Numa declaração conjunta, também clamaram por proteção para os cristãos no Médio Oriente, num encontro que durou duas horas e ocorreu numa sala do aeroporto de Havana, em Cuba.

Os líderes religiosos abraçaram-se e beijaram-se:
"Estou feliz por te cumprimentar, querido irmão", disse Kirill.
"Finalmente", respondeu o Papa Francisco.

Depois, numa entrevista concedida após o encontro, o patriarca Kirill declarou que as discussões estão abertas de forma "fraterna" e conjuntamente com o Papa Francisco, ambos acrescentaram:
"A nossa negociação é sincera. Desejamos que o nosso encontro contribua para o restabelecimento dessa unidade desejada por Deus".

O interesse do Papa Francisco no encontro era conhecido desde novembro de 2014, quando, regressado de uma viagem a Istambul, revelou que tinha falado com o patriarca Kirill pelo telefone e lhe tinha dito: "Irei onde você quiser. Chame-me, que eu vou."

Francisco não quer que autoridade papal ponha em causa a reunificação da Igreja, e o porta-voz do patriarcado da Igreja Ortodoxa Russa de Moscovo, Vakhtang Kipshidze, afirmou que a ilha é "território neutro": "Cuba é ideal porque é um país principalmente católico que tem uma comunidade minoritária ortodoxa em Havana. É um lugar hospitaleiro para todos. Pelo contrário, a Europa está ligada a experiências negativas e dramáticas para ambas as comunidades religiosas", manifestou em declaração à comunicação social.

Essa opinião é compartilhada pelo porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi, que afirma que tudo será  mais fácil com a ocorrência do encontro fora da Europa: "No passado, esse encontro foi tentado, sem sucesso. No tempo de João Paulo II e do patriarca Alexis II, locais diferentes foram apontados numa Europa que é um continente muito complexo e com grande densidade histórica", afirmou à BBC Mundo.

Afastamento e rivalidade
Nos últimos anos as tentativas de aproximar as duas Igrejas foram dificultados por desconfiança mútua.
Os ortodoxos ressentem-se, entre outras coisas, da suposta expansão do catolicismo em áreas que antes faziam parte da União Soviética.
Também se opõem ao papel que a Igreja Católica vem exercendo na Ucrânia, especialmente pelo que consideram posturas pró-ocidentais e antissoviéticas.

Qual a razão porque as Igrejas Católica e Ortodoxa estão afastadas há mil anos?
Em 1054, o papa de Roma e o patriarca de Constantinopla excomungaram-se mutuamente, dando início ao que se conhece como o grande cisma do cristianismo – que persiste até hoje.
Mesmo antes disso já perdurava um distanciamento cultural. Na Igreja do Ocidente  falava-se o latim, enquanto no Oriente bizantino prevalecia a cultura helenística grega. Além disso havia grandes diferenças doutrinárias, como sobre a natureza do Espírito Santo.
Outra diferença fundamental é o modo como as duas igrejas entendem a função de seu mandatário:

Na Igreja Católica o papa é a máxima figura de autoridade.  Calcula-se que a Igreja Católica tenha 1,2 bilião de fiéis.

A Igreja Ortodoxa está dividida em patriarcados entre os quais existe uma igualdade: o de Istambul, com 10 mil fiéis, tem certa preeminência, mas não possui jurisdição sobre toda a Igreja Ortodoxa. O de Moscovo tem influência sobre 200 milhões de fiéis.
Além disso, a Igreja Ortodoxa Russa sempre esteve vinculada com o poder, seja com o imperador, com o czar ou com o Partido Comunista. Atualmente, desde 2009, o patriarca Kirill mantém uma relação estreita com Vladimir Putin.

E a partir de agora?
A unidade do cristianismo não ocorrerá de um dia para o outro. Mas o encontro surge como uma tentativa de iniciar um processo que exigirá concessões de todas as partes.
Do ponto de vista católico, a aproximação é parte da agenda de reformas do Papa Francisco. Entre elas está não deixar que a primazia papal seja obstáculo para a unidade da Igreja.
Para a Igreja Ortodoxa o problema é inverso, devido à falta de uma liderança clara. Há 50 anos tenta-se convocar um sínodo, uma assembleia de bispos – mas não há uma autoridade central para o convocar.
Talvez o patriarca Kirill enfrente mais pressão interna do que o Papa Francisco: "As forças conservadoras em Moscovo não apreciam a reunificação com o Ocidente porque isso os enfraquece", segundo a opinião de teólogos da Universidade Católica da América, nos Estados Unidos.

Deus conceda ao Papa Francisco a longevidade e força necessárias para realizar todas as reformas que tão corajosamente se propõe levar a cabo e que o mundo tão ansiosamente aguarda.


Rezemos por ele, como ele sempre nos pede.





quarta-feira, fevereiro 17, 2016

IMAGEM DO DIA, COM MIA COUTO








PELA NOITE, COM MIA COUTO: " PROMESSA DE UMA NOITE "




PROMESSA DE UMA NOITE


cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se

ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor


MIA COUTO,
in “Raiz de orvalho e outros poema”




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