terça-feira, fevereiro 28, 2017

QUARESMA, UM TEMPO PARA MUDAR DE VIDA - Mensagem do Santo Padre Francisco para a Quaresma 2017



 Transfiguração, de Raffaello Sanzio 


Iniciamos amanhã, Quarta feira de cinzas, um novo tempo na liturgia cristã, o Tempo da Quaresma.
É um tempo que se identifica com o deserto, com um retiro de 40 dias, que simboliza os 40 anos de travessia do povo de Deus no deserto após a libertação do Egito, sob o comando de Moisés até à terra prometida.
O deserto da nossa vida e nele as suas tentações, que podem fazer tanto de bom como tanto de mau. Não tenhamos medo do deserto nem das tentações. Tudo serve para robustecer a alma que vai ao encontro de Deus.

Deixo-vos uma pequena história que ilustra bem como pode ser feita a nossa viagem neste mundo. Deus está lá sempre, basta confiar com verdade.

A VIDA NUMA HISTÓRIA

Sonhei que caminhava à beira do mar com Deus e revia no écran do céu todos os dias da minha vida passada, e por cada dia transcorrido apareciam na areia duas pegadas, as minhas e as de Deus. Mas em alguns momentos, precisamente naqueles que correspondiam aos dias mais difíceis da minha vida, vi apenas uma pegada.
Então disse:
  - Senhor, escolhi viver contigo e Tu prometestes que estarias sempre comigo. Por que é que me deixaste só nos momentos mais difíceis?
Ele respondeu-me:
  - Sabes que te amo e nunca te abandonei. Os dias nos quais há apenas umas pegadas na areia são aqueles em que eu te levei nos meus braços.

(autor desconhecido)

BOA QUARESMA PARA TODOS.


Mensagem do Santo Padre Francisco para a Quaresma 2017, sobre o tema "A Palavra é um dom. O outro é um dom":

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

1. O outro é um dom
A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.
A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).
Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

2. O pecado cega-nos
A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).
O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.
Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).
O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.
Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).


3. A Palavra é um dom
O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).
Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.
Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.
Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).
Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.
Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

Vaticano, 18 de outubro de 2016.

Festa do Evangelista São Lucas

FRANCISCO

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

À NOITINHA, COM ALBERTO CAEIRO(Het. de FERNANDO PESSOA): "SE EU PUDESSE TRINCAR A TERRA TODA"





SE EU PUDESSE TRINCAR A TERRA TODA


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...


Voz: Pedro Lamares

ALBERTO CAEIRO,
(Het. de FERNANDO PESSOA)
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"




IMAGEM DO DIA, COM MIA COUTO






PELA NOITE,COM VÍTOR COSTEIRA: "SE EU TE OFERECER UMA FLOR..."




SE EU TE OFERECER UMA FLOR...


Se eu te oferecer uma flor
vais fingir que não sentes a dor
que deveras sentes
e sorris para mim
como se fosse a primeira vez
que me vês,
como se o teu olhar
se deixasse enfeitiçar,
não por mim,
nem pelo meu canino olhar,
mas sim e tão-só pela flor…?

Vais passar a mão pelo cabelo,
num gesto tão descuidado
quanto nervoso e belo,
despenteando o penteado,
e vendo-me como um príncipe formoso,
aquele que apenas existiu
nas promessas que nunca cumpriu,
nos sonhos que inventou
e onde apenas um de nós se fez voo…?

Vais rodar distraída os anéis
e fazer de conta
que contas as contas do teu colar,
enquanto desfias amarguras
nas frias e marciais ternuras
que habitam os teus frios dias
e que desafias a serem melodias
num drama de não merecias…?

O que vais tu fazer?
Que palavras não me vais dizer?
Com que indiferença me vais bater?
Com que raiva, com que ardor
tu me vais receber
se eu te oferecer uma flor?

Faz um último favor…
Com uma das mãos, diz-me adeus
e recebe a flor, com a outra mão,
aceitando o gesto com o resto do teu amor
e entende-o como um pedido de perdão,
se eu um dia te oferecer uma flor…


VITOR.C,
in "Sou teu"







quinta-feira, fevereiro 23, 2017

PELA NOITE, COM ARY DOS SANTOS: "SONETO DE INÊS"



SONETO DE INÊS


Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês! Inês! Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS
(ARY DOS SANTOS)


quarta-feira, fevereiro 22, 2017

"FOREVER TANGO" E LUIS BRAVO NO TEATRO TIVOLI Bbva, DE LISBOA - A não perder...(6 de Maio de 2017)





Habanera, Candombe, Milonga e Vals Payada, são géneros de dança e de música que misturados são apontados como as origens do que o mundo conhece hoje como ritmos de tango. Reconhecidos como oriundos da Argentina e Uruguai, no entanto, são o resultado do encontro cultural entre negros, mestiços e europeus, conseguindo estabelecer-se como uma disciplina multicultural. 

Nasceu no Rio de la Plata, nos portos de Buenos Aires, entre marinheiros e prostitutas. Dança de sedução e de combate entre macho e fêmea, em que a mulher acaba sempre por vencer.

Tango
No início do século XX, o tango adquire os seus contornos iniciais e adota uma identidade. Com o aparecimento das primeiras gravações aumenta as suas audiências, e expande o seu público nos cafés e salões de dança. A Era de Ouro vem com os anos 40 , com a rádio e o cinema: o tango para além dos limites do River Plate, espalha-se por todo o mundo. As décadas de 60 e 70 foram tempos mais difíceis. Apenas em 1983, como género musical consegue forte recuperação e identidade nacional com a democracia e a estreia do espetáculo de Tango Argentino em Paris.
Alguns associam-no à palavra africana Tango, que significa "lugar de encontro”, enquanto outros fixam as suas raízes na palavra Tanpu, de origem quíchua ou ainda no Flamenco, fluxo musical de cidades da Andaluzia.

O tango paixão e energia e demanda, tornou-se uma espécie de motor de vida para o especialista Luis Bravo, um argentino que sucumbiu ao encanto de realizar o maior espetáculo na história deste género musical: Forever Tango.
Foi em 23 de novembro 1990 que criou as raízes desta produção, em San Diego. Em seguida, fez uma pequena pausa e continuou a conquistar o público, a tal ponto que até à data Forever Tango tem sido apresentado ininterruptamente em todo o mundo.

Forever Tango é para mim o que significa para qualquer artista de seu próprio trabalho. É o meu maior trabalho e há já 25 anos que percorro todo o mundo, com temporadas de sucesso em Londres, Tóquio e muitas das capitais mais importantes”, declarou Luis Bravo.
O seu trabalho tem cores e formatos de clássico, não-clássico, popular, antigo e moderno. A montagem é centrada nos arranjos que fizeram para reposição Matos Rodriguez, Astor Piazzolla e Carlos Gardel, entre outros.

A chegada de Forever Tango ao nosso país, sem dúvida, é muito mais do que uma oportunidade para ver tango, porque é realmente uma janela aberta para a história deste género, que concilia canto, música e dança no mesmo espetáculo. A dança nacional da Argentina regressa à nossa capital, Lisboa, num espetáculo marcado para o dia 6 de maio no Teatro Tivoli Bbva. Certamente lá estarei…
Como diz Luis Bravo, o tango é “um sentimento que se dança, uma história que se conta em três minutos”.

Forever Tango embora não seja ”para sempre”, como o título sugere, dura muito mais que três minutos.

O resto do tempo é preenchido por sonhos.






PELA TARDE, COM MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA: " ESTA MANHÃ ENCONTREI O TEU NOME"





ESTA MANHÃ ENCONTREI O TEU NOME


Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.



MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA




Maria do Rosário Pedreira nasceu em 1959 e é editora e escritora. 

Desempenha atualmente funções no grupo Leya, depois de ter passado pela editora QuidNovi, pela Temas & Debates e pela Gradiva.




terça-feira, fevereiro 21, 2017

PELA NOITE, COM LUÍS VAZ DE CAMÕES: "CÁ NESTA BABILÓNIA"




CÁ NESTA BABILÓNIA



Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!



LUÍS VAZ DE CAMÕES,
in "Sonetos"


segunda-feira, fevereiro 20, 2017

ESTA NOITE A MÚSICA ANDA NO AR, COM ERNESTO CORTAZAR: "WALTZ OF LOVE"




Hoje "PRETO, BRANCO, E...", escolheu uma vez mais o pianista Ernesto Cortazar para acompanhar a nossa noite.
Aceitemos o seu convite, e dançando, vivamos  melhor... 

BOA NOITE, AMIGOS


PELA NOITE, COM AFONSO LOPES VIEIRA: "DANÇA DO VENTO"





DANÇA DO VENTO


O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,

E tudo baila em redor!


AFONSO LOPES VIEIRA




Afonso Lopes Vieira
Afonso Lopes Vieira(1878-1946) nasceu em 26 de janeiro de 1878, em Leiria e faleceu em 25 de janeiro de 1946, em Lisboa. A sua infância foi vivida em Leiria, e já em idade escolar foi viver para Lisboa. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi relator da Câmara dos Deputados. 
Com a publicação do livro Para Quê? (1897) faz a sua estreia poética, iniciando um período de intensa actividade literária: Ar Livre (1906), O Pão e as Rosas (1908), Canções do Vento e do Sol (1911), Poesias sobre as Cenas Infantis de Shumann (1915), Ilhas de Bruma (1917), País Lilás, Desterro Azul (1922), Versos de Afonso Lopes Vieira (1927), e Onde a terra se acaba e o mar começa (1940). 
Dedicou-se também à literatura infantil, de que são exemplos mais marcantes “Amigos nossos amigos”, “Bartolomeu Marinheiro” e “Canto Infantil”. O poeta e escritor é um exemplo de promoção dos valores artísticos e culturais nacionais. Afonso Lopes Vieira demarcou-se da ditadura ao escrever o texto Éclogas de Agora (1935), uma edição de autor que distribuiu aos amigos próximos.



MIA COUTO, SEMPRE...


 DIZ O MEU NOME



Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome


MIA COUTO,
in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



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