segunda-feira, abril 28, 2014

PELA NOITE...Com Vasco Graça Moura (1942-2014)






SONETO DO AMOR E DA MORTE


quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.


quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não


tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.



VASCO GRAÇA MOURA(1942-2014),
in "Antologia dos Sessenta Anos"





Com este poema, "Preto, Branco, E.." presta uma singela e derradeira homenagem a quem foi uma das maiores figuras da cultura portuguesa do século XX, agora desaparecida.


O QUE CELEBRAMOS HOJE...- Dia Mundial do Sorriso





HOJE , SEMPRE, " O SORRISO É O ARCO-ÍRIS DO ROSTO "...
(Jean Commerson)




domingo, abril 27, 2014

ESTA NOITE...Com José Régio





CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

JOSÉ RÉGIO






quinta-feira, abril 24, 2014

DO 25 DE ABRIL, GUARDO ESTA RECORDAÇÃO.




OS PUTOS

Uma bola de pano, num charco
 Um sorriso traquina, um chuto
 Na ladeira a correr, um arco
 O céu no olhar, dum puto.

 Uma fisga que atira a esperança
 Um pardal de calções, astuto
 E a força de ser criança
 Contra a força dum chui, que é bruto.

 Parecem bandos de pardais à solta
 Os putos, os putos
 São como índios, capitães da malta
 Os putos, os putos
 Mas quando a tarde cai
 Vai-se a revolta
 Sentam-se ao colo do pai
 É a ternura que volta
 E ouvem-no a falar do homem novo
 São os putos deste povo
 A aprenderem a ser homens.

 As caricas brilhando na mão
 A vontade que salta ao eixo
 Um puto que diz que não
 Se a porrada vier não deixo

 Um berlinde abafado na escola
 Um pião na algibeira sem cor
 Um puto que pede esmola
 Porque a fome lhe abafa a dor.

ARY DOS SANTOS
1937-12-07 - 1984-01-18

Portugal








terça-feira, abril 22, 2014

33, A CONTA QUE JESUS FEZ...- SLB CAMPEÃO NACIONAL DE FUTEBOL 2014







Neste último domingo, depois de obter mais uma brilhante vitória, o  Benfica consagrou-se Campeão Nacional de Futebol 2013-2014. Ao Glorioso, prestamos esta singela homenagem, tendo no coração o quanto o Benfica tem feito pela divulgação do nome de Portugal.

OBRIGADA, CAMPEÃO!








NO DIA MUNDIAL DA TERRA, Com ALBERTO CAEIRO (Heterónimo de FERNANDO PESSOA)



SE EU PUDESSE TRINCAR A TERRA TODA


 Se eu pudesse trincar a terra toda
 E sentir-lhe um paladar,
 Seria mais feliz um momento ...
 Mas eu nem sempre quero ser feliz.
 É preciso ser de vez em quando infeliz
 Para se poder ser natural...
 Nem tudo é dias de sol,
 E a chuva, quando falta muito, pede-se.
 Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
 Naturalmente, como quem não estranha
 Que haja montanhas e planícies
 E que haja rochedos e erva ...
 O que é preciso é ser-se natural e calmo
 Na felicidade ou na infelicidade,
 Sentir como quem olha,
 Pensar como quem anda,
 E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
 E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
 Assim é e assim seja ...


ALBERTO CAEIRO, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"

 (Heterónimo de Fernando Pessoa)



sábado, abril 19, 2014

PARA TODOS, UMA SANTA E FELIZ PÁSCOA...






“EIS O MISTÉRIO DA FÉ!”.

“ANUNCIAMOS, SENHOR, A VOSSA MORTE E 
PROCLAMAMOS A VOSSA RESSURREIÇÃO. VINDE, 
SENHOR JESUS!”


PARA TODOS, UMA SANTA E FELIZ PÁSCOA .





sexta-feira, abril 18, 2014

Morre o Escritor Colombiano Gabriel García Márquez








Agora, já ninguém escreve ao coronel. Gabriel García Márquez faleceu, esta quinta-feira, em casa, na cidade do México, acompanhado pela mulher e pelos dois filhos.

O escritor colombiano tinha 87 anos e regressara, recentemente, do hospital, onde tinha sido internado devido a uma pneumonia.

O Nobel da Literatura, que classificara Lisboa como a maior aldeia do mundo, disse,em 1970, que “Portugal estava condenado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do mundo”.

A Colômbia decretou três dias de luto nacional. 
Morreu o escritor que seduziu milhões de pessoas com as suas histórias, ancoradas no realismo mágico.

Uma das primeiras reações à morte de “Gabo”, como era conhecido, surgiu de um outro escritor latino-americano, Mario Vargas Llosa: “Morreu um grande homem, cujo trabalho deu uma enorme difusão e prestigio à língua espanhola. As suas histórias sobrevivem e continuarão a ganhar leitores em todo o lado. Envio as minhas condolências à família”, declarou o escritor.
"100 Anos de Solidão", "Amor em Tempos de Cólera" ou "Crónica de uma Morte Anunciada", são algumas das obras do Nobel da literatura de 1982.

O seu corpo será incinerado no México.


O dom da escrita fez de Gabriel García Marquéz, Prémio Nobel da Literatura (1982), um dos autores de referência do século XX. No ano passado, Jaime García Marquéz, irmão do autor, anunciou ao Mundo que o escritor sofria de uma demência senil. Como despedida, o Nobel escreveu uma carta, que reproduzo na íntegra:

“Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo o que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e disfrutaria de um bom gelado de chocolate.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jogar-me-ia de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!… Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor.

Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.

A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.

Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi com vocês, os homens… Aprendi que todos querem viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer.”

Todavia, ao longo do tempo, a autoria desta carta tem sido contestada...


Descanse em paz na morte, quem tanto nos encantou em vida.








quinta-feira, abril 17, 2014

VIA CRUCIS (VIA SACRA) - Sexta Feira Santa







Num tempo em que somos convidados à reflexão, a Igreja Católica convida-nos a  percorrer o caminho
que Cristo percorreu, desde a sua entrada triunfante em Jerusalém até à  morte na cruz. É um percurso que se estende desde o Pretório até ao Calvário. As suas estações, presentemente, são  quatorze, embora ao longo do tempo este número tenha sofrido alterações.

1.Estação: Jesus é condenado à morte
2.Estação: Jesus carrega a cruz às costas
3.Estação: Jesus cai pela primeira vez
4.Estação: Jesus encontra a sua Mãe
5.Estação: Simão Cirineu ajuda a Jesus
6.Estação: Verónica limpa o rosto de Jesus
7.Estação: Jesus cai pela segunda vez
8.Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
9.Estação: Terceira queda de Jesus
10.Estação: Jesus é despojado de suas vestes
11.Estação: Jesus é pregado na cruz
12.Estação: Jesus morre na cruz
13.Estação: Jesus é descido da cruz
14.Estação: Jesus é Sepultado





João Villaret - "A Procissão", de António Lopes Ribeiro






PROCISSÃO

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.


ANTÓNIO LOPES RIBEIRO








quarta-feira, abril 16, 2014

PELA NOITE...Com David Mourão-Ferreira





NOCTURNO


O desenho redondo do teu seio
 Tornava-te mais cálida, mais nua
 Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
 À beira-mar, de noite, havendo lua...

 Talvez a espuma, vindo, conseguisse
 Ornar-te o busto de uma renda leve
 E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
 Em ti, a branca irmã que nunca teve...

 Pelo que no teu colo há de suspenso,
 Te supunham as ondas uma delas...
 Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
 Era um convite lúcido às estrelas....

 Imaginei-te assim à beira-mar,
 Só porque o nosso quarto era tão estreito...
 - E, sonolento, deixo-me afogar
 No desenho redondo do teu peito...



DAVID MOURÃO-FERREIRA



terça-feira, abril 15, 2014

O OUTONO TAMBÉM SE PINTA COM CORES DA PRIMAVERA...





Sarah Jones é a nova revelação do concurso de talentos "Britain's Got Talent" 2014. Esta bisavó, de 79 anos, impressionou o júri com um momento virogoso de salsa acrobática, mostrando resistência e flexibilidade, ao dançar com o seu parceiro Nico Espinosa, 40 anos mais novo… 






domingo, abril 13, 2014

DIA MUNDIAL DO BEIJO - Alexandre O'Neill





O BEIJO


O Beijo Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...



ALEXANDRE O’NEILL,
in 'No Reino da Dinamarca'



sexta-feira, abril 11, 2014

TRIBUTO A MANUEL BANDEIRA NO 40.º ANIVERSÁRIO DA SUA MORTE





O ÚLTIMO POEMA


Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


MANUEL BANDEIRA


Com estes versos homenageamos o poeta Manuel Bandeira na passagem dos 40 anos de seu falecimento (13/10/1968).


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