quarta-feira, agosto 24, 2016

PELA NOITE, COM MANUEL ALEGRE: "COM QUE PENA"



COM QUE PENA
 
Era ainda um léxico sibilante
um gutural murmúrio di-
sonante. Diante da folha branca
Luís Vaz de Camões.
Ninguém sabe com
que pena com que
Tinta em
que papel.
Ninguém saberá nunca
com que
letra.
E isso é como ter perdido
uma parte do nosso próprio rosto.
  
Era muito antes de Mallarmé escrever
que a forma chamada verso
é pura e simplesmente a literatura.
Muito antes das teses de Pound sobre a melopeia
e de Shelley ter dito que os poetas
são os ignorados legisladores da humanidade.

Era muito antes de a poesia ter entrado
em Portugal para a universidade.
  

Talvez Camões soubesse que Dante di-
vi-
dia
as palavras consoante sua música.
Sabia por certo que o poeta é um fabbro 
(mais tarde Pound diria um versemaker
e João Cabral de Melo Neto - contra
a poesia bissexta e a teoria da inspiração -
poria o acento tónico no fazer
e no sentido profissional da literatura).

Então o com e o que
as sílabas mais ásperas e as rudes
consoantes puseram-se a cantar.
Alquimia - poderia dizer Rimbaud
muito mais tarde. Mas era
(segundo Pedro Nunes)
outro mar outro céu outras estrelas.
Da obscura substância de uma antiga prosódia
uma língua nascia.

E se alguém perguntasse como
não morria
tu dirias canção que 
porque
poesia.


MANUEL ALEGRE
(in "Vinte Poemas para Camões", pág. 25, 
Prémio Vida Literária A.P.E. 2016, Prémio de Consagração de Carreira S.P.A.)


1 comentário:

Ana Nunes da mata maio Ribeir disse...

Muito bonito..obrigada!! Noite feliz e serena!! Beijinhos!!

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