quarta-feira, julho 20, 2011

CHARLES CHAPLIN (1889-1977) - Grandes Cómicos dos Últimos 100 Anos do Universo Cinematográfico (Parte I)







"Creio no riso e nas lágrimas, como 
antídotos contra o ódio
e o terror..."
( Charles Chaplin)




Sir Charles Spencer Chaplin, mais conhecido como Charlie Chaplin (Londres, 16 de abril de 1889 - Corsier-sur-Vevey, 25 de dezembro de 1977), foi um ator, diretor, produtor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. Chaplin foi um dos atores mais famosos da era do cinema mudo, notabilizado pelo uso da mímica e da comédia pastelão.

Charles Chaplin em 1922

Charlie Chaplin atuou, dirigiu, escreveu produziu e financiou os seus próprios filmes, sendo fortemete influenciado por um antecessor, o comediante francês Max Linder, a quem dedicou um dos seus filmes. A sua carreira durou mais de 75 anos, como "entertainer", desde as suas primeiras atuações quando ainda era criança nos teatro do Reino Unido, durante a época Vitoriana, quase até à sua morte, aos 88 anos. A sua vida pública e privada  foi controversa e cheia de adulação. Em 1919, fundou a United Artists, juntamente com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith.

O seu personagem mais famoso foi The Tromp, conhecido como Charlot em França e no mundo francófono,  em Itália, Espanha, Portugal, Grécia, Roménia e Turquia, e também como Carlitos ou O Vagabundo, no Brasil: um pobretão de maneiras refinadas e com a dignidade de um cavalheiro, usando um fraque preto coçado, calças e sapatos desgastados e maiores do que o seu número, um chapéu de coco ou cartola, uma bengala de bambu e, como marca pessoal, um pequeno "bigode de broxa".
Charlie, o Vagabundo ou Charlot

Pela sua inigualável contribuição para o desenvolvimento da sétima arte, Chaplin tornou-se no cineasta mais homenageado de todos os tempos, sendo ainda em vida condecorado pelos governos britânico (Cavaleiro do Império Britânico) e francês (Légion d'Honneur), pela Universidade de Oxford (Doutor Honoris Causa) e pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos (Óscar especial pelo conjunto da obra, em 1972).

Os seus pais eram artistas de music hall: o pai, Charles Spencer Chaplin Sr., era vocalista e ator e a mãe, Hannah Chaplin, era cantora e atriz. Chaplin, que tinha a particularidade de ser canhoto, aprendeu a cantar com os pais, que se separaram antes dele completar três anos de idade.

Após a separação, Chaplin foi deixado aos cuidados da mãe, que estava cada vez mais, emocionalmente instável.

Chaplin no filme O Grande Ditador

Um problema de laringe acabou com a carreira de cantora da mãe de Chaplin. Seu pai, alcoólatra, tinha pouco contacto com o filho, apesar de Chaplin e do seu meio-irmão morarem durante um período de tempo com o pai e respectiva amante Louise, em Kensington Road 287, onde hoje existe uma placa comemorativa do facto. Com a morte do pai, vítima de cirrose, Chaplin foi enviado por Louise, amante do pai, para a Archbishop Temples Boys School, com cerca de doze anos de idade.

Depois da mãe de Chaplin ter sido novamente admitida no asilo, Charles acabou por, mais tarde, frequentar uma escola para pobres em Hanwell. Os jovens irmãos Chaplin começaram um relacionameto íntimo, a fim de sobreviverem. Ainda jovens, foram atraídos para o music hall, e ambos provaram ter grande talento A mãe de Chaplin morreu em 1928, em Hollywood, sete anos após ter sido levada para os Estados Unidos  por seus filhos.
Cena de Luzes da Ribalta, com Claire Bloom

A primeira tournée de Chaplin aos Estados Unidos aconteceu com o trupe de Fred Karno, entre 1910 e 1912. No final de 1913, a atuação de Chaplin foi eventualmente vista por Mark Sennett. Sennett contratou-o para o seu estúdio, a Keystone Film Company, pois precisavam de um substituto para Ford Sterling. Inicialmente Chaplin sentiu dificuldades em se adaptar ao estilo da Keystone, não tendo grande êxito, mas, após a sua estreia no cinema, com o filme Making a Living, Sennett percebeu que tinha cometido um grande erro e resolveu dar uma segunda oportunidade a Charlie.

Foi no estúdio da Keystone que Chaplin desenvolveu o seu personagem mais conhecido: o Vagabundo, também conhecido como Charlot. Os primeiros filmes de Chaplin, na Keystone, tinham a marca de Mack Sennett, uma comédia pastelão de gestos exagerados. Com o aparecimento do Vagabundo (Charlot), de gestos refinados, bengala e chapéu de coco, a comédia tornou-se mais subtil, mais adequada para farsas domésticas e românticas.

Chaplin em Luzes da Ribalta

O público da época adorou este novo comediante e Chaplin ofereceu-se de imediato para dirigir os seus próprios filmes. Durante o primeiro ano no ramo do cinema, fez 34 curtas metragens para Sennett, assim como a longa metragem Tillie's Punctured Romance.

O posicionamento político de Chaplin sempre foi esquerdista. Ridicularizando Mussolini e o fascismo, conseguiu com o seu filme O Ditador, nomeações para o Oscar do Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Banda Sonora e Melhor Roteiro Original. Durante a época do marcarthismo, Chaplin foi acusado de "atividades anti-americanas" como suposto comunista, e J. Edgard Hoover, através do FBI, tentou acabar com a residência de Chaplin nos Estados Unidos.

Em 1952, Chaplin deixou os Estados Unidos para o que originalmente parecia ser uma breve viagem ao Reino Unido destinada à estreia do seu filme Luzes da Ribalta em Londres. Hoover soube da viagem e negociou com o ServIço de Imigração a revogação do visto de Charlie, exilando-o do país. Então Chaplin decidiu permanecer na Europa, e escolheu Vevey, na Suíça, para morar.

Charles Chaplin em 1952

A saúde de Chaplin começou a declinar lentamente no final da década de 1960, após   as estreias de: o Rei em Nova Iorque, com a intervenção do seu filho mais velho, Luzes da Ribalta, que pretendeu assumir como autobiografia, ao lado da atriz Claire Bloom, e  A Condessa Descalça, com a afamada Sofia Loren.

Após quatro casamentos dos quais teve onze filhos, Chaplin morreu aos 88 anos, em consequência de um derrame cerebral, no dia de Natal de 1977, em Corsier-sur-Vevey, Suíça. Foi sepultado no cemitério comunal.

No dia 1 de março de 1978, o seu corpo foi roubado por um pequeno grupo de mecânicos suíços, na tentativa de extorquir dinheiro à família. O plano falhou, os ladrões foram capturados e condenados, o corpo foi recuperado onze semanas depois, perto do lago Léman, e retornado para o cemitério de Corsier-sur-Vevey. No mesmo cemitério, foi erguida uma estátua de bronze em homenagem a Chaplin.

Sepulturas de Charles Chaplin e sua esposa Oona O'Neill, em
Corsier-sur-Vevey

Em 1972, Charles Chaplin ganhou o Oscar de Melhor Banda Sonora, pelo filme Luzes da Ribalta, que foi também um grande sucesso. Chaplin também foi nomeado para o Oscar de Melhor Roteiro e Melhor Ator pelo filme O Grande Ditador, em 1940, e viu os seus filmes Luzes da Cidade e Tempos Modernos serem considerados como dois dos melhores filmes de todos os tempos.

O segundo Oscar Honorário de Chaplin veio quarenta anos mais tarde, em 1972, e foi "pelo efeito incalculável que ele teve em tornar os filmes a forma de arte deste século".











segunda-feira, julho 18, 2011

O ÚLTIMO HABSBURGO (1912-2011) - Arquiduque Otto de Habsburgo











Batizado Francisco José Otto Robert Maria António Carlos Marx Henrique Sexto Xavier Félix Renato Luís Caetano Pio Inácio da Áustria, faleceu no passado dia 4 deste mês de julho, aos noventa e oito anos de idade, na sua casa da pequena cidade de Pöcking, nas margens do lago Stamberg, no sul da Alemanha.

Arquiduque Otto de Habsburgo e esposa Regina de Saxe-Meinigen e
Hildburghausen

Otto Morava na Baviera, na Alemanha, e tinha nacionalidade alemã, austríaca, húngara e croata. Apesar do seu nome oficial ser Otto de Habsburgo, as autoridades austríacas referiam-se a ele como Otto de Habsburgo-Lorena. Também era chamado de Arquiduque Otto da Áustria, Príncipe-Herdeiro Otto da Áustria e, na Hungria, Habsburg Ottó. Era também um pretendente em potencial ao título de Rei de Jerusalém.
Imperador Carlos I, esposa e filhos, estando Otto junto
a sua mãe.

Filho mais velho de Carlos I, último imperador da Áustria e último Rei da Hungria, e de Zita de Bourbon-Parma, nasceu perto de Viena, em Reichnau an der Rax, na Baixa Áustria. Era membro do Parlamento Europeu pelo partido União Social Cristã da Baviera (CSU) e Presidente da União Internacional Pan-Europeia.

Em Novembro de 1916, Otto tornou-se príncipe-herdeiro Império Austro-Húngaro, quando seu pai ascendeu ao trono. No final da Primeira Guerra Mundial, ambas as monarquias foram abolidas e substituídas pelas repúblicas da Áustria e da Hungria.

A família real foi forçada ao exílio, apesar de Carlos nunca ter abdicado do trono. De de facto a Hungria voltou a ser uma monarquia, mas Carlos foi impedido de reinar. Em seu lugar, o trono foi mantido vago e criou-se uma regência permanente sob o almirante Miklós Horthy, até 1944.

A família de Otto passou os anos seguintes na Suíça e, mais tarde mudou-se para a Ilha da Madeira, onde Carlos veio a falecer prematuramente em 1922. Com isso, e apenas com dez anos de idade, o Arquiduque passou a ser o pretendente ao trono, situação que permaneceu até à data da sua morte. Entretanto, o parlamento austríaco expulsou oficialmente a dinastia Habsburgo e confiscou todas as propriedades da Coroa Imperial pelo ato Habsburgergesetz de 3 de abril de 1919.

Familiares nas cerimónias fúnebres do Arquiduque
Otto de Habsburgo

Em 1935, Otto graduou-se em Ciência Política e Ciências Sociais pela Universidade Católica de Leuven. Em 1940, Otto é uma das dezenas de milhares de pessoas a quem o cônsul português Aristides de Sousa Mendes concede o visto de saída da França, no momento da invasão nazi.

O próprio Arquiduque Otto refere, de modo sucinto, como fizeram chegar ao consulado português de Bordéus os passaportes da família imperial e respectiva comitiva, bem como muitos outros de cidadãos austríacos e de como Sousa Mendes os carimbou sem qualquer objeção.

Nos anos trinta, algumas forças políticas tentaram reconduzir Otto no poder como monarca constitucional, para combater a influência da Alemanha nazi. Muito ativo na resistência contra Hitler, passou os anos da Segunda Guerra Mundial entre a França e os EUA, sempre ameaçado de execução por parte dos nazis.

Mesmo renunciando oficialmente ao trono em 1961, o Arquiduque Otto não conseguiu retornar ao seu país e só em 1972 conseguiu ser aceite pelos republicanos. Entre 1979 e 1999 foi de deputado no Parlamento Europeu.

Cinzas do coração de Otto de Habsburgo

Participou ativamente na queda do comunismo em 1989, após a queda da Cortina de Ferro e pediu a integração rápida destes países na UE, um sonho que não conseguiu ver concretizado em 2004, aos 91 anos. Manteve-se como eurodeputado por cerca de duas décadas. O presidente da UE, Durão Barroso, durante as cerimónias fúnebres do seu funeral, prestou-lhe a sua homenagem declarando "Estar a  homenagear um grande europeu".

O corpo do filho de Carlos I, último membro desta agora extinta casa real, a lendária dinastia do imperador Franz Joseph e sua amada  imperatriz "Sissi", foi sepultado na cripta imperial de Viena, ao lado da maioria dos membros da família de Habsburgo, com grande pompa e assistido pela quase totalidade da nobreza europeia.
Último adeus do Arquiduque Otto de Habsburgo





Mas o seu coração, segundo a vontade expressa do próprio Arquiduque Otto, que mantinha a nacionalidade húngara, foi depositado  numa abadia beneditina, perto de Budapeste, numa cerimónia íntima, que apenas contou com a presença dos monges e da família mais próxima, também a seu pedido...













quinta-feira, julho 14, 2011

O ADEUS AO ATLANTIS - (NASA)










Esta sexta-feira passada, foi a última vez que o Atlantis se fez aos céus, informou a NASA. O vaivém espacial conta com 30 anos de conquistas, mas também de algumas tragédias, derrapagens orçamentais, e muitas dúvidas sobre o futuro do programa espacial norte-americano.
Bandeira da NASA

Depois do Discovery, em fevereiro, e do Endeavour, em maio, o segundo space shuttle mais jovem da frota da NASA, partiu para a sua missão final (STS-135), ao fim de 197 milhões de quilómetros percorridos e de ter lançado as sondas planetárias Magalhães e Galileo, entre outros equipamentos de investigação espacial.

Com o passar dos anos, estes intercâmbios tornaram-se vulgares na Estação Espacial Internacional (EEI), destino das últimas missões dos vaivéns, para a entrega de módulos e abastecimento.
O space shuttle Atlantis

Foi sob o signo da "mudança" que o Presidente Barack Obama chegou à Casa Branca em 2008, e também que em abril de 2010 foi ao centro Espacial Kennedy, palco do lançamento dos vaivéns, traçar o rumo para a NASA na "exploração espacial do século XXI".

"O que foi outrora uma competição global (entre russos e norte-americanos durante a Guerra Fria) tornou-se numa colaboração global", disse Obama, perante os executivos da NASA e alguns dos seus mais ilustres astronautas, como Buzz Aldrin.

A era da "colaboração" passa no imediato pela entrega a privados e aos russos de missões às estações espaciais e órbita inferior da Terra. Com o desenvolvimento de um novo vaivém capaz de alcançar as profundezas do espaço previsto pela administração norte-americana apenas para 2025 (Marte, Júpiter?), não faltam críticos a este hiato na capacidade de projeção da NASA, e à falta de planeamento que o causou, incluindo do administrador da agência espacial norte-americana.

"Não é aceitável que a nação mais poderosa do mundo se encontre numa situação em que não foi feito o devido planeamento para ter um veículo pronto para substituir o vaivém quando este fizer a sua última aterragem", afirmou Charles Bolden numa recente entrevista à CNN.
Camisolas da NASA

Embora por detrás do vaivém estivesse o embaratecimento dos voos espaciais, com um custo estimado de 10 milhões de dólares nos anos de 1970, hoje uma missão custa aproximadamente mil milhões de dólares, um valor proibitivo em maré de corte geral nas contas públicas norte-americanas, ainda mais, se comparado com os custos da agência espacial russa.

Um estudo recentemente citado pelo Philadelphia Inquirer, estima o custo total do desenvolvimento e das cerca de 135 missões dos vaivéns em 192 mil milhões de dólares, entre 1970 e 2010.

Se desde o lançamento, em 1981, os vaivéns representaram a superioridade tecnológica sobre Moscovo, esta imagem foi em parte danificada pelos acidentes do Challenger em 1986 e do Columbia em 2005, que causaram a morte de 14 astronautas.

Assim e após três décadas de atividades, a frota será aposentada. Milhares de pessoas perderão os seus empregos: o futuro do país, no espaço, é incerto.
Equipa do Atlantis

Enquanto os outros vaivéns serão distribuídos por museus em Los Angeles, Virgínia e Nova Iorque. o Atlantis ficará "em casa", no Kennedy Space Center (Flórida), no seu regresso definitivo à Terra.

No logotipo do Atlantis, que inseri no cabeçalho desta publicação, o ómega simboliza o fim das viagens deste space shuttle.






quarta-feira, julho 13, 2011

A EUROPA PODE ESTAR A MERGULHAR POR BAIXO DE ÁFRICA

 

Segundo a revista National Geographic, um estudo de geofísicos holandeses sugere que a Europa pode estar a começar a mergulhar sob a África, dando origem a uma nova zona de subducção, o que aumenta o risco de actividade sísmica no Mediterrâneo, como terramotos e tsunamis.

Placas Tectónicas

As zonas de subducção formam-se quando as placas tectónicas colidem, com uma placa mergulhando, no manto terrestre, por baixo da outra. Às vezes essas colisões são graduais, mas também ocorrem frequentemente em grandes saltos, desencadeando terramotos. Geralmente as zonas de subducção localizam-se no mar, daí os terramotos consequentemente originarem os tsunamis, tal como aconteceu no Japão em março deste ano, e em Sumatra em 2004.

Há milhões de anos que a placa Africana, que contém parte do leito do Mediterrâneo, se desloca para norte, em direção à placa Eurasiática, cerca de um centímetro por ano.
Localização potencial do terramoto de 1755,que destruiu
Lisboa, e tempos de chegada do tsunami,
em horas após o sismo.

Estudando os terramotos nesta região, os cientistas acreditam que pode estar a formar-se uma nova zona de subducção no ponto de encontro das duas placas, ao longo da costa da Argélia e do norte da Sicília.

Para o cientista Rinus Wortel, há cerca de 30 milhões de anos a situação era a oposta: era a aplaca africana que mergulhava sob a eurasiana, ao longo de uma ampla zona de subdcção no Medierrâneo ocidental.

Como as placas continuaram a convergir, foram-se acumulando tensões tectónicas. Parte dessa tensão foi aliviada quando a placa eurasiática se dobrou para produzir as cordilheiras dos Alpes, do Cáucaso e de Zagros.

Agora, segundo a equipa de Rinus Wortel, a subducção recomeçou, mas com a Europa a deslizar para debaixo de África. A descoberta foi anunciada durante a reunião da União da Geociência da Europa, em Viena.

Para Wortel, a formação de uma zona de subducção é um processo lento: "Acontecem numa escala de tempo de milhões de anos".
Convento do Carmo, cujas ruínas são testemunho do Terramoto de 1755

Wortel acredita veementemente que a previsão para um novo terramoto na zona do Mediterrâneo ocidental tem sido subestimada, quando pode, na realidade, estar a aumentar."Usualmente não a consideramos uma zona de actividade sísmica enorme, não como aquela de magnitude gigante a que assistimos no Japão, no passado mês", disse Wortel.

"Mas também pode ser devido a uma complacência histórica, que nada tenha ocorrido durante cem anos, e isso não significa que não haja risco", afirmou o cientista.
Messina, em Itália, após o terramoto de 1908, completamente em ruínas

"De facto", salientou ainda, "morreram 70.000 pessoas em Messina, Itália, em 1908, quando um terramoto de magnitude 7,1 ocasionou um tsunami com ondas de 12 metros de altura.

E um dos terramotos mais devastadores na história da Europa, ocorreu algures a oeste do Estreito de Gibraltar em 1755, e que enviou uma onda gigante em direcção a Lisboa, em Portugal, matando, segundo várias estimativas, nem mais nem menos do que cem mil pessoas", rematou o cientista.

Quer queiramos, quer não, não podemos deixar de ficar pensativos, para não dizer preocupados, nós os que ocupamos  precisamente esta zona do globo terrestre...

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terça-feira, julho 12, 2011

MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO - A Sua Última Crónica




Nada me faltará
por MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO

Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.

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No sétimo dia após o seu óbito, a minha sentida homenagem a esta grande Senhora e Mulher.
Esta crónica foi enviada para o jornal Diário de Notícias, três horas antes da sua morte.

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domingo, julho 10, 2011

FESTA DOS TABULEIROS 2011 - TOMAR




Este ano a Festa dos Tabuleiros, em Tomar, realizou-se com a presença de cerca de meio milhão de pessoas, do Presidente da República Aníbal Cavaco Silva e do Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho.
Presidente da República Cavaco Silva presente
na Festa dos Tabuleiros

Esta festa realiza-se de 4 em 4 anos, em honra do Divino Espírito Santo. Constituíndo-se numa das romarias mais importantes em Portugal, atrai milhares de turistas ao nosso país, sempre que se realiza. Sendo uma das festividades religiosas mais antigas, a sua origem parece ter surgido nas festas das colheitas à deusa Ceres. A sua cristianização pode dever-se à Rainha Santa Isabel, que lançou as bases da Congregação do Espírito Santo, movimento que em muitas localidades do reino absorveu as primitivas festas pagãs.
O 1.º Ministro Pedro Passos Coelho
também esteve presente nestas Festas
dos Tabuleiros

Esta Festa de "Ação de Graças" e de oferendas manteve as suas características inalteráveis até ao século XVIII. Presentemente apresenta novas características que lhe foram adicionadas ao logo do tempo, no sentido de lhe conferir maior grandiosidade.

A tradição continua em muitas das suas cerimónias como o Cortejo da chegada dos Bois do Espírito Santo, que tem o nome do Cortejo do Mordomo, o Cortejo dos Tabuleiros e a sua bênção, a forma do tabuleiro, a forma dos vestidos das raparigas portadoras dos Tabuleiros e a Pêza ou distribuição do pão e da carne (desde há alguns anos, também se procede à distribuição do vinho).

A principal característica desta Festa dos Tabuleiros é o Desfile ou Procissão, com um número variável de tabuleiros representativos das dezasseis freguesias do concelho e que este ano atingiu o número recorde de 704 Tabuleiros, num total de 1700 figurantes.


Os Tabuleiros

O Tabuleiro deve ter a mesma altura da rapariga que o leva à cabeça e é constituído por trinta pães enfiados em cinco ou seis canas ornamentadas com flores, e que partem de um cesto de vime ou verga, rematado no alto por uma coroa encimada pela Pomba do Espírito Santo ou pela Cruz de Cristo.

Este Cortejo percorre as ruas de janelas engalanadas com colchas e ormentadas com milhares de flores, num percurso de cinco ou seis quilómetros.

O início da Festa dos Tabuleiros é marcado pela chamada do povo para uma reunião pública, convocada pelo Presidente da Câmara, para o Salão Nobre dos Paços do Concelho onde se decide se há Festa dos Tabuleiros no ano seguinte: se a opinião do povo for favorável, é escolhido o Mordomo. Após decisão  sobre a Festa, se o povo decidir que há Festa, são lançados três foguetes a anunciar que há realmente Festa...

Rua engalanada de Tomar

Ao Mordomo compete organizar a Comissão Central, que deverá ser responsável pela gestão da organização dos diversos Cortejos e eventos: o Cortejo das Coroas, o Cortejo dos Rapazes, o Cortejo do Mordomo ou a Chegada dos Bois  do Espírito Santo, a abertura das ruas populares ornamentadas, os Jogos Populares, os Cortejos Parciais, o Grande Cortejo ou o Cortejo dos Tabuleiros e a Pêza.

A eleição do Mordomo e decisão da realização da Festa são feitas num período de alguns meses antes da data provável da festa, que deverá ter lugar no ano seguinte, de modo a haver tempo para se proceder à realização de todos os preparativos.

As cerimónias da Festa têm início no Domingo de Páscoa do ano seguinte.

Cortejo das Coroas

O Cortejo das Coroas é o primeiro ato solene da Festa dos Tabuleiros e destina-se a anunciar à população a celebração da Festa Maior. O Cortejo sai da Misericórdia, dirige-se para a Igreja de S.João Batista ou Igreja de Santa Maria do Olival onde é celebrada a Missa Solene do Espírito Santo na presença das Coroas e Pendões que são colocados na capela mor.

Terminada a Missa, o Primeiro Cortejo das Coroas percorre o itinerário da Festa dos Tabuleiros. Há 7 saídas do Cortejo das Coroas. Sete é o número perfeito para a Igreja Católica: 7 dias da semana; o 7.º dia é o dia do descanso; 7 Dons do Espírito Santo e 7 domingos da Páscoa ao Pentecostes.
A rotatividade destes cortejos pertence às juntas de freguesia, que só se voltam a juntar no Cortejo dos Tabuleiros.
Cortejo dos Rapazes

O Cortejo dos Rapazes é feito como se se tratasse do Cortejo dos Tabuleiros do adultos: os trajes da tradição, os tabuleiros à altura das meninas, e os rapazes trajando de preto, levam o barrete preto no ombro e a gravata da cor da fita da menina.

Este Cortejo é integrado pelas diversas Escolas do 1.º Ciclo do concelho de Tomar, e realizado com tal entusiasmo que se chegou a tingir os dois mil participantes.

Cortejo dos Mordomos: mantém a tradição  dos bois enfeitados com colares e brincos de flores, desfilando pelas ruas da cidade ao som dos foguetes, gaiteiros e banda de música. A acompanhar vão algumas charretes que transportam os Mordomos, convidados e diversos cavaleiros. Desde 1966 que os bois não são abatidos, sendo posteriormente entregue aos talhos, e a sua carne distribuída pelas famílias carenciadas.

Cortejo dos Mordomos



As Ruas Populares Ornamentadas são abertas ao público, numa deslumbrante festa de cor e alegria.

Os Cortejos Parciais decorrem no sábado de manhã e consistem na apresentação individual dos Tabuleiros de cada uma das freguesias que se irão concentrar na Mata Nacional dos Sete Montes, onde, contando com as presenças dos Mordomos e de toda a Vereação, deverão ficar em exposição até ao Cortejo dos Tabuleiros, no domingo.

Rua popular engalanada

Os Jogos Populares vêm de tempos recuados e era o grande acontecimento que atraía a Tomar a população das redondezas. A corrida dos burros era a parte mais interessante da festa. Estes Jogos Populares foram adaptados aos tempos atuais.

Cada freguesia tem um representante para cada jogo: o corte dos troncos, a corrida das carroças, subida do mastro, corrida de sacos, de pipas, etc..

O Cortejo dos Tabuleiros é o motivo principal da Festa dos Tabuleiros. Adquiriu tal importância, que deu o nome à Festa que hoje só é conhecida por Festa dos Tabuleiros.

 As raparigas, figuras principais, desfilam em duas longas filas ao lado dos seus ajudantes (os rapazes), que seguem do lado de dentro, mas sempre atentos às suas companheiras.


Cortejo dos Tabuleiros

Dirigem-se à Praça da República onde o cortejo enrola harmoniosamente até preencher a placa central.

Um representante da Igreja vem à Praça, paramentado, dar a bênção aos Tabuleiros.

Depois, a um sinal do sino, é a elevação, um momento inesquecível. Uma enorme moldura humana aplaude este momento pela sua grandiosidade, simbolismo e beleza, único nestas festividades.

O Bodo ou Pêza ou ainda os bodos do Espírito Santo, instituídos pela Rainha Santa Isabel em Tomar, hoje somente designados por Pêza, constituem o último ato de cada Festa dos Tabuleiros.
Bênção dos Tabuleiros


Acontece no dia seguinte (segunda feira) e seguindo a tradição, numa forma de agradecimento a Deus, consta da partilha do pão, da carne e do vinho agora só com os mais pequenos, os mais necessitados.











sábado, julho 09, 2011

PABLO NERUDA (1904 - 1973)

 

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
(Últimos Poemas - Pablo Neruda)



Pablo Neruda, cujo nome verdadeiro é Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, nasceu em 12 de julho de 1904, na cidade do Parral, no Chile. Seu pai era um funcionário ferroviário e sua mãe, que morreu pouco tempo após o seu nascimento, foi professora. Alguns anos depois, seu pai, que tinha voltado a casar com dona Trinidad Candida Malverde, mudou-se para a cidade de Malverde.

Pablo Neruda

A infância e juventude do poeta foram passadas em Temuco, onde conheceu Gabriela Mistral, diretora da escola feminina secundária, que se tornou numa grande protetora e sua amiga. Com a idade de treze anos, começou a publicar os seus primeiros artigos para jornais e também o seu primeiro poema. Em 1920, tornou-se colaborador do jornal literário Selva Austral, sob o pseudónimo de Pablo Neruda, que adotou em memória do poeta checoslovaco, Jean Neruda.

Alguns dos poemas de Neruda, escritos naquela época, podem ser encontrados no seu primeiro livro Crepusculário (1923). No ano seguinte publicou  Veinte Poemas de Amor e una Cancion Desesperada, que veio a tornar-se numa das obras mais conhecidas e traduzidas. Conjuntamente com a sua atividade literária, Neruda estudou francês e pedagogia na Universidade do Chile, em Santiago.

Neruda e sua esposa Matilde

Entre 1925 e 1937, o Governo nomeou-o para  dirigir diversos consulados honorários, facto que o levou para a Birmânia, Ceilão, Java, Singapura, Buenos Aires, Barcelona e Madrid. A sua produção poética durante este período difícil, incluíu, entre outras obras, a coleção de poemas esotéricos Residencia en la tierra , que marcou o início da sua produção literária. A Guerra Civil Espanhola e o assassinato de García Lorca, que Neruda conhecia, afectaram-no fortemente e fizeram com que aderisse ao movimento republicano, primeiro em Espanha, e mais tarde em França, para onde se mudou e continuou a publicação de poemas, agora orientados para assuntos políticos e sociais.

Pablo Neruda e Salvador Allende

España en el corazón, teve um grande impacto devido ao facto deter sido imprimido no meio da frente, durante a guerra civil. Posteriormente, quando nomeado Cônsul Geral do México, reescreveu o seu Cantico General de Chile e transformou-o num poema épico sobre todo o continente sul-americano, o seu povo e a sua história. Este trabalho, intitulado Canto Geral, foi publicado no Chile e no México, e constitui a parte central da sua produção, traduzido em cerca de dez idiomas.

Regressado ao Chile, envolveu-se nos tumultos políticos internos, aderiu ao Partido Comunista do Chile e devido aos seus protestos contra a política repressiva do Presidente Vilela, viu-se obrigado a viver, escondido e no anonimato por um período de dois anos, findos os quais partiu para o estrangeiro. Depois de viver em diferentes países, em 1952 retornou a casa. A sua obra publicada nesta época, reflete toda a instabilidade, lutas e actividade política que Neruda viveu.

Casa museu de Neruda, em Isla Negra, perto da qual
se encontra a sua sepultura.

Entre os trabalhos que marcam os seus últimos anos podem ser citados Cien sonetos de amor(1959), que inclui poemas dedicados a sua esposa Matilde Urrutia, Memorial de Isla Negra, de carácter biográfico, em cinco volumes, Arte de pajaros, La barcarola e vários outros, por ocasião do seu 60.º aniversário.

De acordo com Isabel Allende, Pablo Neruda morreu de tristeza em setembro de 1973, ao ver dissolvido o governo de Salvador Allende.
Logotipo do filme "Il Postino",
ou o "Carteiro de Pablo Neruda".


Na realidade, a sua morte foi originada por um câncro na próstata. Em vida, foi agraciado com o Prémio Lenin da Paz e em 1971 foi-lhe atribuído o Nobel da Paz.

Já em 1965 lhe havia sido autorgado o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha.


Da sua vasta obra, escolhi estes dois poemas, qual o mais belo...:



Posso escrever os mais tristes esta noite...

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a por vezes e ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
                                (Poema XX de "Vinte poemas e uma canção desesperada")



segunda-feira, julho 04, 2011

CASAMENTO REAL DO MÓNACO - Felizes Para Sempre?



O príncipe Alberto II do Mónaco, de 53 anos, casou-se sexta-feira passada, numa cerimónia civil, com a sul-africana Charlene Wittstock, de 33 anos, que se tornou na princesa Charlene do Mónaco.

O casal real, com Jean Michel Jarre, durante o concerto
que assinalou o dia do casamento civil.

À pergunta do consentimento do oficial do Estado Philippe Narmino, os dois responderam "sim", ela primeiro e ele depois.

Numa cerimónia que durou apenas 20 minutos, o príncipe, sentado ao lado da mulher, beijou-lhe a mão direita. Na pequena praça de fronte do palácio, milhares de monegascos, concentrados em redor de um "buffet",aplaudiram e agitaram pequenas bandeiras da África do Sul e do principado.
A troca de alianças

Antes, Narmino, presidente do conselho do Estado do Mónaco, expressou em francês, depois em inglês e em monegasco, a "alegria" de celebrar esta união. À leitura das certidões de nascimento dos noivos, Narmino leu passagens do código civil que estabelecem "os direitos e deveres respectivos dos cônjuges", antes de recolher o consentimento de Alberto II e Charlene Wittstock e de os declarar casados.

O casal levantou-se e beijou-se, sob o olhar dos familiares, entre os quais as princesas Carolina e Stéphanie, e de vários dignitários reunidos nesta pequena sala do palácio.

Familiares do príncipe Alberto

A cerimónia religiosa realizou-se no sábado e, sob os olhares atentos de cerca de 3.500 convidados, Charlene Wittstock e o príncipe Alberto II casaram-se ao ar livre, no pátio de honra do palácio. Três minutos antes da hora para o qual o casamento estava previsto, Charlene cruzou o tapete vermelho conduzida pelo pai, Mike, usando um vestido do seu estilista preferido, Armani, um vestido de mangas curtas e um longo véu.

O arcebispo do Mónaco, Bernard Barsi, conduziu a cerimónia, celebrada em francês e africaner, língua natal da noiva."Nós rendemo-nos às graças de Deus que fez germinar nos corações dos dois um amor tão profundo. O casamento de um homem e de uma mulher é, para todos nós, um sinal de amor e de que nós somos amados pelo Senhor", afirmou o arcebispo durante a cerimónia, à qual estiveram presentes convidados famosos como Karl Lagerfeld, Naomi Campbell, o presidente Sarkosi e o estilista Armani, além de Karolina Kurkova.
Presidente Sarkosi

Depois da troca de alianças, aconteceu o tão esperado "sim". O casal, sorridente, assinou o registo do casamento com uma caneta incrustada de pedras preciosas, feita especialmente para a ocasião. Depois, sob uma chuva de pétalas de rosa e de aplausos, dirigiram-se, de carro, para a igreja de Sainte-Dévote, santa padroeira do Mónaco, onde a noiva depositou o seu "bouquet", tal como o fizera a sua sogra Grace Kelly, quando casara com o príncipe Rainier.

Alberto e Charlene  no início do jantar
oferecido aos convidados.

Para o jantar que se seguiu, a noiva trocou o seu vestido por um outro, branco também, e também do seu estilista favorito Armani. Para a confecção do vestido da noiva, Giorgio Armani utlizou 40.000 cristais Swarowsky, 20.000 pérolas e uma equipe destacada somente para esta confecção. Só o véu, com vinte metros de compimento e de tule de seda, consumiu mais de 100 horas de trabalho.

No principado, a crise económica mundial não se faz sentir. O jantar foi confeccionado pelo chefe Alain Ducasse, um dos mais famosos do mundo. Parece que no menu, composto principalmente por pratos mediterrâneos, não constou qualquer tipo de carne vermelha, branca ou foie gras, iguarias que, segundo "Le Figaro", a noiva não aprecia.

Não posso deixar de citar um conceituado matutino brasileiro, que comenta assim a atual família Grimaldi: "Albert é o membro mais apagado da família Grimaldi, conhecida pela resistência aos padrões tradicionais da nobreza. A sua irmã Carolina casou-se três vezes. A caçula desmiolada Stéphanie casou e engravidou de dois guarda-costas e depois envolveu-se com um domador de elefantes.
Momento do corte do bolo de noiva.

Ao contrário das suas irmãs, que colecionam  certidões de casamentos, até então Albert jamais se havia mostrado disposto a casar, colocando em risco a sucessão da sua dinastia, que precisa de um herdeiro, o que alimentou boatos de que seria gay, apesar da enorme lista de relacionamentos com modelos e atrizes. Em 1996, o príncipe acabou por fazer uma declaração oficial para negar a sua homossexualidade. Ele teve dois filhos bastardos que foram reconhecidos, mas que não podem sucedê-lo no trono, segundo a Constituição do país.

Albert tem as suas qualidades, nenhuma ligada à capacidade política. É fluente em inglês, francês e monegasco, e distingue-se no desporto, assim como a sua princesa. Integrou a equipa de "bobsleigh" (corrida de trenós em pista de gelo) em cinco Jogos Olímpicos de Inverno e participou no rally Paris-Dakar, além de ser cinturão preto de judo, praticar também atletismo, handebol, ténis, squash e esqui.

Todo o Mónaco festejou o casamento real!

A princesa Charlene, também tem os seus encantos. Noiva de Albert há um ano, destaca-se no ramo da moda e é amiga de estilistas como Karl Lagerfeld, Ralph Laurent e Stella McCartney. Em recente entrevista à revista Vogue americana, Charlene comparou-se à incomparável Grace Kelly e disse querer fazer do Mónaco uma das capitais mundiais da moda. "Grace Kelly criou um vínculo entre o Mónaco e o mundo do cinema, e eu gostaria de criar um forte vínculo entre o Mónaco e o mundo da moda", afirmou à revista. Mas,  comparada com Kate Middleton, Charlene é praticamente uma desconhecida do público, e tanto ela quanto o seu príncipe estão longe de ter o mesmo carisma de William e Kate".
Parabéns aos reais noivos!






Quanto a nós, resta-nos desejar que, apesar dos rumores temperados com o escândalo da descoberta hipotética de mais um filho bastardo recentemente concebido e da  hipótese de fuga da noiva, veementemente desmentida pela Casa de Grimaldi, o novo casal real  saiba governar o seu principado, assim como a sua própria felicidade, que esperamos seja muita e para sempre...(?)




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