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quinta-feira, dezembro 07, 2017

PELA NOITE, COM FERNANDO PESSOA: "EROS E PSIQUE"





EROS E PSIQUE


Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe, o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o seu Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, ainda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


FERNANDO PESSOA
(1933)
in "Poesias, Ortónimo



sexta-feira, dezembro 01, 2017

PELA NOITE, COM FERNANDO PESSOA: "Ó SINO DA MINHA ALDEIA"



Ó SINO DA MINHA ALDEIA


Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.


FERNANDO PESSOA,
(1913)
In “Poesias, Ortónimo"


Imagem retirada da Internet,
Retoque de:




Voz: João Villaret


segunda-feira, novembro 27, 2017

HOJE, COM FERNANDO PESSOA: "ISTO"






ISTO 


Dizem que fingo ou que minto
Tudo  que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto 
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!



FERNANDO PESSOA
(1933), 
"Poesias", Ortónimo.




Voz: João Villaret 



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