quinta-feira, julho 30, 2015

ABRAÇO, AMIGOS, NESTE DIA MUNDIAL DA AMIZADE 2015- E porque a Poesia é Música: Fernando Pessoa(Poema) e Rodrigo Costa Félix(Balada): "Amigo Aprendiz"






POEMA DE UM AMIGO APRENDIZ


Quero ser teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te, sem medida,
e ficar na tua vida
da maneira mais discreta
que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade.
Sem jamais te sufocar.
Sem falar quando for hora de
calar, e sem calar, quando
for hora de falar.
Nem ausente nem presente por
demais, simplesmente,
calmamente, ser-te paz...
É bonito ser amigo.
Mas, confesso,
é tão difícil aprender!
E por isso
eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto
de lembranças!
Dá-me tempo
de acertar nossas distancias!
  

FERNANDO PESSOA
(Poema)


Rodrigo Costa Félix: Entre as melhores baladas “Amigo aprendiz”, uma das canções do último disco de Rodrigo Costa Félix, com música de Tiago Bettencourt e poema de Fernando Pessoa, foi seleccionada pela revista norte-americana “The Atlantic” para integrar a lista das 12 baladas "épicas" para ouvir em 2012, sendo que a revista fez questão de não escolher nenhuma balada cantada em inglês.





quarta-feira, julho 29, 2015

PELA NOITE, COM FERNANDO PESSOA: "ALÉM-DEUS, IV) A QUEDA"






ALÉM DEUS


IV) A QUEDA

Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...

Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão que se não pode ver...

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...



FERNANDO PESSOA




MORRE BOBBI KRISTINA BROWN. FILHA DE WHITNEY HOUSTON..







A filha de Whitney Houston e Bobbi Kristina Brown,  morreu no domingo dia 26, aos 22 anos de idade, após ter permanecido durante vários meses em coma induzido pelos médicos, quando foi encontrada, em janeiro, submersa  numa banheira. A sua morte põe fim a uma vida em que a tragédia e a fama  deram as mãos, desde o seu nascimento.

Bobbi Kristina foi fruto de um dos casamentos mais tumultuosos do mundo da música, e a sua vida foi vivida à sombra da fama de seus pais e dos escândalos que eles protagonizaram.
 Uma vida marcada nos últimos anos pela morte da sua mãe, Whitney Houston, quando Krissy, como a conheciam em família, tinha apenas 18 anos. Naquele dia, Bobbi Kristina recebeu, no saguão do hotel Beverly Hilton de Los Angeles, a notícia de que sua mãe tinha morrido de uma overdose, afogada na banheira do seu quarto de hotel, um dia antes da entrega dos prémios Grammy.

A jovem teve que ser levada nesse mesmo dia a um hospital para ser tratada de um ataque de nervos.

“Finalmente descansa em paz nos braços de Deus”, declarou a sua família, num comunicado à imprensa pouco depois da morte no hospital cristão de Peachtree em Duluth (Geórgia, Estados Unidos). Esse foi o último centro médico pelo qual Bobbi passou desde que foi encontrada de bruços na banheira da sua casa em Roswell, também na Geórgia, no dia 31 de janeiro. Desde então Bobbi esteve em coma induzido e ligada a um balão de oxigénio para poder respirar. As esperanças de que pudesse voltar a recuperar a consciência foram escassas desde o primeiro momento.

Não houve menção dos escândalos que a perseguiram, mesmo quando hospitalizada e em coma.
Quando os seus pais se separaram, Bobbi Kristina tinha 14 anos e a jovem ficou sob a custódia da mãe, a quem se sentia particularmente ligada. Krissy foi a herdeira da fortuna multimilionária de Whitney Houston.
As semelhanças entre as mortes de ambas, encontradas em banheiras, assim como o futuro dessa grande fortuna, farão certamente correr rios de tinta, depois do seu falecimento.




 Descanse em paz, para sempre na companhia da mãe que tanto amou e cuja falta tanto sentiu.
E nós, também.

“We´ll always love you”, Whitney.



domingo, julho 26, 2015

PELA NOITE, COM RUY BELO: "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES"






QUANTO MORRE UM HOMEM


Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?



RUY BELO,
 “Aquele Grande Rio Eufrates”




sábado, julho 25, 2015

À NOITINHA, COM MIA COUTO: "CADA HOMEM É UMA RAÇA"






" Sem eu ser ela, eu me incompletava, feito só na arrogância das metades. 
Nela, eu encontrava não mulher que fosse minha, 
mas a mulher de mim, essa que, em diante, 
me acenderia em cada lua.

_ Me deixa nascer em ti. "


MIA COUTO,  
"Cada homem é uma raça"


quinta-feira, julho 23, 2015

PELA NOITE, COM VASCO GRAÇA MOURA: "LAMENTO POR BIOTINA"







LAMENTO POR DIOTIMA


o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,

num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?



VASCO  GRAÇA MOURA



PRÉMIO CALOUSTE GULBENKIAN 2015 - DR. DENIS MUKWEGE (República Democrática do Congo)







Com particular alegria, publico hoje esta mensagem. Bem haja este grande herói, cientista e humanista, radicado nestas terras africanas tão queridas.

Denis Mukwege, médico congolês que tem dedicado a sua vida a assistir mulheres vítimas de violação na República Democrática do Congo, é o vencedor do Prémio Calouste Gulbenkian 2015.

No valor de 250 mil euros, o Prémio foi entregue no dia 20 julho, segunda-feira, às 19h, no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação, seguindo-se um concerto pela Orquestra Gulbenkian.

Presidido por Jorge Sampaio, o júri do Prémio Calouste Gulbenkian,  distinguiu este ano a extraordinária ação humanitária desenvolvida pelo médico ginecologista Denis Mukwege na República Democrática do Congo, um país onde a violação e a mutilação sexual são utilizadas como arma de guerra.

Nascido em 1955,  Mukwege especializou-se no tratamento de mulheres violentadas pelas milícias armadas do seu país, sobretudo durante a guerra civil (1998-2003). O hospital que fundou em 1999, em Bukavu, The Panzi Hospital,  tornou-se uma referência mundial na reparação e tratamento das lesões provocadas por este género de agressão, tendo, desde então, prestado apoio clínico, psicológico, social e jurídico a dezenas de milhares de mulheres.

Apesar de a guerra civil na República Democrática do Congo ter terminado em 2003, vários grupos armados lutam pelo controlo dos riquíssimos recursos naturais do país, criando um clima de guerra e de instabilidade, em que as mulheres se tornaram as principais vítimas. As violações são um instrumento de domínio através do terror e dão-se sistematicamente nas aldeias, com toda a comunidade a assistir. Normalmente os agressores não ficam por aí, torturando e mutilando gravemente as mulheres. Muitas são queimadas com substâncias químicas ou alvejadas a tiro nos órgão genitais. Esta estratégia, usada pelas milícias armadas,  com consequências devastadoras para as mulheres e para toda a comunidade, leva as pessoas a abandonar as aldeias, os seus campos e os seus bens.



Há alguns anos atrás, Mukwege escapou a uma tentativa de assassinato após ter denunciado e condenado o uso da violência sexual nesta guerra motivada puramente por interesses económicos. Nessa altura abandonou país com a família, mas acabou por voltar, inspirado pela determinação das mulheres em lutar contra as atrocidades de que são vítimas.

Denis Mukwege, que se deslocou Lisboa para receber o Prémio Calouste Gulbenkian, foi vencedor do Prémio Olof Palme em 2008 e do Prémio Sakharov em 2014, entre outros.

O Prémio Calouste Gulbenkian é atribuído a uma instituição ou a uma pessoa, portuguesa ou estrangeira, que se tenha distinguido na defesa dos valores essenciais da condição humana. 

Foi atribuído pela primeira vez em 2012 à West-Eastern Divan Orchestra, a formação liderada por Daniel Barenboim, tendo nos anos seguintes, contemplado, respetivamente, a Biblioteca de Alexandria (2013) e a Comunidade de Santo Egídio (2014).  

Parabéns! Bem haja, Dr. Denis Mukwege.








terça-feira, julho 21, 2015

O "CARINHO" DE ANGELA MERKEL...










A história  tornou-se viral e teve duas protagonistas: Uma foi a chanceler alemã Angela Merkel e outra, uma adolescente de origem palestiniana, a viver e a estudar na Alemanha, depois de ter permanecido num campo de refugiados do Líbano.

O cenário foi um programa de televisão, chamado, com ironia, “Viver bem na Alemanha”. 
A jovem palestiniana, tomou a palavra para manifestar o seu medo de ser expulsa: “Há pouco tempo, passámos por tempos difíceis, porque estávamos prestes a ser expulsos. Sentia-me muito mal na escola. Os professores e colegas perceberam”, disse a jovem.

Merkel reagiu e a resposta que deu correu mundo: 

“Nos campos de refugiados palestinianos no Líbano há milhares e milhares de pessoas. Imaginem que vêm todos, mais aqueles que vêm de África. É algo que não vamos poder gerir. A única coisa que podemos tentar fazer é tomar uma decisão o mais depressa possível. Mas há pessoas que têm mesmo de se ir embora”.

Assim que a chanceler acabou de falar, a jovem desfez-se em lágrimas…

Merkel ainda  tentou consolá-la e felicitou-a mesmo pela sua coragem. Mas o caso não tardou a causar um misto de desconforto e humor nas redes sociais, não tanto pelas palavras em si, mas pelo contexto e grande falta de sensibilidade da chefe do governo... 





segunda-feira, julho 20, 2015

PELA NOITE, COM JOSÉ RÉGIO: "CÂNTICO NEGRO"






CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se às coisas que pergunto em vão, ninguém responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios passos na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis ferramentas, machados e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes jardins,
Tendes canteiros, tendes estradas,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes livros, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Não me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



JOSÉ RÉGIO





domingo, julho 19, 2015

OMAR SHARIF (1932-2015), DEIXOU-NOS NA SEMANA PASSADA...









No passado dia 10 de julho morreu o ator Omar Sharif, aos 83 anos de idade, em consequência de um ataque cardíaco. Natural do Egito, encontrava-se internado num hospital para pacientes com Alzheimer.

Sharif começou a sua carreira cinematográfica na década de 1950 e tornou-se mundialmente conhecido no papel de um líder árabe aliado de Peter O'Toole (T.E. Lawrence) no filme de David Lean "Lawrence of Arabia" (1962).

O papel de protagonista surgiu em "Doutor Jivago" (1965), também de David Lean, uma adaptação do romance de Boris Pasternak, passado durante a Revolução Russa.
 Com "Lawrence da Arábia" ganhou o prémio "Golden Globe" para melhor ator secundário e foi nomeado para o Óscar de melhor ator secundário. Com "Doutor Jivago" conquistou o "Golden Globe" para melhor ator.

Foi Genghis Khan e Che Guevara e participou em filmes tão diferentes como "Mayerling" (1968) de Terence Young, "Funny Girl" (1968) de William Wyler, ao lado de Barbra Streisand, ou "Os Possessos" (1988) de Andrzej Wajda.
Depois de um Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 2003, pelo conjunto da sua carreira, Sharif recebeu o César em 2004 para Melhor Ator em "Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran" de François Dupeyron, no qual interpreta um velho merceeiro árabe que se torna amigo de um jovem judeu.

De nome Demitri Chalhoub, nasceu a 10 de abril de 1932, em Alexandria (norte do Egito), numa família de origem libanesa e cristã (da igreja católica greco-melquita).

Licenciou-se em matemática e física na Universidade do Cairo, antes de se mudar para Londres para estudar na Royal Academy of Dramatic Art. Casou-se em 1954 com a atriz egípcia Faten Hamama, depois de se converter ao islamismo. O casal teve um filho, Tarek, e separou-se em 1956.

Poliglota, Omar Sharif viveu sobretudo em França, nos Estados Unidos e em Itália. Já doente de Alzheimer, regressou ao Cairo.


Descanse em paz.






PELA NOITE, COM MANUEL BANDEIRA: " A ESTRELA "





A ESTRELA


Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.



MANUEL BANDEIRA

(1886/04/19 - 1968/10/13

Brasil)

sexta-feira, julho 17, 2015

À NOITINHA, COM A POETA L.C.: " SEM CULPA"





SEM CULPA


Dizes agora que eu quis acabar,
que sou culpada dos teus tristes dias;
que não te amei ou te soube amar;
porém é falsa a teima em que porfias.

Deixavas-me sozinha a delirar
ciúmes, em loucuras e bravias
crispações; começava a agonizar
o meu amor e tu... nada fazias!

Não qu´rias acabar mas insististe
nesta separação tão longa e triste
escrevias-me cartas tão banais!...

Porque quiseste ser o meu ausente?
...se o meu amor já era tão doente
e eu já não podia acreditar-te mais!


L.C.
Inverno,1925




PELA NOITE, COM VASCO GRAÇA MOURA: " O SUPORTE DA MÚSICA "






O SUPORTE DA MÚSICA


o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.


VASCO DA GRAÇA MOURA



quinta-feira, julho 16, 2015

UM VELHINHO QUE SE CHAMAVA JESUS - UM TEXTO SOBRE O PAPA FRANCISCO, QUE NÃO DEIXA NINGUÉM INDIFERENTE!






Era uma vez um velhinho que se chamava Jesus

Reproduzo esta crónica de Marta Arrais publicada em IMISSIO, seguidamente pelo Padre José Luís Rodrigues no seu blogue "O Banquete da Palavra", porque se revela de uma ternura impressionante e nos faz verter lágrimas de comoção. Mais ainda nos dá conta do mistério da vida que se revelou no Papa Francisco e que levou para o céu esta mulher... .

Descia a rua entre gritos de crianças, de jovens, de homens de barba por fazer, de mulheres de pele macilenta. Descia a rua apertada, sem medo de colocar um dos pés numa poça de lama. Descia a rua sem medo de nada. Os velhos ancoravam-se nas suas bengalas tristes e sorriam à possibilidade da sua visita. Vem lá Jesus. Diziam os mais pequenos entre risos que têm fome de pão e de outras coisas tão importantes como essa. Na favela ninguém tem casa porque a casa de um é a casa de todos. São esqueletos de casas. Prestes a ruir como a vida de quem espreita o caminho para ver se Jesus já lá vem. A avó da favela é velha o suficiente para ter visto nascer cada um dos que já são velhos. Empoleira-se em cada pé como um passarinho cansado da vida e de voar e apoia-se nas pernas que já não sente como suas. Se ao menos tivesse a alegria de ver Jesus. Só Jesus podia salvar aquela gente de uma vida tão sem saídas. Se ao menos Ele viesse e aterrasse naquele lugar. Se ao menos Ele viesse sorrir-lhe. Nem era preciso milagre nenhum. Nem pães aos milhares, nem talhas com vinho. Bastava o sorriso. Se Jesus viesse e lhe sorrisse teria o seu milagre. 

E Jesus vinha mesmo. Tinha ouvido as orações da avó da favela. Não te peço nada meu Jesus. Só que me venhas ver a mim e a todos estes filhos que não tenho mas que são meus. Talvez assim pudesses mudar a nossa vida. Se agarrasses na cara como quem me conhece de outras eras e me beijasses a testa como quem beija o Céu. Se ao menos viesses aqui ver-me! 

E veio. Vinha vestido de branco. Fazia lembrar um anjo daqueles que andam a ajudar no Céu. Tinha umas abas de lado, aquele vestido. Não estava engelhado. Ao peito uma cruz bonita, prateada. O cabelo branco adivinhava-se por baixo de algo que não era um chapéu. Era a promessa de um chapéu mas não era nenhum chapéu. Estava à espera de ver um Jesus barbudo, alto e moreno. De sandálias nos pés e de milagres nos braços. De traje empoeirado e de cabelo comprido e escuro. Mas não. Tinha andado enganada toda a vida. Jesus era um velhinho e chamava-se Francisco. Era esse o nome d’Ele. Chamava-se Francisco e tinha vindo vê-la a ela e aos filhos que, não sendo seus, sempre o tinham sido. 

Implorou aos pés que a levassem até mais perto. Eles obedeceram, esquecendo o cansaço de uma vida. Jesus segurou-lhe a mão velha e carcomida pela miséria e beijou-a como quem se ajoelha. Segurou-lhe a cara com as mãos e olhou para dentro dela, como se a conhecesse desde sempre. Deixou-se olhar, deixou-se ver. Deixou deslizar a mão direita pelo seu rosto engelhado e continuou o seu caminho. A avó da favela respirou fundo, cerrou os olhos e agradeceu com uma oração que fez chorar o Céu.

Obrigada Jesus por teres vindo ver-me. Olhaste para mim como quem olha para uma criança e, de uma vez só, amaste-me mais do que a vida alguma vez me amou.


Nota: A avó da favela morreu no dia seguinte, enquanto dormia. Antes de Jesus a levar para o Céu deixou-a sonhar o mais bonito de todos os sonhos. Que Jesus a tinha vindo visitar, que era um velhinho e que se chamava Francisco.


Por Marta Arrais (15-07-2015)

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