domingo, julho 31, 2016

PELA NOITE, COM RICARDO REIS (Het. FERNANDO PESSOA): "SEGUE O TEU DESTINO"




SEGUE O TEU DESTINO

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


RICARDO REIS, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa 





NO DIA MUNDIAL DO AMIGO, PARA TODOS OS QUE O SÃO






AMIGO


Porque vejo nos teus olhos
sem os ver
Porque sinto a tua presença
sem a ter
Porque me escutas
sem me ouvires
Porque me afagas
sem me tocares
Porque me olhas
sem me ver
Porque derrotas
a minha solidão
Porque me iluminas
quando há escuridão
Porque és
Verdade
Luz
Espelho
Água
Vida
Sorriso
Ponte
Mar
Casa
Porque és
partilha
És
meu amigo.


FÁTIMA GUIMARÃES







sábado, julho 30, 2016

À NOITINHA, COM HARI TRINDADE: "ANTES QUE A AURORA CHEGUE"



ANTES QUE A AURORA CHEGUE


Antes que a aurora chegue
envelheço sonhando
no contratempo sombrio
de tua distante presença
atravesso mundos
só para te amar
és tu quem me faz
sair pela noite a vagar
e quando te encontro
no meu sonhar
rejuvenesço outra vez
ao contigo estar
quando chega a aurora
desperto com a boca seca
queria não me afastar

- juntos para sempre ficar , amar, amar, e amar


HARI TRINDADE


Art by Alicja Ressa



terça-feira, julho 26, 2016

À NOITINHA, COM VASCO GRAÇA MOURA: " FANNY"





FANNY


fanny, a grande
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,

tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.

uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e

deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro

se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e

fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,

na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.



VASCO GRAÇA MOURA


IMAGEM DO DIA, COM HELDER MAGALHÃES








O FADO CELEBRA-SE HOJE, NO DIA DO 196.º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE MARIA SEVERA





FADO MARIA SEVERA


Num beco da mouraria,
Onde a alegria
Do sol não vem
Morreu maria severa
Sabem quem era
Talvez ninguém

Uma voz sentida e quente
Que hoje à terra disse adeus
Voz sentida, mas ardente
Mas que vive eternamente
Dentro em nós e junto a deus
Além nos céus

Bem longe o luar
No azul tem mais luz
Eu vejo-a rezar
Aos pés de uma cruz
Guitarras trinai
Viradas ao céu
Fadistas chorai
Porque ela morreu

Caía a noite na viela
Quando o olhar dela
Deixou de olhar
Partiu p'ra sempre, vencida
Cantando a vida
Que a fez chorar

Deixa um filho idolatrado
Que outro afeto igual não tem
Chama-se ele o triste fado
Que vai ser desse enjeitado?
Se perdeu o maior bem:


O amor de mãe


Maria Severa Onofriana ( 26 Julho, 1820 - 30 Novembro, 1846 ) celebrizou-se como "Severa", tornada o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, no bairro da Mouraria.
Através do seu registo de batismo a 12 de Setembro de 1820, na Paróquia dos Anjos, registou-se a data de nascimento de Maria Severa Onofriana a 26 de Julho de 1820, o local do seu nascimento terá sido na Rua da Madragoa (actual Rua Vicente Borga nº33), onde sua mãe tinha uma taberna. Filha de Severo Manuel de Sousa, natural da freguesia de S. Nicolau, em Santarém, e de Ana Gertrudes, nascida em Portalegre. O casal havia contraído matrimónio a 27 de Abril de 1815, na Paróquia de Santa Cruz da Prideira de Santarém.

 Maria Severa faleceu muito jovem. O assento de óbito indica a sua morte no dia 30 de Novembro de 1846 na Rua do Capelão, apoplética e sem sacramentos, com a idade de 26 anos e solteira. A fadista foi sepultada no Cemitério do Alto de S. João.
Para além destes dados pouco mais está comprovado sobre a vida da cantadeira, uma vez que a maioria das informações provém dos reduzidos relatos orais de contemporâneos, casos de Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Raimundo António de Bulhão Pato.
O poeta Bulhão Pato, que a conheceu pessoalmente, deixou o seguinte testemunho da sua personalidade: "A pobre rapariga foi uma fadista interessantíssima como nunca a Mouraria tornará a ter!... Não será fácil aparecer outra Severa altiva e impetuosa, tão generosa como pronta a partir a cara a qualquer que lhe fizesse uma tratantada! Valente, cheia de afetos para os que estimava, assim como era rude para com os inimigos. Não era mulher vulgar, pode ter a certeza"

Por seu lado, Luís Augusto Palmeirim confessa que viu e falou com Severa apenas uma vez, mas que "foi o bastante para nunca mais me esquecer da esbelta rapariga, que tinha lume nos olhos, uma voz plangente e sonora, e, apesar destas aparentes seduções, uns modos bruscos e sacudidos, que avisavam os seus interlocutores a porem-se fora do alcance «de um revés de fortuna»".

Tendo-a visitado numa casa onde então morava, no Bairro Alto, descreveu posteriormente, no seu livro "Os excêntricos do meu tempo", esta visita da seguinte forma: "Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do tipo vulgar das que habitam as infelizes sua congéneres, estava ela fumando, recostada num canapé de palhinha, com chinelas de polimento ponteadas de retrós vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça e as mangas do vestido arregaçadas até ao cotovelo.

Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa, e notável por uns magníficos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável dos seus triunfos; e pendente da parede (sacrilégio vulgar nas casas daquela ordem) uma péssima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!"

Maria Severa Onofriana, celebrizou-se como "Severa", tornada o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, no bairro da Mouraria.
Os locais de atuação de Severa não estão ainda identificados, mas acredita-se que estão relacionados com os circuitos de prostituição, em particular do Bairro Alto e da Mouraria.
Severa fez também apresentações em festas aristocráticas, facto tornado possível pela sua ligação ao conde de Vimioso, descrição presente no relato de Miguel Queriol no jornal "O Popular", onde relata a apresentação de Severa no Palácio do Conde.

A estes locais acrescenta o café do antigo moço de forcado Joaquim Silva, à Rua do Saco, nas proximidades da praça de touros do Campo de Santana, onde o Conde de Vimioso se juntava com apreciadores e praticantes da arte de tourear

A popularidade de Severa resultou em larga parte da sua relação amorosa com o Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula Portugal e Castro, que lhe proporcionou grande celebridade e naturalmente permitiu a Severa um maior prestígio e número de oportunidades para se exibir para um público de jovens oriundos da elite social e intelectual portuguesa.

Após a sua morte a "meio-soprano dos conservatórios do vício", conforme a apelidou Pinto de Carvalho, passou a usufruir de uma crescente fama, até então inédita nestes círculos populares, cantada em letras de fados, em romance e até no cinema. Essa popularidade está patente no "Fado da Severa", catalogado por Teófilo Braga no "Cancioneiro Popular" de1867, como sendo de autoria de Sousa do Casacão e datado de 1848, de que aqui transcrevemos algumas quadras.

Prolonga-se até hoje a aura de mistério que torna Severa na figura mais mitológica do universo fadista, fruto da ausência de detalhes sobre a sua vida, bem como da inexistência de um retrato que comprovadamente possa perpetuar a sua figura.

Na Mouraria, na Rua do Capelão, está o Largo da Severa, onde a casa da fadista está assinalada com a indicação de “Casa da Severa” e no chão, empedrado de calçada à portuguesa, pode ver-se o desenho de uma guitarra. Na fachada da casa foi colocada uma placa, onde pode ler-se: “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana, considerada na época a expressão sublime do Fado. Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade. Lisboa 3-6-89”.
Esta placa foi descerrada por Amália Rodrigues, ao mesmo tempo que dedicada a Fernando Maurício.





segunda-feira, julho 25, 2016

DE NOVO EM PORTUGAL. ELES ESTÃO AÍ! - THE TALL SHIP RACES 2016




Lisboa recebeu a primeira edição das "The Tall Ships Race" em 1956. Esta primeira edição foi organizada com o intuito de manter vivas as tradições dos grandes navios de vela, uma vez que a chegada do motor a propulsão a vapor levou ao seu desaparecimento. Os conflitos da Primeira e Segunda Grandes Guerras Mundiais trouxeram grandes danos para estas embarcações - ficavam paradas ou reduzidas a objetos de compensação das guerras.
Desta forma, amantes da vela perspetivaram nestas regatas a oportunidade de renascer as suas tradições, permitindo às gerações vindouras a oportunidade de desenvolverem as suas capacidades através de treino de mar em grandes veleiros. Em 1954, o embaixador português em Londres, Pedro Theotónio Pereira, e um advogado londrino, Bernard Morgan, fomentaram a realização de uma regata que reunisse os grandes veleiros ainda existentes.

Assim, com o apoio de outras personalidades de prestígio do mundo náutico, surgiu a comissão que organizou a 1.ª regata em Thorbay, sul de Inglaterra, e em Lisboa com a partcipação dos doze maiores veleiros à época: Moyana (UK), Christian Radish (Noruega), Ruyam (Turquia), Falken (Suécia), Maybe (Holanda), Gladan (Suécia), Flying Clipper (Suécia), Creole (Reino Unido), Sorlandt (Noruega), Georg Stage (Dinamarca), Sagres (Portugal), Mercator (Bélgica) e mais outros 8 veleiros, de menores dimensões.
Devido ao sucesso da regata e à atenção mediática que atraiu, seguiram-se muitas outras edições que se realizam anualmente até aos dias de hoje.
Para os mais curiosos, os grandes veleiros dividem-se em 4 categorias, dependendo do seu Comprimento Total, do Comprimento da linha d'água (LWL) e do equipamento de Vela.

Veleiros classe A
Classe A:
Navios de velas quadradas - Barca, Lugre-Patacho, Brigue, Patacho e outros veleiros com Comprimento Total superior a 40 metros, não incluindo a vela.

Veleiros Classe B


Classe B:
Chalupa de um mastro, Chalupas, Ioles e Escunas - embarcações com Comprimento Total inferior a 40 metros e com Comprimento de linha d'Água de pelo menos 9,14 metros.

 A Tall Ship Races 2016 está neste fim de semana em Lisboa, com as embarcações abertas à visita (gratuita) do público. Organização espera um milhão de visitantes

Mais habituada aos cruzeiros, Santa Apolónia vai ter neste fim de semana visitantes menos usuais - os maiores veleiros do mundo vão estar nas águas do Tejo, abertos à visita do público. Quatro anos depois, a Tall Ships Races volta a Lisboa e as expectativas estão altas. A organização espera cerca de um milhão de visitantes.

Aquele que é o maior festival náutico gratuito da Europa traz a Lisboa 60 veleiros de 15 nacionalidades e 5000 tripulantes. "Neste ano batemos vários recordes", diz João Lúcio, presidente da Aporvela - Associação Portuguesa de Treino de Vela, entidade que coorganiza o Tall Ship Races Lisboa 2016. "Temos a maior frota de sempre, temos navios de 15 bandeiras diferentes e conseguimos embarcar nestes veleiros cerca de 500 jovens portugueses", sublinha ao DN.
Entre os participantes estão seis navios nacionais, caso do Creoula, da Marinha, do Santa Maria Manuela ou da Vera Cruz, uma réplica exata das antigas caravelas portuguesas.

A Tall Ship Races saiu de Antuérpia (Bélgica) a 7 de julho. Após a paragem em Lisboa prossegue, na segunda-feira, para a cidade espanhola de Cádis, e termina na Corunha, no Norte de Espanha, onde os veleiros ficarão de 11 a 14 de agosto.

Uma das especificidades da Tall Ship Races é o facto de as tripulações dos veleiros terem de ser constituídas, obrigatoriamente, com "50% de jovens entre os 15 e os 25 anos - é uma premissa que existe desde a primeira regata". Ou seja, ao núcleo de tripulação dos veleiros juntam-se, a cada etapa da prova, grupos de jovens voluntários. O presidente da Aporvela, entidade que tem por missão promover a ligação das pessoas - em particular dos mais jovens - ao mar, sublinha a ligação de Lisboa à regata. "Esta ideia começou há 60 anos e a primeira regata foi de Torbay [Reino Unido] para Lisboa, foi a primeira capital do mundo a receber veleiros. Foi uma ideia do embaixador português em Londres, Teotónio Pereira." A iniciativa teve "um sucesso tão grande" que se repetiu, conta João Lúcio. Neste ano, um dos objetivos passa também por promover Lisboa como Capital Europeia do Atlântico.


Ao longo de 1,5 quilómetros, de Santa Apolónia ao Terreiro do Paço, ficará instalado até segunda-feira o Passeio dos Sete Mares - o recinto que será o grande palco do festival náutico e a partir do qual se poderá subir a bordo dos veleiros, e que estará aberto ao público entre as dez e a uma da manhã. Um "recinto de entrada livre", sublinha João Lúcio, acrescentando que também as "embarcações vão estar abertas gratuitamente à visita do público".

À espera de cerca de um milhão de visitantes, a organização recomenda vivamente que o acesso seja feito através de transportes públicos, dado não só tratar-se de uma zona com pouco estacionamento, mas sobretudo devido às obras que se estendem pela frente ribeirinha e que provocam condicionamentos no trânsito desde o Campo das Cebolas até ao Cais Sodré. No domingo à tarde, a partir das 15.00, as tripulações dos veleiros juntam-se num desfile desde a Praça dos Restauradores até à Praça do Município. À noite haverá um espetáculo de fogo-de-artifício. Na segunda-feira, a partir das 15.00, será o desfile náutico no Tejo, com a partida dos veleiros em direção a Cádis.

Terminado a Tall Ship Races 2016, e porque as cidades "têm de se candidatar com um mínimo de quatro anos de antecedência" e se "digladiam para atrair estes navios", o presidente da Aporvela garante que o próximo passo será avançar com a candidatura à edição de 2020 do evento.


“Foi uma experiência inesquecível, onde pude conhecer pessoas de outros países e de todas as idades, fazer amigos para toda a vida.”
“Aprendemos que somos muito mais fortes do que pensamos.”

(Testemunhos de Jovens que já embarcaram através da Aporvela em anteriores edições das Tall Ships Races)
 .




domingo, julho 24, 2016

PELA NOITE, COM HERBERTO HELDER: "TRÍPTICO"




TRÍPTICO


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.


Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.


Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
 que te procuram.


HERBERTO HELDER
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
“Poesia Toda”
Lisboa, Assírio & Alvim, 1990



Herberto Helder nasceu no Funchal, na ilha da Madeira, em 1930, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, veio para Lisboa, onde terminou o liceu. Depois de uma rápida passagem pelo curso de Direito, em Coimbra, frequentou durante três anos a Faculdade de Letras de Lisboa.

Em 1955, após um breve regresso à Madeira, Herberto Helder regressa de novo em Lisboa e frequentando o Café Gelo, ao lado de Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo, colaborando em várias publicações literárias. Publica o seu primeiro livro, O Amor em Visita, em 1958.
Ao longo dos anos, Herberto Helder desempenhou várias profissões e viajou para vários países estrangeiros. Personagem discretíssima, foi distinguido em 1983 com o Prémio de Poesia do Pen Club Português, pelo livro A Colher na Boca. Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua obra, distinção que recusou.

Algumas obras do autor:

Poesia:

O Amor em Visita (1958)
A Colher na Boca (1961)
Poemacto (1961)
O Bebedor Nocturno (1968)
Poesia Toda (várias actualizações desde 1981)
A Cabeça entre as Mãos (1982)
Última Ciência (1988)
Do Mundo (1994)
Ou o Poema Contínuo (2001)

Ficção:

Os Passos em Volta (1963)





IMAGEM DO DIA, COM EUGÉNIO DE ANDRADE







quinta-feira, julho 21, 2016

PELA NOITE, COM JOSÉ RÉGIO: "CÂNTICO NEGRO"





CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


JOSÉ RÉGIO,
in “Poemas de Deus e do Diabo”





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