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sábado, maio 21, 2016

PELA TARDE, COM MIA COUTO: "CONTOS DO NASCER DA TERRA"



Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela.
O pai meteu-se num barco e remou para longe.
Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas.
Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados.
O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamento.
A lua se cintilhaçou em mil estrelinhacões.
O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo.
A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal.
A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares.
Olhou para o horizonte e exclamou:

- Pai!

Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra.
Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue.
A água sangrava?
O sangue se aguava?
E foi assim.

Essa foi uma vez.


MIA COUTO,
in "Contos do nascer da terra"


sexta-feira, maio 15, 2015

À NOITINHA, COM MIA COUTO: " CONTOS DO NASCER DA TERRA"






    
   (...) Chuva era sinal dos deuses, sua escassa e rara oferta. E quando me dispunha assim, todo nu, todo inteiramente descalço, parecia que os divinos destinavam toda aquela água só para mim. Eu tenho essa única saudade. Que caia um muitão de chuva, até chover dentro de mim, pingar-me os tetos da cabeça, me aguar o coração e eu sentir que Deus me está lavando das poeiras que a vida me sujou. E assim diluviado, eu escute, entre o ruído das gotas dos telhados, a voz de minha mãe me farolando:
   
     - Você vem, volta...
   
    ... Logo hoje que é  véspera de eu ser sentenciado no suspenso da corda. Como se essa corda me conduzisse para onde minha mãe me espera, sentada na berma de um chuvisco. Como se esse nó de forca fosse o meu cordão desumbilical.
         
        Me invente uma última chuvinha, doutor...



MIA COUTO,
in "Contos do nascer da terra 
(A última chuva do prisioneiro)"
    



sexta-feira, janeiro 16, 2015

PELA NOITE, COM MIA COUTO: " CONTOS DO NASCER DA TERRA "






  - Posso acompanhá-lo de viver?

Ele não respondeu mais que um riso triste. Lhe escapou uma lágrima. Desceu, cansada pelo rosto, gota em pedra, orvalho em muro branco. A mulher lhe acariciou a sua pele mineral, e ele se arrepiou por dentro. Ela sorriu, confirmado que estava o seu poder de estremecer o dentro de carapaça. E ela insistiu, bailarinhando os dedos sobre a cascadura dele. Se aplicava em lhe renascer doçuras.
  
 - Não vale a pena, Marlisa.
 - Ternura mole em corpo duro tanto dá até que...

O resto do provérbio ela trocou de esquecer.
Com a ponta de um canivete ela inscrevia o seu nome na carapaça do namorado enquanto ia soletrando:
  
 - «M-a-r-l-i...»

(...) Todas as manhãs, ainda hoje se vê Marlisa tonteando pelo parque enquanto empasta a língua numa musiquinha. Depois, se senta olhando o chão. E com demais carinhos e demasiadas ternuras vai afagando a pedra que subjaz nos seus joelhos. As pontas dos dedos, lentas, vão percorrendo reentrâncias no dorso dessa pedra. 

E soletra:
  - «M-a-r...».


MIA COUTO
in "Contos do nascer da terra (Ossos)"




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