"Eu peço um
favor, rezem por mim. Necessito. Que Deus os abençoe e Nossa Senhora Aparecida
cuide de vocês. Até 2017, porque eu vou voltar." A promessa do papa
Francisco após a missa em Aparecida apanhou todos de surpresa. Por quê 2017,
afinal? Tudo indica que o "romeiro de Nossa Senhora" quer participar
das comemorações dos 300 anos do aparecimento da santa que se tornou a
padroeira do Brasil.
Há dois relatos
sobre a aparição da imagem, de 39 centímetros, de Nossa Senhora - um de autoria
do padre José Alves Vilela, em 1743, outro assinado por João de Morais e
Aguiar, em 1757. Esses documentos estão guardados no Arquivo da Companhia de
Jesus, em Roma, e no Arquivo da Cúria Metropolitana de Aparecida. Em ambos, a
santa teria sido achada em outubro de 1717, quando Dom Pedro de Almeida, conde
de Assumar e governante da capitania de São Paulo e Minas de Ouro, passava pela
cidade de Guaratinguetá, no vale do Paraíba - e ia até Vila Rica.
Por conta da
passagem de Dom Pedro de Almeida, houve uma festa na região. Os pescadores
foram ao Rio Paraíba, com a ideia de trazerem peixes para a comemoração.
Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, pescadores, não estavam a ter muita sorte - e
também nem era época boa para pesca. Após tentarem diversas vezes pescar algo e
rezarem à Virgem Maria, apanharam um corpo de uma imagem de Nossa Senhora, nas
redes. Sem a cabeça. Uma nova tentativa devolveu a cabeça da imagem ao barco.
De acordo com os
relatos, após terem "pescado" a santa, os três pescadores conseguiram
uma pescaria verdadeiramente milagrosa, para a festa.
Em 1967, ano da comemoração do jubileu dos 250 anos do encontro da imagem de
Nossa Senhora da Conceição Aparecida, o papa Paulo VI ofereceu ao Santuário
Nacional a Rosa de Ouro, importante galardão do Vaticano.

Em 2012, a imagem
de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, foi finalmente reconhecida
pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e
Turístico do Estado (Condephaat). A santa de 39 centímetros, de estilo barroco,
feita de barro cozido e com uma coroa presenteada pela Princesa Isabel é, desde
então, reconhecida como património cultural do Estado de São Paulo. É a 12 de 0utubro que se festeja o
dia da padroeira do Brasil, feriado nacional.
O mau tempo também complicou a vinda do papa Francisco e da sua comitiva a Aparecida. As
forças de segurança deixaram um carro de segurança e um grupo de batedores em São
José dos Campos, a 80 quilômetros da cidade, onde Francisco chegou transportado por um avião da FAB, para o caso de o trajeto ser feito pela Via Dutra. A comitiva do
Papa optou pela chegada ao santuário em helicópteros.
Marcada para as
11h, a missa atrasou-se 30 minutos. Padres e bispos rezaram e cantaram com os
fieis, que não deixaram o recinto até o momento em que Francisco partiu, por
volta das 13h, para o Seminário de Bom Jesus, onde almoçou com cardeais e saboreou um
cardápio tipicamente brasileiro. Depois abençoou a imagem de Frei Galvão, o
primeiro santo brasileiro.
A chegada do
pontífice ao santuário e sua passagem de papamóvel próximo da multidão levaram
os fieis ao delírio. Muitos católicos choraram de emoção e cantaram a música de
boas-vindas a Francisco. Por sua vez, no final da missa, o Papa levou a imagem
de Aparecida, considerada milagrosa, até à tribuna e, mais que abençoar os
fieis, pediu que rezassem por ele. Depois confirmou a presença ao convite feito
pelo arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno, para participar dos
festejos comemorativos dos 300 anos do descobrimento da escultura da santa.
- Eu não falo
brasileiro. Me perdoem, vou falar em espanhol. Muito obrigado por estarem aqui,
de coração. Eu bendigo toda a sua família e peço que Nossa Senhora abençoe toda
a Pátria. Agora, vou ver se entendem (seu espanhol): uma mãe esquece os seus
filhos? Ela não se esquece, não se esquece de nós. Ela cuida. Eu vou pedir com
jeitinho que rezem por mim. Eu preciso. Que Nossa Senhora cuide de vocês. E até
2017, que eu volto - disse o Papa.
Durante a missa,
no primeiro sermão feito aos brasileiros, Francisco pediu aos jovens “três
simples posturas”, focadas na esperança e na alegria. Como um dos milhares de
romeiros que chegam a Aparecida todos os dias, disse que batia “à porta de
Maria” e enalteceu a mãe de Jesus diversas vezes, mostrando consonância com os
fiéis de Aparecida.
- Gostaria de
chamar a atenção para três simples posturas: conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; e viver na alegria -
disse Francisco, que, citando uma das leituras bíblicas feitas na celebração,
continuou:
- O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa
história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a
nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos
todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de
tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente,
uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros.
Ao final do
sermão, Francisco lembrou o Papa Bento XVI que, assim como ele, esteve em
Aparecida em 2007 durante o Celam (Conselho Episcopal da América Latina e Caribe).
A frase de Bento foi dita na abertura da Conferência de Aparecida, da qual o
então arcebispo Jorge Mario Bergoglio, era relator:
- Como dizia
Bento XVI: O discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro.
O papa Francisco
também pregou a esperança:
- Deixar-se
surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança –
a grande esperança que a fé nos dá – sabe que, mesmo em meio às
dificuldades, Deus atua e nos surpreende - disse o papa.
O Seminário onde
Francisco almoçou nesta quarta-feira, já abrigou dois papas, João Paulo II, em
1980, e Bento XVI, em 2007. O quarto e o refeitório usados pelo pontífice são
os mesmos que Bento XVI usou.
- Não precisaram
de reformas - explicou o bispo auxiliar de Aparecida, dom Darci José Nicioli,
que estimou em 150 mil o público recebido por Aparecida.
Um grupo de
cerca de 400 sem-abrigo deixaram São Paulo em oito autocarros e alguns automóveis para
fazer um protesto perante o Papa. O objetivo do Movimento dos Trabalhadores Sem
Teto era chamar a atenção do pontífice para as remoções de moradias em entorno
das obras da Copa e para a violência policial nas periferias do país.
Pacificamente, os manifestantes ocuparam um pequeno local entre a multidão da
basílica, mas ficaram distantes do pontífice.
Sempre
sorridente, Francisco passou com o papamóvel pela multidão em volta da
basílica, acenando. Cumprimentou e beijou crianças. Depois
da missa, saudou afetuosamente os fiéis, abraçando muitos dos que estavam
entre as 13 mil pessoas que puderam entrar na igreja.
- É muita
emoção. Não me importo com a chuva nem com não ter entrado na igreja. Valeu
tudo, valeu a chuva, o frio. Valeu por ver o Papa. Ele é tudo. Ele é uma belezinha
- festejou Angela Aparecida Limongi, vendedora de 52 anos, que mora na cidade
vizinha de Guaratinguetá e que ocupava uma das seis mil cadeiras disponíveis
diante da tribuna onde o pontífice fez um breve alocução.
Também nas ruas,
nem a chuva nem o frio diminuíram a vontade de católicos que estiveram em
Aparecida. Mais de 32 mil leitos, dos 33 mil disponíveis nos hotéis, foram
ocupados pelos milhares de peregrinos que neste passado dia 24, em Aparecida, se renderam à simplicidade deste papa que tanto surpreende e encanta o mundo...