sexta-feira, dezembro 10, 2010

O AZULEJO EM PORTUGAL (Parte I)







ORIGENS:
A origem da palavra Azulejo tem gerado alguma controvérsia. Alguns etimologistas afirmam que esta palavra   tem origem persa, de raiz mesopotâmica, baseada no adjectivo azul, que caracterizava a pedra semi-preciosa de cor azul muito forte, abundante na região, o lápis-lazúli. Outros defendem que tem origem árabe, na palavra al-zulayche ou zuléija, que significa pedra pequena polida ou ladrilho. Azulejo propriamente como ladrilho que conhecemos, deve ter-se afirmado na Andaluzia, e propagado pela cultura árabe que proliferou na Península Ibérica.

Painel Albarrada
Quanto ao Azulejo em Portugal, só começou a ser fabricado, com características nacionais, por volta do ano de mil e quinhentos. Desde aí e durante cerca de 300 anos, o seu uso generalizou-se de tal forma que era raro o edifício de categoria que não usasse o Azulejo como decoração, principalmente associada à talha dourada (daí a expressão tão conhecida "ouro sobre azul"), ou a outras artes decorativas.

Assim, o Azulejo em Portugal assumiu tais proporções, que a sua linguagem estética evoluiu, adaptando-se às mudanças dos tempos e exigências de modos e gostos.

Foi de Sevilha e Talavera que vieram a maior parte dos azulejos com padrões renascentistas, cuja influência foi extremamente importante para o desenvolvimento entre nós. De salientar os azulejos que imitavam superfícies elevadas, conhecidos como Trompe-d'oeil, cuja gradação cromática criava a ilusão de um foco de luz e zonas de sombra. Esta técnica de relevos separando as cores era também justificada pelo facto de, à época, ainda não se conhecer a técnica que permitiu preparar tintas espessas o suficiente para se não misturarem entre si.

Parece que este facto se deveu a uma viagem do rei D. Manuel I a Sevilha, Toledo e Alicante, no ano de 1498, onde se deslumbrou com o brilho e policromia dos interiores mouriscos. Como o monarca manifestasse o desejo de construir os seus palácios à semelhança dos edifícios visitados, deu-se assim a primeira aparição do mosaico hispano-mourisco em Portugal. Assim foi edificado o Palácio Nacional
de Sintra.

Painel Figurativo

No séc. XVII o azulejo mantém ainda o seu colorido, com azul, amarelos, laranja, verde e cor de vinho, pintados sobre fundo branco.

Com a Restauração e Independência de 1640, a nobreza enriquece com os valores e riquezas vindos do Brasil e o Azulejo é aplicado em larga escala nos numerosos edifícios nobres,  jardins e revestimentos interiores e exteriores de igrejas e palácios.

Nos finais deste século, importam-se dos Países Baixos ciclos em azul e branco, influenciados pela cerâmica chinesa, que chegou à Europa por vias marítimas e que agradou bastante não só aos holandeses como ao gosto português, que começou a sua produção em larga escala: temas de cortesãs, figuras de convite,  cenas religiosas, de caça e militares.
Datam desta altura as decorações de cozinhas e sacristias, igrejas e conventos, com figuras de alimentos pendurados, representativos de caça ou peixe. O Palácio Marquês da Fronteira, em Lisboa, ostenta magnífica azulejaria desta época.

Com o terramoto de 1755, surge ao luxo, a necessidade da fabricação em série, agora destinada a revestir edifícios novos e reconstruídos, moda muito em voga no Brasil e daí importada, sobretudo pelas características de isolamento, resistência e decoração que o azulejo apresentava como material de revestimento nas novas construções. O Palácio Nacional de Queluz e a Quinta dos Azulejos, no Lumiar, enquadram-se neste período do azulejo em Portugal.
Fábrica Viúva Lamego

Ainda hoje se mantém como um dos materiais preferenciais na construção civil, pela sua forte impermeabilidade e resistência às variações das temperaturas ambientais.

No séc. XIX, os azulejos retomam a policromia, muito mais simples e repetitivos, e passam definitivamente para o exterior dos edifícios: Jorge Colaço e Rafael Bordalo Pinheiro destacaram-se na elaboração deste tipo de azulejos. Quanto ao séc. XX, houve alguns avanços na segunda metade, com trabalhos de Maria Keil, Cargaleiro, Júlio Pomar, Eduardo Néry e Vieira da Silva, entre outros.

As fábricas ou "ateliers" que mais se destacaram no fabrico Azulejo antigo  foram : Viúva Lamego, Constância (minha preferida) e Sant´Anna, quase todas ainda activas, segundo creio.

FABRICO:
O chamado azulejo ou chacota antiga, de raiz puramente artesanal, voltou a estar em moda por volta das décadas dos anos 60 e 70. Este tipo de azulejo deve ter 14 cms de tamanho e 11 mms de espessura, embora e a pedido, possa ser comercializado com as medidas industriais de 15 cms. Deve, contudo, manter os 11 mms de espessura e não os 8 mms industriais, incompativeís com a sua textura.

Corte da lastra
Depois de escolhida a pasta de barro ideal, estende-se esta lastra entre duas barras de madeira, sobre areia (para o barro não pegar).

Obtida a espessura ideal. procede-se ao corte do azulejo sobre um molde de madeira com as medidas correctas.

Uma vez cortado, procede-se à secagem desta chacota, que deve ser muito lenta, sem variações de temperatura e pode levar de 1 a 2 meses, consoante as condições climatéricas.



Fase da pintura do painel
Seguidamente sofre a primeira queima no forno (mufla) até atingir a temperatura final de 1040º, operação que deve demorar cerca de 12 horas.

O arrefecimento tem que ser lento, podendo demorar mais de 15 horas.

A operação seguinte é a vitrificação, ou seja, mergulhar o azulejo no preparado líquido do vidro (segredo "vital" de cada fabricante) e fundamental para o brilho e tonalidade final da peça. Esta seca rapidamente e ao fim de cerca de 20 minutos poderá ser pintada.
O desenho escolhido é picotado sobre o vidrado, passando-se em seguida com pó de carvão embrulhado num pano (boneca de carvão), para demarcar o desenho picotado.


Resultado após a 2.ª queima




A pintura deve ser rápida e precisa, visto que a superfície do azulejo é porosa e não permite emendas...

Veja-se o resultado final após a 2.ª queima de 1090º e como as cores resultaram, ficando o azulejo pronto após o seu total arrefecimento.

A Azulejaria Artística é um património apaixonante, que deveria ser preservado a todo o custo.Também eu me apaixonei... O Painel do Presépio, A Albarrada e o Painel do Flautista, contaram com a minha modesta colaboração.














2 comentários:

Teresa disse...

Post espectacular !
Vem mesmo a calhar para a próxima visita guiada ao Museu do Azulejo.
Parabéns !

Maria Haydée Nogueira disse...

olhe,Teresa, esta mensagem não pretende ser uma "lição" sobre o azulejo, mas foi com prazer que pude partilhar conhecimentos práticos e históricos que povoaram um período da minha vida,em que tive oportunidade de dirigir um destes "ateliers" que referi na publicação...
Beijinhos e obrigada pelo simpático comentário!

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