Existe
um verso em branco e sem medida
Um
corpo que respira, um céu aberto
Janela
debruçada para a vida
No
teu poema existe a dor calada lá no fundo
O
passo da coragem em casa escura
E,
aberta, uma varanda para o mundo.
Existe
a noite
O
riso e a voz refeita à luz do dia
A
festa da senhora da agonia
E
o cansaço
Do
corpo que adormece em cama fria.
Existe
um rio
A
sina de quem nasce fraco ou forte
O
risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou
que resiste
Que
vence ou adormece antes da morte.
No
teu poema
Existe
o grito e o eco da metralha
A
dor que sei de cor mas não recito
E
os sonhos inquietos de quem falha.
No
teu poema
Existe
um cantochão alentejano
A
rua e o pregão de uma varina
E
um barco assoprado a todo o pano
Existe
um rio
A
sina de quem nasce fraco ou forte
O
risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou
que resiste
Que
vence ou adormece antes da morte.
No
teu poema
Existe
a esperança acesa atrás do muro
Existe
tudo o mais que ainda escapa
E
um verso em branco à espera de futuro.
JOSÉ
LUÍS TINOCO
Pintura de Santiago Carbonell,
Retoque de:

José
Luís Tinoco (Leiria, 27 de dezembro de 1932)
é um arquiteto, pintor, ilustrador, cartoonista, músico e letrista português.
Nascido numa
família onde se dava grande relevância às artes plásticas, foi com naturalidade
que ingressou na Escola Superior de Belas-Artes do Porto para cursar
arquitectura, mas acabou por concluir a licenciatura em Lisboa, na ESBAL. Na
década de 50 foi elemento activo do do movimento de renovação da arquitectura
portuguesa, abrindo o seu próprio atelier. Ao mesmo tempo, desenvolvia
actividades nas suas outras paixões: a música e as artes gráficas. Assim,
dedicou-se à pintura e à ilustração de capas de livros e discos, bem como a uma
colaboração assídua com os Correios de Portugal para quem assinou a ilustração
de várias dezenas de selos.
Como pintor expôs,
pela primeira vez, em 1956, tendo desde aí participado em numerosas exposições
individuais e colectivas. Realizou um filme de animação a partir da obra O que
diz Molero de Dinis Machado.
Para o grande
público, José Luís Tinoco é particularmente conhecido como autor da música e, algumas
vezes, também da letra de canções que obtiveram grande sucesso, tais como "O
amarelo da Carris", "Um homem na cidade" e "No teu poema", todas cantadas por Carlos
do Carmo. Em 1975 escreveu a letra e a música de "Madrugada" (interpretada por
Duarte Mendes), que representou Portugal no Festival Eurovisão da Canção desse
ano.

