domingo, março 25, 2012

A MAGIA DA DANÇA (PARTE VI) - O TANGO (Património Oral e Imaterial da Humanidade)











O Tango nasceu nos fins do século XIX, derivado das misturas entre as formas musicais dos imigrantes italianos e espanhóis, dos crioulos descendentes dos conquistadores espanhóis que já habitavam os pampas e de um tipo de batuque dos negros chamado "Cadombe". Há indícios de influência da "Habanera" cubana e do "Tango Andaluz".

Tango

O Tango nasceu como uma expressão folclórica das populações pobres, oriundas de todas aquelas origens, que se misturavam nos subúrbios da crescente Buenos Aires.

Em 1913, enquanto o mundo se debatia em vésperas de Segunda Guerra Mundial, o Arcebispo de Paris proibia os meneios e cruzamentos de pernas dos dançarinos de tango, recém-chegados aos salões da moda. Um Consistório - reunião de cardeais para tratar de assuntos urgentes da Igreja - foi convocado, com caráter de urgência, para deliberar sobre este assunto tão palpitante. 

No entanto, o sensato Papa Benedito XV (Cardeal Giacomo Della Chiesa, eleito em setembro de 1914), ao assistir a uma exibição de tango por um casal de profissionais, considerou que se tratava apenas de uma novidade mais ousada e liberou a sua execução.

Numa fase inicial, o Tango era puramente dançante. O povo encarregava-se de improvisar letras picantes e bem humoradas para as músicas mais conhecidas, mas não eram, por assim dizer, letras oficiais, feitas especificamente para as músicas nem definitivamente associadas a elas.

Carlos Gardel

Pela sua forte sensualidade, o Tango foi, no início, considerado impróprio para ambientes familiares. Para os primeiros grupos de "tocadores de tango", onde se destacavam os sons da flauta e do violão, entraram o piano, seguido do violino e contrabaixo, e finalmente o "bandoneon"( híbrido de acordeom e gaita gaúcha). Estava formada a "orquestra típica".

Em público, dançavam os homens com homens. Naqueles tempos era considerada obscena a dança entre homens e mulheres abraçados, sendo este um dos aspetos do tango que o manteve circunacrito aos bordéis, onde os homens utilizavam os passos que praticavam e criavam entre si nas horas de lazer mais familiar. 

Mais tarde o Tango tornou-se numa dança típica dos bordéis, sobretudo depois da transformação das áreas dos subúrbios em fábricas, que a industrialização ocasionou, transferindo assim a miséria dos bordéis para o centro da cidade. Nesta fase proliferaram letras com a temática voltada para esses ambientes. São letras francamente obscenas e violentas.

Por volta de 1910 o Tango foi levado para Paris. Existem diversas versões acerca da maneira como isto aconteceu. A sociedade parisiense da época em que as artes viviam o modernismo, ansiava por novidades e exotismo.
Astor Piazzolla e o seu Bandoneon

O Tango tornou-se como uma febre em Paris e, como Paris era o centro cultural de todo o mundo civilizado, o Tango expandiu-se pelo resto do mundo. As parcelas moralistas da sociedade condenavam-no, assim como anteriormente tinham condenado a Valsa, por o considerarem uma dança imoral. A própria sociedade argentina desprezava o Tango, que só passou a ser aceite nos salões da classe alta, pela influência indireta de Paris.

Em 1917 começaram a surgir variantes formais do Tango. Uma delas, influenciada pela romança fracesa, deu origem ao chamado Tango-canção. Tangos concebidos para musicar uma letra. A letra passa a ser a parte essencial do Tango e consequentemente, surgem os cantores do Tango.  Já não é feito exclusivamente para dançar. É considerado o primeiro - ou pelo menos mais marcante nessa transição - Tango-canção, o "Mi Noche Triste" com letra de Pascoal Contursi, de 1917, inspirado numa música antiga chamada "Lita".

Dançarinos de Tango Argentino

Nos cabarés de luxo da década de 1920, o Tango sofreu modificações importantes. Os executantes já não eram os grupos pequenos que atuavam nos bordéis, mas músicos profissionais que introduziram o uso do piano e mais qualidade técnica e melódica.

Carlos Gardel, nascido em França, em 1890, já era senhor de um sucesso estrondoso em 1928. Sucesso que durou até 1935, quando faleceu vítima de um acidente de avião, em pleno auge da sua carreira. Gardel cantou o Tango em Paris, Nova Iorque e muitas outras capitais do mundo, sempre atraindo multidões, principalmente quando se apresentava na América Latina. Eram multidões dignas de Elvis Presley e dos Beatles. Também foi responsável pela popularização do Tango, ao estrelar filmes musicais de tango produzidos em Hollywood.

Tango Argentino

A década de 1940 é considerada uma das mais felizes e produtivas do Tango. Os profissionais que haviam começado nos cabarés de luxo da década de 1920, estavam no auge do seu potencial. Nesta época, as letras dos tangos passaram a ser mais líricas e sentimentais. A antiga temática dos bordéis e cabarés, de violência e obscenidades, passou a ser uma mera reminiscência. As letras passaram a ser caracterizadas pela fórmula ultra-romântica: a chuva, a garoa, o céu, a tristeza do grande amor perdido. Muitos dos letristas foram poetas de renome e com sólida formação cultural.

A década de 1950 conta com atuação revolucionária de Astor Piazzolla. Piazzolla rompe com o tradicional, trazendo para complementar os recursos do Tango influências de Bach e Stravinsky, ao mesmo tempo do Cool Jazz. 

Nesta altura o Tango passa a ser executado com alto grau de profissionalismo musical, mas no universo popular a década de 1950 vê a invasão do Rock'Roll americano e a danças de salão passam a ser prática apenas de um grupo de amantes.

Na década de 1960, uma lei  de proteção à música nacional Argentina já está revogada, e o Tango que era ouvido diariamente nas rádios vai sendo substituído por outros ritmos estrangeiros, e as próprias gravadoras não se interessam mais pelo Tango. A juventude não só pára de praticar o Tango no lazer do dia a dia, como passa a ridicularizá-lo como coisa fora de moda.
Cartaz do Tango, Património Oral e Imaterial
da Humanidade.













Com o desinteresse comercial das gravadoras, foram compostos poucos tangos de relevo. Tem sido prática mais comum as releituras dos antigos sucessos e as reinterpretações modernizadas dos maiores sucessos dos primeiros tempos.

Hoje, a crítica Argentina detecta um retorno ao Tango, cada vez mais frequente em peças teatrais e cinematográficas. Em 1983 apresentou-se em Paris uma inovação relativa aos espetáculos planeados para o exterior: os casais de profissionais que constituiam o elenco, provinham da "milonga porteña". Era a quebra da imagem do bailarino acrobático.

Em 1977, a prefeitura de Buenos Aires instituiu o Dia do Tango, logo tornado em evento nacional e agora  parte do calendário cultural de vários países.

E em 30 de setembro de 2009, no Dubai, o Tango foi considerado Património Oral e Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.














ASTOR PIAZZOLLA E SUA ORQUESTRA (1950):

TANGO ARGENTINO (Atual):


2 comentários:

Claudia disse...

Acho tão lindo! Tenho muita vontade de aprender, grande abraço!

M.Haydée Nogueira disse...

Obrigada, Claudia.
No Youtube tem excelentes vídeos com lições de como aprender os passos do tango. Depois é só praticar...
Beijos.

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