quinta-feira, outubro 14, 2010

NEM TODOS OS AMORES SÃO ASSIM...



Pensei duas vezes antes de publicar esta mensagem, hesitei bastante, isto porque ela me toca de maneira muito especial. Todavia, dada a particularidade deste episódio, decidi fazê-lo.

O texto que se segue foi transcrito do livro "O Cão de Serra da Estrela", de Jerónimo Osório e datado de 1987, apenas com algumas omissões de nomes.

"João" nasceu em S.Romão de Seia, em Novembro de 1898 e por volta de 1916, vítima de doença osteológica, veio a paralisar dos membros inferiores quando apenas contava dezoito anos de idade. Como a família possuísse alguns exemplares de cães serranos, a determinada altura o menino "Joãozinho" começou a utilizar um daqueles valorosos animais na tracção do carrinho em que se fazia deslocar.

A partir de então, o menino e o "Fiel" (assim se chamava o cão) foram-se tornando cada vez mais num símbolo único de amizade e mútua dedicação.

Não obstante os longos anos decorridos sobre a morte do "Fiel", ele ainda hoje persiste vivo na memória não só dos familiares e amigos, mas também na da boa gente de S.Romão e freguesias limítrofes, que ainda hoje o recordam com expressões de ternura e saudade, tantas e tão belas foram as provas de fidelidade demonstradas por aquele animal ao seu dono.

Vou referir o derradeiro gesto de amor e fidelidade do "Fiel" para com o seu amo.

Tendo falecido a 16 de Fevereiro de 1956, o corpo do "Joãozinho" ia a sepultar, dois dias depois, no cemitério da sua terra natal. Sem que ninguém de tal se apercebesse, o cão fez-se incorporar no préstito fúnebre. Caminhando lenta e pausadamente de cauda caída tocando os curvilhões, cabeça baixa e olhos postos no chão numa atitude de visível desalento, o "Fiel" demonstrava ser aquela a mais difícil e penosa de todas as caminhadas até então por ele levadas a cabo.

Depois, dia após dia, como que em romagem de saudade visitava a campa rasa e o quarto do companheiro desaparecido. Poucos dias passados, aquele valente mas sempre dócil animal, cuja força e resistência não conheciam limites, sucumbia para sempre sob o peso da saudade, junto da sepultura do seu dono".

O menino "Joãozinho" foi meu tio João, irmão mais novo de meu Pai e à memória de quem dedico esta mensagem.

3 comentários:

peonia disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
peonia disse...

A mensagem confirma aquilo que se diz acerca da sensibilidade dos cães. Confirmei-o com um simples rafeiro que latiu todo o dia quando o meu Pai foi levado para o Hospital para morrer.

Maria Haydée Nogueira disse...

É verdade, este episódio aconteceu com um falecido tio meu e deu-me a consciência de que certos animais conseguem "superar" certos humanos...
Obrigada pelas suas palavras.Bjs.

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