sábado, julho 29, 2017

IMAGEM DO DIA, COM SIR WINSTON CHURCHILL






"DIANA,OUR MOTHER: HER LIFE AND HER LEGACY" - 20.º Aniversário da Morte de Diana, Princesa de Gales.




Quando no passado dia 24 deste mês se completaram vinte anos da morte de Diana, Princesa de Gales, os seus filhos Príncipe Harry  e Príncipe William decidiram partilhar publicamente momentos e recordações da vida da sua falecida mãe, num documentário da ITV, que assinala exatamente o 20.º aniversário da sua morte.
“Diana, Our Mother: Her Life and Legacy,”

Quase trinta anos depois do casamento dos seus pais, o Príncipe William percorreu o corredor da Abadia de Westminster com a sua nova noiva, a Princesa Kate Midleton, no dia do seu casamento.

“Diana, Our Mother: Her Life and Legacy,” analisa como a vida de Diana, o seu relacionamento com a Casa de Windsor, a imprensa e o público marcaram o seu filho mais velho, o Príncipe William. Quando uma senhora, Diana Spencer, de vinte anos de idade, se casou com o príncipe Charles, herdeiro do trono, o seu casamento foi visto por biliões de pessoas em todo o mundo. Foi o último grande casamento real que galvanizou o público britânico. 

Mas essa relação tornar-se-ia numa tragédia romântica, cujos efeitos seriam mais profundos do que se poderia imaginar. Com o seu casamento com Kate Midleton, o Príncipe William começou a viver uma forma nova e independente de vida. 

Uma vida em que as mães estão presentes e a sua influência manifesta-se em todos os momentos. Convém recordar que os anos formativos de William não ocorreram exatamente durante o idílio com a “Princesa dos Corações do Povo”, mas sim no meio da batalha de um divórcio vicioso. As prioridades de William dividiram-se com a Guerra do País de Gales.

“Diana, Our Mother: Her Life and Legacy,”é a história do casamento de Charles e Diana encarado sob um novo e revelador ponto de vista. É a história de como o seu casamento influenciou William. 

Príncipes William e Harry recordam momentos da vida da Princesa Diana de Gales

No livro partilhado com Andrew Morton, William explora o efeito das relações com a sua mãe, os efeitos da entrevista de Panorama e a sua reação ao relacionamento do pai com Camila. À primeira vista, William parece ser mais um fruto do velho sistema, preparado pela Casa de Windsor. 

Mas William é filho de Diana - que transcendeu a celebridade e transformou a monarquia. Este filme procura revelar William, explorando o seu relacionamento com sua mãe e William aponta como ela era nos momentos-chave da sua vida posteriormente perdida. Porque tudo o que ela passou fez o homem que hoje ele é. 
Por que motivo William resolveu usar o anel de noivado da sua mãe? E o que nos diz isso sobre este futuro Rei e o legado da sua mãe Diana? Vinte anos depois da sua morte, a influência de Diana parece não sofrer qualquer diminuição. Mas será  William o rei que Diana desejava que ele fosse?

Além de uma mãe amorosa, Diana também foi recordada pela admiração e devoção que inspirou em milhões de pessoas no mundo inteiro. 

Amigos íntimos, associando-se a este projeto, enfrentaram as cameras pela primeira vez. Earl Spencer compartilhou filmagens em casa e recordações da infância vivida em conjunto; Elton John realçou o importante trabalho que a princesa fez pelas instituições de caridade da SIDA; vítimas das Minas da Bósnia recordaram a esperança que Diana divulgou com a sua bem sucedida campanha para uma proibição internacional de minas terrestres.






quinta-feira, julho 27, 2017

PELA NOITE, COM ANTÓNIO GIL: " AURORA CONSURGENS"



AURORA CONSURGENS

começaste por tirar uma moeda de atrás
da minha orelha esquerda, extraíste uma rosa do
bolso interior do meu casaco e, finalmente, por
tua ordem, meia dúzia de pombas saíram do
chapéu que me emprestaste...

por um truque que não te lembras de ter apren-
dido, extrais agora, sem te dares conta, estas
palavras do meu pulso...


ANTÓNIO GIL,
in "Rio de Doze Águas", pág.13


António Gil

António Gil, nasceu em Angola em 1963, tendo vindo para Portugal logo após a eclosão da Guerra- dita Civil- naquele país. Cursou arquitetura na antiga E.S.B.A.P. e na F.A.U.T.L. Em 1999 venceu, ex-aequo com outros dois autores, o Prémio de Revelação de Poesia da A.P.E./I.P.L.B. com o livro "a céu aberto" que viria a ser publicado em 2002 pela Difel. Publicou também "Canto Desabitado" (Edição Ave Azul, 2005), "O Jardim das Oito Pedras" (conto erótico de inspiração oriental - Areias do Tempo, 2008). Em 2002 escreveu "Pisa Relva", obra encenada pelo Teatro de Ferro, grupo sediado em Vila Nova de Gaia. Uma parte da sua obra literária encontra-se esparsa por revistas e jornais de caráter literário (ZUT, Ave Azul, Plágio e Antologia "O Regresso à Condição").




UMA TARDE COM JOAQUIM NOGUEIRA: "...DEIXEM-ME SER UM POEMA!"





“…DEIXEM-ME SER UM POEMA!”


“…deixem-me ser um poema!... deixem-me ser todo eu um livro… queria ser todo eu algo escrito, algo para dizer ou ser dito!... queria ser todo eu um poema para num livro à tua cabeceira pousar, sentir-me ser lido e nas tuas mãos versejar... deixem-me ser um poema!... se o livro que desejo ser, em livro um dia se tornar, que seja o livro do livro lido por todos os que precisam de amar... sou assim, o poema desta manhã, as palavras desta tarde e os sons desta noite… sou a manhã deste poema e a tarde destas mesmas palavras, a noite dos sons do fogo que arde... sinto assim a sua fragrância, numa ânsia de palavra dita ou mesmo de palavra escrita... sinto o odor do poema versejado, ouvido, relido, mirado, querido ou até mesmo odiado... sinto o cheiro da palavra que escrevo ou da palavra que leio... sinto o poema dentro de mim com a manhã a nascer em ti ouvindo a tarde adormecer na noite do teu sonho de prazer... sinto-me poema... sinto-me verso… sinto-me palavra... sinto-me viver... deixa-me ouvir... deixa-me ler, porque não quero sentir a dureza do insulto que o silêncio em mim provoca... não quero ouvir os gritos lancinantes dum silêncio que tanto me choca… quero ouvir as palavras ditas… quero ler as palavras escritas… quero ouvir os sons que elas me trazem… quero ler as tonalidades que elas fazem… quero sentir o impacto do dito… quero sentir o embate do grito... não quero ler a palavra não escrita... não quero ouvir o silêncio do livro vazio... não quero escutar o silêncio do dito não dito… quero sentir a pureza da voz que a palavra escrita me traz… quero sentir o estrondo do grito que a palavra dita me faz... quero sentir que és… quero sentir que estás... quero sentir as palavras e quero os livros com elas gravadas!... deixem-me ser um poema!... escrevo assim o poema desta manhã com as palavras da tua tarde e os sons da nossa noite e, se a noite chegar, sem que a manhã tenha surgido, não tenhas receio, não tenhas medo, porque mesmo assim eu te leio...”


JOAQUIM NOGUEIRA
(lobices)



Joaquim Nogueira
Joaquim Nogueira (lobices)-...uma vida em palavras e imagens
Portugal, 71 anos, 105 textos (7938 leituras)

(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/07/17 12:26)




Voz e realização: José-António Moreira


quarta-feira, julho 26, 2017

O FADO CELEBRA-SE HOJE, NO DIA DO 197.º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE MARIA SEVERA




FADO MARIA SEVERA


Num beco da mouraria,
Onde a alegria
Do sol não vem
Morreu maria severa
Sabem quem era
Talvez ninguém

Uma voz sentida e quente
Que hoje à terra disse adeus
Voz sentida, mas ardente
Mas que vive eternamente
Dentro em nós e junto a deus
Além nos céus

Bem longe o luar
No azul tem mais luz
Eu vejo-a rezar
Aos pés de uma cruz
Guitarras trinai
Viradas ao céu
Fadistas chorai
Porque ela morreu

Caía a noite na viela
Quando o olhar dela
Deixou de olhar
Partiu p'ra sempre, vencida
Cantando a vida
Que a fez chorar

Deixa um filho idolatrado
Que outro afeto igual não tem
Chama-se ele o triste fado
Que vai ser desse enjeitado?
Se perdeu o maior bem:


O amor de mãe


Maria Severa Onofriana ( 26 Julho, 1820 - 30 Novembro, 1846 ) celebrizou-se como "Severa", tornada o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, no bairro da Mouraria.
Através do seu registo de batismo a 12 de Setembro de 1820, na Paróquia dos Anjos, registou-se a data de nascimento de Maria Severa Onofriana a 26 de Julho de 1820, o local do seu nascimento terá sido na Rua da Madragoa (actual Rua Vicente Borga nº33), onde sua mãe tinha uma taberna. Filha de Severo Manuel de Sousa, natural da freguesia de S. Nicolau, em Santarém, e de Ana Gertrudes, nascida em Portalegre. O casal havia contraído matrimónio a 27 de Abril de 1815, na Paróquia de Santa Cruz da Prideira de Santarém.

 Maria Severa faleceu muito jovem. O assento de óbito indica a sua morte no dia 30 de Novembro de 1846 na Rua do Capelão, apoplética e sem sacramentos, com a idade de 26 anos e solteira. A fadista foi sepultada no Cemitério do Alto de S. João.
Para além destes dados pouco mais está comprovado sobre a vida da cantadeira, uma vez que a maioria das informações provém dos reduzidos relatos orais de contemporâneos, casos de Luís Augusto Palmeirim, Miguel Queriol e Raimundo António de Bulhão Pato.
O poeta Bulhão Pato, que a conheceu pessoalmente, deixou o seguinte testemunho da sua personalidade: "A pobre rapariga foi uma fadista interessantíssima como nunca a Mouraria tornará a ter!... Não será fácil aparecer outra Severa altiva e impetuosa, tão generosa como pronta a partir a cara a qualquer que lhe fizesse uma tratantada! Valente, cheia de afetos para os que estimava, assim como era rude para com os inimigos. Não era mulher vulgar, pode ter a certeza"

Por seu lado, Luís Augusto Palmeirim confessa que viu e falou com Severa apenas uma vez, mas que "foi o bastante para nunca mais me esquecer da esbelta rapariga, que tinha lume nos olhos, uma voz plangente e sonora, e, apesar destas aparentes seduções, uns modos bruscos e sacudidos, que avisavam os seus interlocutores a porem-se fora do alcance «de um revés de fortuna»".

Tendo-a visitado numa casa onde então morava, no Bairro Alto, descreveu posteriormente, no seu livro "Os excêntricos do meu tempo", esta visita da seguinte forma: "Quando entrei em casa da Severa, modesta habitação do tipo vulgar das que habitam as infelizes sua congéneres, estava ela fumando, recostada num canapé de palhinha, com chinelas de polimento ponteadas de retrós vermelho, com um lenço de seda de ramagens na cabeça e as mangas do vestido arregaçadas até ao cotovelo.

Era uma mulher sobre o trigueiro, magra, nervosa, e notável por uns magníficos olhos peninsulares. Em cima de uma mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável dos seus triunfos; e pendente da parede (sacrilégio vulgar nas casas daquela ordem) uma péssima gravura, representando o Senhor dos Passos da Graça!"

Maria Severa Onofriana, celebrizou-se como "Severa", tornada o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, no bairro da Mouraria.
Os locais de atuação de Severa não estão ainda identificados, mas acredita-se que estão relacionados com os circuitos de prostituição, em particular do Bairro Alto e da Mouraria.
Severa fez também apresentações em festas aristocráticas, facto tornado possível pela sua ligação ao conde de Vimioso, descrição presente no relato de Miguel Queriol no jornal "O Popular", onde relata a apresentação de Severa no Palácio do Conde.

A estes locais acrescenta o café do antigo moço de forcado Joaquim Silva, à Rua do Saco, nas proximidades da praça de touros do Campo de Santana, onde o Conde de Vimioso se juntava com apreciadores e praticantes da arte de tourear

A popularidade de Severa resultou em larga parte da sua relação amorosa com o Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula Portugal e Castro, que lhe proporcionou grande celebridade e naturalmente permitiu a Severa um maior prestígio e número de oportunidades para se exibir para um público de jovens oriundos da elite social e intelectual portuguesa.

Após a sua morte a "meio-soprano dos conservatórios do vício", conforme a apelidou Pinto de Carvalho, passou a usufruir de uma crescente fama, até então inédita nestes círculos populares, cantada em letras de fados, em romance e até no cinema. Essa popularidade está patente no "Fado da Severa", catalogado por Teófilo Braga no "Cancioneiro Popular" de1867, como sendo de autoria de Sousa do Casacão e datado de 1848, de que aqui transcrevemos algumas quadras.

Prolonga-se até hoje a aura de mistério que torna Severa na figura mais mitológica do universo fadista, fruto da ausência de detalhes sobre a sua vida, bem como da inexistência de um retrato que comprovadamente possa perpetuar a sua figura.

Na Mouraria, na Rua do Capelão, está o Largo da Severa, onde a casa da fadista está assinalada com a indicação de “Casa da Severa” e no chão, empedrado de calçada à portuguesa, pode ver-se o desenho de uma guitarra. Na fachada da casa foi colocada uma placa, onde pode ler-se: “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana, considerada na época a expressão sublime do Fado. Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade. Lisboa 3-6-89”.
Esta placa foi descerrada por Amália Rodrigues, ao mesmo tempo que dedicada a Fernando Maurício.





sexta-feira, julho 21, 2017

PELA NOITE, COM MANUEL ANTÓNIO PINA: "A PORTA ESTREITA"



A PORTA ESTREITA


A porta estreita do regresso
 abre-se finalmente para aquele
 que perdeu a paciência e também a impaciência
 e que pára sobre o coração sem lugar de tudo.

  
A visão de esse, de o que está fora,
 de aquele que regressa sem ter partido
 dançando sobre os destroços da sua imagem,
 é o que me vê a mim; falo ainda de mim

  
embora por um momento só.
 Mas já não sou o mesmo nem sou diferente.
 O dentro de isto está fora
 de mim e de si próprio.


MANUEL ANTÓNIO PINA




Manuel António Pina
Manuel António Pina, nasceu em novembro de 1943 no Sabugal e morreu em outubro  de 2012 na cidade do Porto. Premiado em 2011 com o Prémio Camões, o escritor e jornalista licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e foi jornalista do "Jornal de Notícias" durante três décadas, tendo sido depois cronista do " Jornal de Música " e da revista "Notícias Magazine".
A sua obra incidiu principalmente na poesia e na literatura infanto-juvenil, embora tenha escrito também diversas peças de teatro e de obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e TV e editadas em disco.
A sua obra difundiu-se em países como França (Francês e Corso), Estados Unidos, Espanha (Espanhol, Galego e Catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária.
Faleceu no dia 19 de Outubro de 2012 no Hospital de Santo António no Porto.

Obras Literárias Publicadas:

Poesia:
1974 - Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde
1978 - Aquele que quer morrer;
1981 - A lâmpada do quarto? A criança?
1984 - Nenhum sítio
1988 - O caminho de casa
1991 - Um sítio onde pousar a cabeça
1992 - Algo parecido com isto da mesma substância (poesia reunida, 1974/1992)
1993 - Farewell happy fields
1994 - Cuidados intensivos
1998 - Pequena antologia de Manuel António Pina
1999 - Nenhuma palavra e nenhuma lembrança
2001 - Atropelamento e fuga
2001 - Poesia reunida 1974-2001
2003 - Os livros
2011 - Poesia Saudade da prosa: Uma antologia pessoal
2011 - Como se desenha uma casa
2012 - Todas as palavras: Poesia reunida

Literatura infantil:
1973 - Gigões & anantes
1973 - O país das pessoas de pernas para o ar
1976 - O Têpluquê
1976 - O livro dos porquês
1983 - O pássaro da cabeça (poesia)
1983 - Os dois ladrões (teatro);
1984 - História com reis, rainhas, bobos, bombeiros e galinhas
1985 - A guerra do tabuleiro de xadrez
1986 - Os piratas (ficção);
1987 - O inventão
1993 - O tesouro
1995 - O meu rio é de ouro (Mi río es de ouro)
1996 - Uma viagem fantástica
1997 - Os piratas
1998 - Aquilo que os olhos veem ou O Adamastor
1999 - Histórias que me contaste tu
2001 - A noite
2001 - Pequeno livro de desmatemática
2002 - Perguntem aos vossos gatos e aos vossos cães
2007 - A Caneta Preta
2009 - História do sábio fechado na sua biblioteca
2009 - O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal

Outros:
1994 - O anacronista
2000 - Lua negra. Dark moon
2001 - Porto. Modo de dizer
2003 - Os papéis de K.
2007 - Dito em voz alta : entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo

Prémios:
1978 - Prémio de Poesia da Casa da Imprensa
1987 - Prémio Gulbenkian 1986/1987
1988 - Menção do Júri do Prémio Europeu Pier Paolo Vergerio da Universidade de Pádua, Itália
1988 - Prémio do Centro Português para o Teatro para a Infância e Juventude
1993 - Prémio Nacional de Crónica Press Club/ Clube de Jornalistas
2002 - Prémio da Crítica, da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários
2004 - Prémio de Crónica 2004 da Casa da Imprensa
2004 - Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2003
2005 - Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT
2011 - Prémio Camões

Imagem:



Porta da "Casa do Moinho".
DR
Permissão do Museu Municipal de Arqueologia (D.A.)

Voz e montagem do vídeo: José-António Moreira


PELA NOITE, COM JOSÉ GOMES FERREIRA: "ENTREI NO CAFÉ COM UM RIO NA ALGIBEIRA"




ENTREI NO CAFÉ COM UM RIO NA ALGIBEIRA


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.


JOSÉ GOMES FERREIRA,
(1900-1985)
Porto, Portugal


Imagem:



(DR)

quinta-feira, julho 20, 2017

PELA NOITE, COM FILIPE MARINHEIRO: "POEMA SEM TÍTULO 2"



POEMA SEM TÍTULO 2


Cantam as tulipas.
E busco um cristalino mar
dum azul intensamente sensível.

Agora há-de sobressaltar-se gemendo
na sua farpada dobra
que me torce as unhas até esmagar
a água em volta do corpo,
por fora e dentro arbitrário,
ao entrar e sair salva,
como a luz florescente
duma janela longínqua debaixo
deste lento mar penetrante.
E faz idênticas espumas polirem meu suspiro
enquanto suavemente me afundo,
sem ser-me ninguém,
num mar de tulipas lavrado que se volta
para as palmas de minhas mãos esplêndidas
e me esvai toda a ferida
e peso rubros.

Bato embaciando-me
contra o sangue espesso das pedras
a baterem no espaço vazio
das pedras batidas
pela eternidade viva.
Batem-se as tulipas
no estremecimento das pétalas
contra o calor
sob o vento elástico.

Concentrassem
as gotas das coisas,
das terras despidas, de órbitas em órbitas,
mover-se-nos-iam
para a desastrosa profundidade volumosa
a inundar o que verdadeiramente
nenhuma pessoa possui.

Amamos o corte da neblina
encostando o vidro à cara
num clarão louco.
Sentimo-lo silencioso
para ilustrar a destruição
enquanto deixamos passar o horizonte
lá longe a planar.

As entranhas mirradas
a migrarem na concavidade nua
são hoje as sorridentes tulipas
a embalarem-me o fresquíssimo alvoroço,
donde rítmico,
regressei de dedos dados
ao frescor como desponto.

Quem visse
aquele pendurado cometa mole
a incendiar-se em jacto escorregadio
na copa das tulipas,
seria uma qualquer rota
pousada
no seu caule rodopiante
a colar-se à pele.

Tocas-lhe
e queimas-te intensamente
como queimaram um dia as tulipas
no momento em que se desprenderam.

Enumero o lume por baixo
e fecho-o pequeno.

Adormeço pela geada acima
escrevendo
o mar às tulipas surpresas.

Canta todo o alegre mar cristalino.
Cantam as cores que vêm do fundo limpo
de todas essas tulipas.
Cantam tulipas em mim.


FILIPE MARINHEIRO,
In “Silêncios”




Filipe Marinheiro


Filipe Marinheiro é um poeta que nasceu no dia 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro. 


Voz:José-António Moreira


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