sábado, maio 21, 2016

PELA TARDE, COM MIA COUTO: "CONTOS DO NASCER DA TERRA"



Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela.
O pai meteu-se num barco e remou para longe.
Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas.
Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados.
O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamento.
A lua se cintilhaçou em mil estrelinhacões.
O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo.
A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal.
A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares.
Olhou para o horizonte e exclamou:

- Pai!

Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra.
Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue.
A água sangrava?
O sangue se aguava?
E foi assim.

Essa foi uma vez.


MIA COUTO,
in "Contos do nascer da terra"


1 comentário:

Ana Nunes da mata maio Ribeir disse...

Adorei ler este conto....bom fim de semana!! Beijinhos!!

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