sábado, junho 25, 2016

À NOITINHA, COM MIA COUTO: " A LÁGRIMA E O BEIJO "



O BEIJO E A LÁGRIMA


Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Quando terminou
ela tinha os olhos rasos de água.

Entusiasmado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e voltar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima,
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.



MIA COUTO
(Idades, cidades e divindades)
Maputo, 2006



IMAGEM DO DIA, COM EUGÉNIO DE ANDRADE








PELA NOITE, COM PEDRO CHAGAS FREITAS: "PROMETO PERDER"






       Prometo perder.
    Prometo por vezes fraquejar, por vezes cair, por vezes ser incapaz de ganhar. Nem sempre conseguirei superar, nem sempre conseguirei ultrapassar. Nem sempre poderei ser capaz de ir tão longe como tu me pedes, de te dar extactamente o que tu merecias que te desse. O que desesperadamente te quero dar. Nem sempre conseguirei sorrir, também.
     Prometo perder.
   Prometo  ainda manter-me vivo depois de cada derrota, resistir ao peso insustentável de cada impossibilidade. Há-de haver momentos em que sem querer te magoarei, momentos em que sem querer tocarei no lado errado da ferida. Mas o que nunca vai acontecer é desistir só porque perdi, parar só porque é mais fácil, ceder só porque dói construir.
    Prometo perder.
    Porque só quem ama corre o risco de perder; os outros correm apenas  o risco de continuarem perdidos.
    Prometo perder.
    Porque só quem nunca amou nunca perdeu.


PEDRO CHAGAS FREITAS
(Prometo perder, pág.12)
     


BREXIT






O mundo acordou hoje com a saída da Inglaterra da União Europeia.
Uma das perguntas que mais foi colocada pelos britânicos ao motor de buscas Google nas horas que se seguiram ao referendo à permanência do Reino Unido foi: "o que é a União Europeia?" (UE). 
Ficou claro que já nem só o futuro se faz do desconhecido. 
O passado também. 
Os eleitores votaram "Brexit". 
Alguns sem saber o quê, nem porquê. 
Uma eleitora até contou à ITV News que votou a saída e acordou chocada. Afinal queria ficar. 

"Demasiado tarde", responderam-lhe em uníssono dos gabinetes de Bruxelas.

Quiseram sair?
É já!





terça-feira, junho 21, 2016

PELA NOITE, COM JOÃO MORGADO: "ACARICIA-ME"





ACARICIA-ME


Acaricia-me,
como a borboleta que beija a flor,
ou a lua que enfeitiça as noites,
remexe neste modo de sentir a dor,
se um beijo não chegar, dá-me uns açoites,

Acaricia-me,
com gestos audazes desses dedos
E na plenitude dos meus segredos,
rouba das noites os meus medos,
que concebem cerrados arvoredos.

Acaricia-me,
minha amiga, meu guru protector,
compreende os meus tormentos,
perdoando meus erros de amor.
crendo nos meus sentimentos.

Acaricia-me,
como se foras uma brisa solta,
arrancando-me deste casulo.
Sana esta minha revolta,
estes temores, em que me emulo.

Acaricia-me,
faz com que me sinta protegido,
nas madrugadas solitárias,
em que sinto o teu carpido,
que tal como o meu, nos gera párias.

Acaricia-me,
esta alma sofredora e inquieta,
em sublimação dos momentos,
quando a revolta retorna secreta,
assediando-me os pensamentos.

Acaricia-me!


JOÃO MORGADO






ESCLEROSE LATERAL AMIOTRÓFICA (ELA) - Ninguém Merece Este Inferno!












A esclerose lateral amiotrófica (ELA), também designada por doença de Lou Gehrig e Doença de Charcot, é uma doença neurovegetativa progressiva e fatídica, caracterizada pela degeneração dos neurónios motores, as células do sistema nervoso central que controlam os movimentos voluntários dos músculos, e com a sensibilidade preservada.

1- Zeca Afonso                      2-David Níven                         2-Charles Ming                            4-Stephen King

Os músculos necessitam de uma inervação patente para que mantenham a sua funcionalidade e trofismo, assim, com a degeneração progressiva dos neurónios motores (tanto superiores, corticais, quanto inferiores, do tronco cerebral e medula), ocorrerá atrofia por desnervação, observada, na clínica, como perda de massa muscular, com dificuldades progressivas de executar movimentos e perda de força muscular.

Esclerose Lateral Amiotrófica

Entre as personalidades famosas afetadas por esta doença encontram-se: Lou Gehrig (jogador de baseball norte americano), David Níven (ator britânico), o físico e Prémio Nobel Stephen King, o músico contrabaixista Charles Ming e o cantor português Zeca Afonso, vítima desta doença, entre outros.

Como se trata de uma doença que ataca o sistema nervoso, até agora irreversível, incapacita o portador à medida que avança. A pessoa sente dificuldades de se locomover, comer, falar. Perde habilidade de movimentos, inclusivé das próprias mãos, não consegue ficar de pé por muito tempo pois a doença acaba por afetar toda a musculatura. Geralmente atinge pessoas mais idosas, mas há casos de pessoas que apresentam a doença na faixa dos 20 anos de idade.


À medida que a doença progride, geralmente depois da perda das habilidades de locomoção, fala e deglutição, o doente acaba por falecer (se não for submetido a tratamento paliativo, essencial para esta doença), de incapacidade respiratória quando os músculos associados à respiração são afetados.

É preciso que o paciente a partir de determinado estágio da doença, seja acompanhado de perto por outra pessoa, em função da incapacidade de executar as tarefas rotineiras. Como esta doença, na sua evolução imparável não afeta as capacidades inteletctuais, o doente fica consciente de tudo o que se passa à sua volta, do seu estado, e com lucidez acompanha toda a progressão da doença. Acrescem ainda, nesta fase terminal, as dificuldades de comunicação com outras pessoas, caso os músculos da fala se encontrem já comprometidos. Mas sempre cruelmente lúcido ...

Ninguém merece este inferno. Ainda não existe tratamento eficaz para a sua cura, dado que, considerada como uma doença rara, também se desconhece as causas da origem da esclerose lateral amiotrófica (ELA).  Apenas um medicamento, de custo proibitivo, o rituol (nome comercial: Ritulek), pode retardar a evolução da doença e aumentar em alguns meses a esperança de vida do doente. 

Dra Maria Cavaco Silva confraterniza com
doentes de ELA

Esta varia de indivíduo para indivíduo, mas, mais de 60% dos doentes só sobrevivem entre os 2 e cinco anos.

Em Portugal, o Prof. Doutor Mamede de Carvalho, Médico Neurologista e Responsável pela Unidade de Neuromusculares - Departamento de Neurociências, - na qual está integrada  a Consulta de Esclerose Lateral Amiotrófica, estabelecida no Centro Hospitalar Lisboa Norte - Hospital de Santa Maria, viu o seu longo trabalho em prol dos doentes com a patologia degenerativa mais severa, galardoado com uma Moção de Aplauso e Louvor atribuída pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Brasil.2.

Segundo as palavras do Prof. Doutor Mamede de Carvalho, em entrevista concedida à comunicação social, doenças como Parkinson e Alzeimer, igualmente provenientes neurológicas e degenerativas, já têm soluções terapêuticas, nomeadamente atos cirúrgicos, no que respeita a Parkinson. Situação que, como doença rara, não ocorre com a ELA, cuja causa de morte neuronal permanece desconhecida. Assim, a respetiva cura. Apenas os cuidados paliativos e a completa dependência de terceiros resta a estes doentes.

Mas neste país que eu amo, Portugal, acontecem casos inverosímeis e totalmente absurdos, como este que chegou ao meu conhecimento. E bem de perto, infelizmente. O absurdo, a insensibilidade e injustiça do sistema burocrático, para ser mais precisa, estão na origem destas situações altamente lamentáveis:

Luís Miguel Catalão

A Segurança Social, em Portugal, negou a reforma por invalidez absoluta a um homem que tem uma doença incurável e a quem restam, no máximo, dois anos de vida com qualidade. Sofre de esclerose lateral amiotrófica, tem todos os exames e atestados dos maiores especialistas, mas mesmo assim negaram-lhe a pensão. Este homem promete continuar a lutar, por ele mas também por quem está em situação semelhante, e por isso aceitou dar a cara para tentar evitar que se repita a monstruosidade.

A comunicação social divulgou largamente este caso, como prova o vídeo que inseri em último lugar, nesta publicação.

Reproduzo o oportuno comentário que um Investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência, Vasco Barreto, escreve, à segunda feira, no portal da Associação APElA:

"Nem todas as formas de exercer esta autoridade merecem admiração e morrer em silêncio não é vergonha nenhuma, mas na semana passada poucos terão ficado indiferentes ao ouvir Luís Miguel Catalão, que sofre de esclerose lateral amiotrófica, a mesma doença incurável, progressiva e terminal ( 2-5 anos de vida, em média) que vitimou Judt e imobilizou o famoso físico Stephen Hawking. Não é difícil imaginar que uma junta médica tivesse recusado a Catalão uma reforma por invalidez, apenas porque já todos vimos sketches cómicos; inimaginável é esta situação não vir a ser alterada depois de denunciada pela SIC. Excepcionais foram mesmo a sua capacidade de descobrir vantagens no seu azar (diz que tem tempo para preparar a sua partida) e a generosidade de se lembrar de outros com idênticos problemas mas sem os seus recursos de cidadão esclarecido para lidar com as injustiças de uma máquina estatal que, de tanto poupar às cegas, nos envergonha."

Evento da APELA em Cascais, no paredão

Acrescentarei apenas que o próximo dia 21 de Junho, será o dia internacional de sensibilização para aquela que é muitas vezes descrita como a pior doença do mundo - a esclerose lateral amiotrófica (ELA).


Para saber e conhecer mais, pode consultar a Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica (APELA), constituída  a 7 de Março de 1998. O seu objetivo é informar a população em geral e os doentes em particular sobre a ELA e criar uma rede de comunicação alargada para ir dando a conhecer os avanços científicos e os direitos sociais dos doentes.




Os seus contactos são:

Associação Portuguesa de Esclerose Lateral Amiotrófica

Telefone: 213 861 482









segunda-feira, junho 20, 2016

PELA NOITE, COM MANUEL ALEGRE: "BICICLETA DE RECADOS"





BICICLETA DE RECADOS


Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Pedalo nas palavras atravesso as cidades
bato às portas das casa e vêm homens espantados
ouvir o meu recado ouvir minha canção.

Na minha bicicleta de recados 
eu vou pelos caminhos.
Vem gente para a rua ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi à Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas.
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.

Desde o Minho ao Algarve
eu vou pelos caminhos.
E vêm homens perguntar se houve milagres
perguntam pela chuva que já tarda
perguntam pelos filhos que foram à guerra
perguntam pelo sol perguntam pela vida
e vêm homens espantados às janelas
ouvir o meu recado ouvir minha canção.

Porque eu trago notícias de todos os filhos
eu trago a chuva e o sol e a promessa dos trigos
 e um cesto carregado de vindima
eu trago a vida
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.


MANUEL ALEGRE
(Praça da Canção)



IMAGEM DO DIA










DIA MUNDIAL DO REFUGIADO 2016- 20 DE JUNHO DE 2016







Um “refugiado” é uma pessoa que sofre perseguição pela sua raça, naturalidade, religião, grupo social ou opinião política e que se encontra fora do seu país, não podendo a ele retornar por força de perseguição.

Estima-se que existem mais de 45 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que foram forçadas a encontrar um novo local para viver. As regiões mundiais com mais refugiados são o Médio Oriente, o Sudeste Asiático, a África Oriental e o Corno de África. Segundo o Parlamento Europeu, na Europa, os países que mais proteção oferecem a refugiados são a Suécia, a Alemanha, a França, a Itália e o Reino Unido.
Foi no ano 2000 que a ONU instituiu o Dia Mundial do Refugiado, com o objetivo de consciencializar os governos e as populações para o problema grave dos refugiados.

Num mundo onde a violência força diariamente centenas de famílias a fugir em busca de paz para as suas vidas, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) acredita que este é o momento para mostrar aos líderes mundiais que o mundo está solidário. Por isso, a ACNUR lança a petição #ComOsRefugiados neste mês de junho,  para mandar uma mensagem aos governantes para que trabalhem juntos pelos refugiados.

No Dia Mundial do Refugiado, celebrado anualmente no dia 20 de junho, a ACNUR comemora a força, a coragem e a perseverança de milhões de refugiados. Este ano, o Dia Mundial do Refugiado também marca um momento fundamental para as pessoas mostrarem seu apoio às famílias que foram forçadas a abandonar suas casas.

Assinando a petição #ComOsRefugiados, qualquer pessoa ao redor do mundo pode exigir que os governos trabalhem juntos e façam sua parte pelos refugiados. 

A petição #ComOsRefugiados será entregue na sede da ONU em Nova Iorque por ocasião da sessão da Assembleia Geral da ONU no dia 19 de setembro. A petição pede aos governos que:

 Garantam que todas as crianças refugiadas tenham acesso à educação.
 Garantam que todas as famílias refugiadas tenham um lugar seguro para viver.
 Garantam que todos refugiados possam trabalhar e adquirir conhecimentos que contribuam de forma positiva para suas comunidades.

Adicione seu nome à petição para mostrar que o mundo está #ComOsRefugiados:




MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DO REFUGIADO 2016

Os emigrantes e refugiados interpelam-nos. A resposta do Evangelho da misericórdia

Queridos irmãos e irmãs!

Na bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia recordei que «há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai» (Misericordiae Vultus, 3). 

De facto, o amor de Deus quer chegar a todos e cada um, transformando aqueles que acolhem o abraço do Pai noutros tantos braços que se abrem e abraçam para que todo o ser humano saiba que é amado como filho e se sinta «em casa» na única família humana. Deste modo, a ternura paterna de Deus, que se estende solícita sobre todos, mostra-se particularmente sensível às necessidades da ovelha ferida, cansada ou enferma, como faz o pastor com o rebanho. Foi assim que Jesus Cristo nos falou do Pai, dizendo que Ele Se inclina sobre o homem chagado de miséria física ou moral e, quanto mais se agravam as suas condições, tanto mais se revela a eficácia da misericórdia divina.

Neste nosso tempo, os fluxos migratórios aparecem em contínuo aumento por toda a extensão do planeta: prófugos e pessoas em fuga da sua pátria interpelam os indivíduos e as colectividades, desafiando o modo tradicional de viver e, por vezes, transtornando o horizonte cultural e social com os quais se confrontam. Com frequência sempre maior, as vítimas da violência e da pobreza, abandonando as suas terras de origem, sofrem o ultraje dos traficantes de pessoas humanas na viagem rumo ao sonho dum futuro melhor. Se, entretanto, sobrevivem aos abusos e às adversidades, devem enfrentar realidades onde se aninham suspeitas e medos. 

Enfim, não raramente, embatem na falta de normativas claras e praticáveis que regulem a recepção e prevejam itinerários de integração a breve e a longo prazo, atendendo aos direitos e deveres de todos. Hoje, mais do que no passado, o Evangelho da misericórdia sacode as consciências, impede que nos habituemos ao sofrimento do outro e indica caminhos de resposta que se radicam nas virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, concretizando-se nas obras de misericórdia espiritual e corporal.

Na base desta constatação, quis que o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2016 fosse dedicado ao tema: «Os emigrantes e refugiados interpelam-nos. A resposta do Evangelho da misericórdia». Os fluxos migratórios constituem já uma realidade estrutural, e a primeira questão que se impõe refere-se à superação da fase de emergência para dar espaço a programas que tenham em conta as causas das migrações, das mudanças que se produzem e das consequências que imprimem novos rostos às sociedades e aos povos. Todos os dias, porém, as histórias dramáticas de milhões de homens e mulheres interpelam a comunidade internacional, testemunha de inaceitáveis crises humanitárias que surgem em muitas regiões do mundo. A indiferença e o silêncio abrem a estrada à cumplicidade, quando assistimos como expectadores às mortes por sufocamento, privações, violências e naufrágios. De grandes ou pequenas dimensões, sempre tragédias são; mesmo quando se perde uma única vida humana.

Os emigrantes são nossos irmãos e irmãs que procuram uma vida melhor longe da pobreza, da fome, da exploração e da injusta distribuição dos recursos do planeta, que deveriam ser divididos equitativamente entre todos. Porventura não é desejo de cada um melhorar as próprias condições de vida e obter um honesto e legítimo bem-estar que possa partilhar com os seus entes queridos?

Neste momento da história da humanidade, fortemente marcado pelas migrações, a questão da identidade não é uma questão de importância secundária. De facto, quem emigra é forçado a modificar certos aspectos que definem a sua pessoa e, mesmo sem querer, obriga a mudar também quem o acolhe. Como viver estas mudanças de modo que não se tornem obstáculo ao verdadeiro desenvolvimento, mas sejam ocasião para um autêntico crescimento humano, social e espiritual, respeitando e promovendo aqueles valores que tornam o homem cada vez mais homem no justo relacionamento com Deus, com os outros e com a criação?
De facto, a presença dos emigrantes e dos refugiados interpela seriamente as diferentes sociedades que os acolhem. Estas devem enfrentar factos novos que podem aparecer imprudentes se não forem adequadamente motivados, geridos e regulados. Como fazer para que a integração se torne um enriquecimento mútuo, abra percursos positivos para as comunidades e previna o risco da discriminação, do racismo, do nacionalismo extremo ou da xenofobia?

A revelação bíblica encoraja a recepção do estrangeiro, motivando-a com a certeza de que, assim fazendo, abrem-se as portas a Deus e, no rosto do outro, manifestam-se os traços de Jesus Cristo. Muitas instituições, associações, movimentos, grupos comprometidos, organismos diocesanos, nacionais e internacionais experimentam o encanto e a alegria da festa do encontro, do intercâmbio e da solidariedade. Eles reconheceram a voz de Jesus Cristo: «Olha que Eu estou à porta e bato» (Ap 3, 20). E todavia não cessam de multiplicar-se também os debates sobre as condições e os limites que se devem pôr à recepção, não só nas políticas dos Estados, mas também nalgumas comunidades paroquiais que vêem ameaçada a tranquilidade tradicional.
Diante de tais questões, como pode a Igreja agir senão inspirando-se no exemplo e nas palavras de Jesus Cristo? A resposta do Evangelho é a misericórdia.

Em primeiro lugar, esta é dom de Deus Pai revelado no Filho: de facto, a misericórdia recebida de Deus suscita sentimentos de jubilosa gratidão pela esperança que nos abriu o mistério da redenção no sangue de Cristo. Depois, a misericórdia alimenta e robustece a solidariedade para com o próximo, enquanto exigência de resposta ao amor gratuito de Deus, que «foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5, 5). Aliás, cada um de nós é responsável pelo seu vizinho: somos guardiões dos nossos irmãos e irmãs, onde quer que vivam. O cultivo de bons contactos pessoais e a capacidade de superar preconceitos e medos são ingredientes essenciais para se promover a cultura do encontro, onde cada um esteja disposto não só a dar, mas também a receber dos outros. De facto, a hospitalidade vive do dar e receber.

Nesta perspectiva, é importante olhar para os emigrantes não somente com base na sua condição de regularidade ou irregularidade, mas sobretudo como pessoas que, tuteladas na sua dignidade, podem contribuir para o bem-estar e o progresso de todos, de modo particular quando assumem responsavelmente deveres com quem os acolhe, respeitando gratamente o património material e espiritual do país que os hospeda, obedecendo às suas leis e contribuindo para os seus encargos. Em todo o caso, não se podem reduzir as migrações à dimensão política e normativa, às implicações económicas e à mera coexistência de culturas diferentes no mesmo território. Estes aspectos são complementares da defesa e promoção da pessoa humana, da cultura do encontro dos povos e da unidade, onde o Evangelho da misericórdia inspira e estimula itinerários que renovam e transformam a humanidade inteira.

A Igreja coloca-se ao lado de todos aqueles que se esforçam por defender o direito de cada pessoa a viver com dignidade, exercendo antes de mais nada o direito a não emigrar a fim de contribuir para o desenvolvimento do país de origem. Esse processo deveria incluir, no seu primeiro nível, a necessidade de ajudar os países donde partem os emigrantes e prófugos. Assim se confirma que a solidariedade, a cooperação, a interdependência internacional e a distribuição equitativa dos bens da terra são elementos fundamentais para actuar, em profundidade e com eficácia, sobretudo nas áreas de partida dos fluxos migratórios, para que cessem aquelas carências que induzem as pessoas, de forma individual ou colectiva, a abandonar o seu próprio ambiente natural e cultural. Em todo o caso, é necessário esconjurar, se possível já na origem, as fugas dos prófugos e os êxodos impostos pela pobreza, a violência e as perseguições.

Sobre isto, é indispensável que a opinião pública seja informada de modo correcto, até para prevenir medos injustificados e especulações sobre a pele dos emigrantes.

Ninguém pode fingir que não se sente interpelado pelas novas formas de escravidão geridas por organizações criminosas que vendem e compram homens, mulheres e crianças como trabalhadores forçados na construção civil, na agricultura, na pesca ou noutros âmbitos de mercado. Quantos menores são, ainda hoje, obrigados a alistar-se nas milícias que os transformam em meninos-soldados! Quantas pessoas são vítimas do tráfico de órgãos, da mendicidade forçada e da exploração sexual! Destes crimes aberrantes fogem os prófugos do nosso tempo, que interpelam a Igreja e a comunidade humana, para que também eles possam ver, na mão estendida de quem os acolhe, o rosto do Senhor, «o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação» (2 Cor 1, 3).

Queridos irmãos e irmãs emigrantes e refugiados! Na raiz do Evangelho da misericórdia, o encontro e a recepção do outro entrelaçam-se com o encontro e a recepção de Deus: acolher o outro é acolher a Deus em pessoa! Não deixeis que vos roubem a esperança e a alegria de viver que brotam da experiência da misericórdia de Deus, que se manifesta nas pessoas que encontrais ao longo dos vossos caminhos! Confio-vos à Virgem Maria, Mãe dos emigrantes e dos refugiados, e a São José, que viveram a amargura da emigração no Egipto. À intercessão deles, confio também aqueles que dedicam energias, tempo e recursos ao cuidado, tanto pastoral como social, das migrações. 

De coração a todos concedo a Bênção Apostólica.

Vaticano, 12 de Setembro – Memória do Santíssimo Nome de Maria – do ano 2015.

Francisco





domingo, junho 19, 2016

UM POUCO MAIS DE PEDRO CHAGAS FREITAS: "PROMETO FALHAR"




A primeira vez que te vi foi na rua das sapatarias, estavas  impecável, mas deixaste cair um poema.
    ninguém é perfeito, nem tu, apeteceu-me logo ali agarrá-lo e devolver-to, mas faltou a coragem e acabei por ficar com ele para mim, há poemas que têm que ser guardados do mundo, toda a gente sabe disso ou se não sabe devia saber.
    pode mesmo morrer a poesia que haverá sempre poemas,
   os loucos riem daquilo que faz os outros chorarem, e ainda lhes chamam malucos,
    isto só para te dizer que sou maluco por ti e que te segui desde esse dia, tinha uma consulta no dentista mas não me parece importante dedicar~me a banalidades se há um poema para devolver e não se sabe como,
    (...) fazes de umas calças de ganga um vestido de gala e ao mesmo tempo uma minissaia sensual, deixa-me que te diga desde já.
     onde estás que preciso de te amar com urgência?
   procurei-te por todo o lado e nada, no escritório ninguém sabe de ti,
foi ontem e há muitos relatórios para fazer, haja responsabilidade, não é?
    os teus vizinhos não te viram sair,
   a última vez que a vi foi ontem à noite e pareceu-me estranha, tenho de confessar,
   onde estás que preciso de um motivo para viver?
  (...) afinal foste para uma ilha qualquer no meio do Pacífico e nem avisaste, quanto não vale ter amigos nas agências e tu seres a mulher mais inesquecível  do mundo?,
   não sei se voltas, na verdade, talvez seja a altura de renunciar, não te tenho aqui para te ver e não sei se será possível continuar a estar apaixonado por quem não me conhece, o que achas?
    os loucos vêem no impossível todos os motivos para continuar enquanto os outros vêem todos os motivos para desistir, e ainda lhes chamam malucos,
   isto só para dizer que sou maluco por ti e que o meu avião chega aí por volta das dez,
    esperas por mim com as calças da Levi's?,..
    e ela esperou,
    para maluco, maluco e meio, ou então dois,
    e viveram juntos para sempre, provavelmente felizes também,
    pode agora beijar a noiva, se quiser,
    ele quis, beijou-a, abraçou-a,
    e entregou-lhe finalmente o poema.

    PEDRO CHAGAS FREITAS
    (Prometo falhar)
     

   

PELA NOITE, COM MANUEL ALEGRE: "PRAÇA DA CANÇÃO"



PRAÇA DA CANÇÃO

Minha canção festa triste
praça noturna onde passam
anjos bêbedos trazendo
as primeiras ferramentas
da tristeza mais antiga.
Asas não têm perguntam
pelo céu que vão perdidos.
Ó vento, ó noite dizei-lhes
diz-lhe tu canção que têm
dedos feitos para voar.

Do céu notícias não sei
sei novas de outros caminhos
que lhes falta viajar
ó canção, ó vento, ó noite
quando passam vós dizei-lhes
em cada mão cinco dedos
cinco reinos por achar.

Caravelas os levaram
naufragaram caravelas
quando vão para os Brasis
já não vão nas caravelas
passageiros de terceira
outros caminham procuram
que sempre andaram perdidos
por caminhos tristes, tristes,
ó canção, ó vento, ó noite
quando passam vós dizei-lhes
que são seus braços as naus
com que podem descobrir
por onde perdidos vão.

Por aqui passam que todos
os comboios aqui passam
chegam embarcam desembarcam
praça da canção por onde
passam às vezes perdidos
trazem trevo juntam lenha
acendem um fogo ao canto
como sombras e cada verso
trazem provérbios e loiças
trazem séculos às costas
não sei que novas dizer-lhes
ó noite, ó vento, ó canção
dizei-lhes vós que seu reino
está nas mãos que já fizeram
caravelas e caminhos
por onde foram por onde
perdidos depois voltaram.

Minha canção festa triste
praça nocturna por onde
passam às vezes sem rumo
ó canção, ó vento, ó noite
dizei-lhes vós que lhes falta
descobrir este país
por onde perdidos vão.


MANUEL ALEGRE
(Praça da Canção)



PELA TARDE, COM MIA COUTO: "ROSA"



ROSA


Não ascendo a rosa.
Fico por espinho, crosta, remorso.

Lição do gesto
de quem retira a mão, 
gotejando sangue,
em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.

Me sufoca o ser,
me assusta o querer ser.

O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.


MIA COUTO, 
in "Idades, cidades, divindades"
Maputo 2006




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