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segunda-feira, dezembro 05, 2016

PELA NOITE, COM MIA COUTO: " O AMOR, MEU AMOR"



O AMOR, MEU AMOR

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

MIA COUTO

In “Idades cidades divindades”

domingo, junho 19, 2016

PELA TARDE, COM MIA COUTO: "ROSA"



ROSA


Não ascendo a rosa.
Fico por espinho, crosta, remorso.

Lição do gesto
de quem retira a mão, 
gotejando sangue,
em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.

Me sufoca o ser,
me assusta o querer ser.

O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.


MIA COUTO, 
in "Idades, cidades, divindades"
Maputo 2006




segunda-feira, janeiro 25, 2016

PELA NOITE, COM MIA COUTO: "A DEMORA"




A DEMORA


O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.


Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.


Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.


Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.


Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.


O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.



MIA COUTO,
in «Idades cidades divindades»




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