domingo, junho 19, 2016

PELA NOITE, COM MANUEL ALEGRE: "PRAÇA DA CANÇÃO"



PRAÇA DA CANÇÃO

Minha canção festa triste
praça noturna onde passam
anjos bêbedos trazendo
as primeiras ferramentas
da tristeza mais antiga.
Asas não têm perguntam
pelo céu que vão perdidos.
Ó vento, ó noite dizei-lhes
diz-lhe tu canção que têm
dedos feitos para voar.

Do céu notícias não sei
sei novas de outros caminhos
que lhes falta viajar
ó canção, ó vento, ó noite
quando passam vós dizei-lhes
em cada mão cinco dedos
cinco reinos por achar.

Caravelas os levaram
naufragaram caravelas
quando vão para os Brasis
já não vão nas caravelas
passageiros de terceira
outros caminham procuram
que sempre andaram perdidos
por caminhos tristes, tristes,
ó canção, ó vento, ó noite
quando passam vós dizei-lhes
que são seus braços as naus
com que podem descobrir
por onde perdidos vão.

Por aqui passam que todos
os comboios aqui passam
chegam embarcam desembarcam
praça da canção por onde
passam às vezes perdidos
trazem trevo juntam lenha
acendem um fogo ao canto
como sombras e cada verso
trazem provérbios e loiças
trazem séculos às costas
não sei que novas dizer-lhes
ó noite, ó vento, ó canção
dizei-lhes vós que seu reino
está nas mãos que já fizeram
caravelas e caminhos
por onde foram por onde
perdidos depois voltaram.

Minha canção festa triste
praça nocturna por onde
passam às vezes sem rumo
ó canção, ó vento, ó noite
dizei-lhes vós que lhes falta
descobrir este país
por onde perdidos vão.


MANUEL ALEGRE
(Praça da Canção)



1 comentário:

Ana Nunes da mata maio Ribeir disse...

Boa escolha....gostei!! Beijinhos!!

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