domingo, julho 13, 2014

PELA NOITE, COM OLAVO BILAC: "INANIA VERBA"





INANIA VERBA

Ah! quem há-de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há-de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?

OLAVO BILAC,

In Poesias



2 comentários:

artista sem pena disse...

Expressou tudo, mesmo com as palavras presas na garganta...
Fantástico!

M.H. R.M. disse...

Um grande poeta um grande poema, de facto. Obrigada.

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