quinta-feira, julho 20, 2017

PELA NOITE, COM FILIPE MARINHEIRO: "POEMA SEM TÍTULO 2"



POEMA SEM TÍTULO 2


Cantam as tulipas.
E busco um cristalino mar
dum azul intensamente sensível.

Agora há-de sobressaltar-se gemendo
na sua farpada dobra
que me torce as unhas até esmagar
a água em volta do corpo,
por fora e dentro arbitrário,
ao entrar e sair salva,
como a luz florescente
duma janela longínqua debaixo
deste lento mar penetrante.
E faz idênticas espumas polirem meu suspiro
enquanto suavemente me afundo,
sem ser-me ninguém,
num mar de tulipas lavrado que se volta
para as palmas de minhas mãos esplêndidas
e me esvai toda a ferida
e peso rubros.

Bato embaciando-me
contra o sangue espesso das pedras
a baterem no espaço vazio
das pedras batidas
pela eternidade viva.
Batem-se as tulipas
no estremecimento das pétalas
contra o calor
sob o vento elástico.

Concentrassem
as gotas das coisas,
das terras despidas, de órbitas em órbitas,
mover-se-nos-iam
para a desastrosa profundidade volumosa
a inundar o que verdadeiramente
nenhuma pessoa possui.

Amamos o corte da neblina
encostando o vidro à cara
num clarão louco.
Sentimo-lo silencioso
para ilustrar a destruição
enquanto deixamos passar o horizonte
lá longe a planar.

As entranhas mirradas
a migrarem na concavidade nua
são hoje as sorridentes tulipas
a embalarem-me o fresquíssimo alvoroço,
donde rítmico,
regressei de dedos dados
ao frescor como desponto.

Quem visse
aquele pendurado cometa mole
a incendiar-se em jacto escorregadio
na copa das tulipas,
seria uma qualquer rota
pousada
no seu caule rodopiante
a colar-se à pele.

Tocas-lhe
e queimas-te intensamente
como queimaram um dia as tulipas
no momento em que se desprenderam.

Enumero o lume por baixo
e fecho-o pequeno.

Adormeço pela geada acima
escrevendo
o mar às tulipas surpresas.

Canta todo o alegre mar cristalino.
Cantam as cores que vêm do fundo limpo
de todas essas tulipas.
Cantam tulipas em mim.


FILIPE MARINHEIRO,
In “Silêncios”




Filipe Marinheiro


Filipe Marinheiro é um poeta que nasceu no dia 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro. 


Voz:José-António Moreira


NULLA MUSICA, NULLA VITA - Uma Fantástica História de Vida




Um pianista teve a sorte de recuperar a sua vida depois da divulgação, nas redes sociais, de um vídeo seu tocando piano em Sarasota, na Califórnia. 

Donald Gould, um ex-fuzileiro naval de 51 anos, conquistou a cidade com seu talento e, desde então, motivou uma campanha de recolha de fundos que conseguiu juntar mais de 35 mil dólares. Além disso, ganhou uma imagem totalmente nova, com um novo corte de cabelo e guarda-roupa, deixando assim a sua aparência de “homem das cavernas” para trás.

Donald Gould

E conseguiu realizar o seu sonho de falar com o filho, após 15 anos sem qualquer contacto com este, quando já perdia a esperança de o encontrar.

Donny,  com 18 anos, não via o pai desde os três anos de idade. Donald perdeu a guarda do filho quando ficou viúvo, em 1998, depois do que começou a envolver-se no consumo de drogas e álcool. Gould confessou que após a morte da mulher, ele próprio “se perdeu”: “Perdoa-me por não ter sido capaz de estar contigo, filho…”

O sem abrigo chamou a atenção da cidade depois de tocar num dos pianos instalados pela câmara nas ruas desta. Ao assistir ao desempenho de Donald, a moradora Aroar Natasha gravou um vídeo que publicou na internet e que se tornou viral. Em pouco tempo teve mais de 7,7 milhões de visualizações. O pianista ainda hoje se confessa impressionado com a repercussão.

Encantada com o talento do sem abrigo, a Universidade de Spring Arbor concedeu a Gould uma bolsa de estudos para ele concluir a sua formação musical. 

Donald Gould e o seu piano nas ruas de Sarasota, na Califórnia. 
Teve também a oportunidade de um novo recomeço na luta contra o vício da droga e do álcool, pois foi-lhe igualmente concedida a possibilidade de frequentar uma clínica de reabilitação.

Vejam…




terça-feira, julho 11, 2017

SOL E LUA - Amores e Desamores...




Quando o Sol e a Lua se encontraram pela primeira vez, apaixonaram-se perdidamente e a partir daí começaram a viver um grande amor.

Acontece que o mundo ainda não existia e no dia em que Deus resolveu criá-lo deu ao Sol e à Lua o toque final: O BRILHO!

Ficou também decidido que o Sol iluminaria o dia e que a Lua iluminaria a noite. Sendo assim, o Sol e a Lua seriam obrigados a viverem separados para sempre. Abateu-se sobre eles uma grande tristeza quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam.

A Lua foi ficando cada vez mais amargurada, mesmo com o brilho que Deus lhe havia dado, tornando-se cada vez mais solitária. O Sol, por sua vez ganhou um título de nobreza, o de "Astro-Rei", mas isso também não o fez feliz.

Deus então chamou-os e explicou-lhes:
"Vocês não devem ficar tristes, porque agora ambos possuem um brilho próprio. Tu Lua, iluminarás as noites frias e quentes, encantarás os namorados e serás diversas vezes motivo de poesias.
Quanto a ti Sol, sustentarás o título de "Astro-Rei", porque serás o mais importante dos astros, iluminando a terra durante o dia e fornecendo calor ao ser humano. E a tua simples presença fará com que as pessoas sejam mais felizes".

A Lua entristeceu-se muito com o seu terrível destino e chorou dias a fio... Já o Sol ao vê-la sofrer tanto decidiu que não poderia deixar-se abater, pois teria que dar forças à Lua, e ajudá-la a aceitar o que havia sido decidido por Deus.

No entanto a preocupação do Sol era tão grande que resolveu fazer um pedido a Deus:
"Senhor, ajuda a Lua por favor. Ela é mais frágil do que eu e não suportará a solidão ...".

E Deus na sua imensa bondade resolveu criar as estrelas para fazerem companhia à Lua. A Lua sempre que está muito triste recorre às estrelas que tudo fazem para a consolar, mas que quase nunca o conseguem ...

Eclipse

Hoje Sol e Lua vivem assim ... SEPARADOS.

O Sol finge que é feliz...

A Lua não consegue esconder a sua tristeza ...

O Sol ainda arde de paixão pela Lua ...

A Lua ainda vive na escuridão da saudade ...

Dizem que a ordem de Deus era que a Lua deveria ser sempre cheia e luminosa. Mas ela não consegue isso. Porque ela é mulher, e uma mulher tem fases ...
Quando feliz consegue ser cheia. Mas quando infeliz é minguante, e quando é minguante nem sequer é possível ver o seu brilho.
Sol e Lua seguem o seu destino: ele solitário, mas forte ... Ela acompanhada pelas estrelas, mas fraca ...

Deus decidiu que nenhum amor neste mundo seria de todo impossível. Nem mesmo o da Lua e o do Sol.

Foi então que Deus criou o ECLIPSE!

Hoje em dia o Sol e a Lua vivem à espera desse instante, desses raros momentos que lhes foram concedidos e que custam tanto a acontecer.

Quando alguém, a partir de agora, olhar para o céu e vir que o Sol encobriu a Lua, é porque ele se deitou sobre ela e começaram a amar-se.
E esse ato de amor chama-se ECLIPSE.

Importa lembrar que o brilho do êxtase durante este seu ato é tão grande, que se aconselha a não olhar para o céu nestes momentos, porque os olhos podem cegar ao verem tanto amor.


Mais uma lenda, para colorir o nosso quotidiano. E lendas, apesar de o serem, nem por isso são menos fascinantes...







PELA NOITE, COM JOAQUIM MONTEIRO: "DEIXAR A MÃO"









DEIXAR A MÃO


percorrer-te o peito
Deixar a mão cegar
E caminhar o instinto
Como abelhas caminham na flor.


Beber dessa luz líquida
E esperar a morte dos dedos
Onde os lábios escreverão
A morada de todos os poemas.



JOAQUIM MONTEIRO,
in "Rio de Doze Águas", pág.53




segunda-feira, julho 10, 2017

ESTA NOITE A MÚSICA ANDA NO AR, COM "BEACH BOYS": "GOD ONLY KNOWS"




Hoje “PRETO, BRANCO, E…” escolheu a música mais alegre da história da “pop” para a nossa noite de música.


Pharrell Williams, Elton John, One Direction, David Grohl, Lorde, Chris Martin e várias dezenas de estrelas cantam o tema “God Only Knows” dos Beach Boys, juntos num só videoclip, música escolhida pela BBC Music para promoção de um momento especial na música na BBC.

“God Only Knows” mostra o poder e o potencial da música, uma obra-prima moderna que inspirou músicos e fãs da música dos anos 50. Música que continua a encantar gerações, com a sua beleza e qualidade intemporal.

Além disso, o valor da venda desta gravação foi totalmente destinado para angariar fundos a favor da associação “Children in Need”, o que tornou esse projeto ainda mais valioso. Foi também o lançamento de uma nova marca da BBC Music , que apoiou e premiou os melhores músicos e músicos da BBC, trazendo a melhor música ao público em toda a Rádio, Televisão e Online.

O melhor é ver o vídeo… e tentar identificar todos os músicos conhecidos que nele entram.
Divirtam-se.

BOA NOITE, AMIGOS!




sábado, julho 01, 2017

ERA UMA VEZ UM VELHINHO QUE SE CHAMAVA JESUS...



ERA UMA VEZ UM VELHINHO QUE SE CHAMAVA JESUS


Esta noite reproduzo neste espaço uma crónica de Marta Arrais, publicada em IMISSIO pelo Padre José Luís Rodrigues no seu blogue "O Banquete da Palavra". Porque sendo de leitura simples e sem rabiscos, ela torna-se acessível a todos, avós, pais e filhos e netos: veste-se de uma ternura impressionante que poderá talvez fazer verter lágrimas de comoção…

Mais ainda nos dá conta do mistério da vida que se revelou no Papa Francisco e que levou para o céu esta mulher:

“Descia a rua entre gritos de crianças, de jovens, de homens de barba por fazer, de mulheres de pele macilenta. Descia a rua apertada, sem medo de colocar um dos pés numa poça de lama. Descia a rua sem medo de nada. Os velhos ancoravam-se nas suas bengalas tristes e sorriam à possibilidade da sua visita. Vem lá Jesus. Diziam os mais pequenos entre risos que têm fome de pão e de outras coisas tão importantes como essa. Na favela ninguém tem casa porque a casa de um é a casa de todos. São esqueletos de casas. Prestes a ruir como a vida de quem espreita o caminho para ver se Jesus já lá vem. A avó da favela é velha o suficiente para ter visto nascer cada um dos que já são velhos. Empoleira-se em cada pé como um passarinho cansado da vida e de voar e apoia-se nas pernas que já não sente como suas. Se ao menos tivesse a alegria de ver Jesus. Só Jesus podia salvar aquela gente de uma vida tão sem saídas. Se ao menos Ele viesse e aterrasse naquele lugar. Se ao menos Ele viesse sorrir-lhe. Nem era preciso milagre nenhum. Nem pães aos milhares, nem talhas com vinho. Bastava o sorriso. Se Jesus viesse e lhe sorrisse teria o seu milagre.

E Jesus vinha mesmo. Tinha ouvido as orações da avó da favela. Não te peço nada meu Jesus. Só que me venhas ver a mim e a todos estes filhos que não tenho mas que são meus. Talvez assim pudesses mudar a nossa vida. Se agarrasses na cara como quem me conhece de outras eras e me beijasses a testa como quem beija o Céu. Se ao menos viesses aqui ver-me!

E veio. Vinha vestido de branco. Fazia lembrar um anjo daqueles que andam a ajudar no Céu. Tinha umas abas de lado, aquele vestido. Não estava engelhado. Ao peito uma cruz bonita, prateada. O cabelo branco adivinhava-se por baixo de algo que não era um chapéu. Era a promessa de um chapéu mas não era nenhum chapéu. Estava à espera de ver um Jesus barbudo, alto e moreno. De sandálias nos pés e de milagres nos braços. De traje empoeirado e de cabelo comprido e escuro. Mas não. Tinha andado enganada toda a vida. Jesus era um velhinho e chamava-se Francisco. 
Era esse o nome d’Ele. Chamava-se Francisco e tinha vindo vê-la a ela e aos filhos que, não sendo seus, sempre o tinham sido.
Implorou aos pés que a levassem até mais perto. Eles obedeceram, esquecendo o cansaço de uma vida. Jesus segurou-lhe a mão velha e carcomida pela miséria e beijou-a como quem se ajoelha. Segurou-lhe a cara com as mãos e olhou para dentro dela, como se a conhecesse desde sempre. Deixou-se olhar, deixou-se ver. Deixou deslizar a mão direita pelo seu rosto engelhado e continuou o seu caminho. A avó da favela respirou fundo, cerrou os olhos e agradeceu com uma oração que fez chorar o Céu:
“Obrigada Jesus por teres vindo ver-me. Olhaste para mim como quem olha para uma criança e, de uma vez só, amaste-me mais do que a vida alguma vez me amou…”

Nota: A avó da favela morreu no dia seguinte, enquanto dormia. Antes de Jesus a levar para o Céu deixou-a sonhar o mais bonito de todos os sonhos. Que Jesus a tinha vindo visitar, que era um velhinho e que se chamava Francisco."

 Marta Arrais (15-07-2015)




À NOITINHA, COM JOAQUIM PESSOA: "POEMA LXII- O POUCO É PARA ONTEM"




POEMA LXII, 
O POUCO É PARA ONTEM


`Bora lá! Despe-te dos teus afetos, dos teus medos
e torna-te um guerreiro, um combatente das desarmonias
com as quais o teu corpo e o teu espírito se revoltam.
A fada do dentinho já não anda por aí, será
por isso que sentes um vazio? Estás ansioso por recomeçar?
Até amanhã, então. Recomeçarás, na realidade,
a partir da realidade. Nada de rituais. Nada de magia.

Nada de transcendências. Acreditar em ti já é um bom princípio. Se
não houver estrelas, não poderá haver guerra das estrelas.

Tudo é uma questão de probabilidades. E possibilidades.

Como o Vesúvio, que voltará a explodir nos próximos cem anos.

Mas são os pequenos detalhes que te permitem
interpretar melhor o mapa da vida. Bons e maus,
cínicos e generosos, egoístas e solidários,
rodeiam-te e ajudam a moldar o teu carácter,
a tua opinião, o teu comportamento. Terás de saber apenas
do que precisas, o que pretendes para ti. Tens que ter vontade
de ter vontade. `Bora lá!, aproxima-te e respira fundo
até oxigenares as tuas expectativas. E parte para
os desertos que ainda temes,
consciente de que o perfil das dunas se modifica a cada hora,
mais lenta mas mais seguramente do que as ondas do mar.

Qualquer que seja o caminho a seguir, deves estabelecer
as tuas prioridades.

És excelente a analisar as situações mas estás permanentemente
a adiar o plano A
e a passar ao plano B. Precisas talvez de terapia. Tens de
conhecer a natureza do crime para identificares o seu autor.

Enquanto desconheceres a tua vocação não deves comemorar.

Santos e pecadores são como os peixes: devoram e são
devorados
e todos são alimento de terceiros. A desunião do cardume
é a força do armador.

Queres renovar as tuas energias? `Bora lá!

Não há tradição que resista. Entre portas astrais procurarás
os anjos
que dançam sob a luz que tu respiras. Estão sonâmbulos,
acorda-os.

Trá-los para a zona das tuas emoções. O teu coração protege-te.

Cada experiência única é um contrabando. O que não é
possível obter
senão de uma forma transgressiva. As manhãs são
uma revolta permanente contra a noite, um bom dia às
nossas esperanças.

Se te atreveres a passar construirás caminho inverso às ameaças,
estarás a dar indicações ao teu futuro. Se
te surpreende a travessia, escreve a tua história,
uma aventura que não acaba pois para isso tem de haver
uma boa razão.

Viver é emocionante, se não acertares o ritmo. Se saíres da
lista de espera.

E se não souberes o que fazer, faz qualquer coisa. Faz de conta
que sabes.

Não há magia nem segredos. Tem confiança em ti. `Bora lá!,
faz uma boa proposta à vida que ela aceita!

Nunca estarás pronto para ser coisa nenhuma, mas podes sempre
ser o que quiseres,
nenhum projeto é impossível. E nenhum deus
te poderá dizer: estás enganado!

Não lutes contra a mentira toda, nem no prolongamento
conseguirias vencer,
provavelmente nem sabes o que sentes mas não batas à porta
da tristeza,
há coisas importantes, coisas fantásticas, coisas impensáveis
pelas quais não tens de pedir desculpa mas animar-te
como se tivesses bilhetes reservados para o espetáculo do século.

Não chegues cedo nem tarde. Chega, simplesmente. Vê
se estás lá, como uma surpresa, como um aniversariante que
para isso falta à própria festa. Mas faz por merecer os parabéns!

Não te sintas um problema para que não te tornes um problema.

O teu coração é um tambor que acompanha o ritmo do canto
da fénix,
o seu apelo ao regresso é a última palavra pacífica antes da ofensa.

Quando contemplas o mar raramente lhe vês o fundo,
assim são aqueles com quem divides a tua vida,
será então possível confessar a tua paixão, soltar os pedaços
das tuas emoções
como se fossem "conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos"...?

A clepsidra vai trocando a areia, vai trocando as voltas,
nunca será possível perder num sonho a moeda que achaste
na realidade,
gasta-a contigo e agarra o instante que chega como a borboleta,
por pouco que dure, conserva essa beleza, recorda-a como
recordam os amantes
os mais rápidos e íntimos momentos de felicidade. Alegra
o teu coração, os teus nervos, os pequeníssimos cristais
da tua carne
Quando souberes envelhecer, serás um jovem.

É esplêndido o que poderás fazer quando a manhã romper
e não lamentes nada quando acabar o dia. O mais
importante é sempre o que está para chegar. Repara
como aquela andorinha dirige orações ao vento
que a ajuda a partir e a encontrar o caminho de regresso.
Mesmo em dificuldade, faz como ela. A vida é um eterno retorno.
`Bora lá!


JOAQUIM PESSOA,
in “Guardar o Fogo” (Ed. Edições Esgotadas, 2013)



Voz: José-António Moreira


PELA NOITE, COM JOAQUIM PESSOA: "PEÇO-TE. NÃO PISES AS VIOLETAS"




PEÇO-TE. NÃO PISES AS VIOLETAS


Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor.


JOAQUIM PESSOA,
Poema quadragésimo sexto,
Dezembro 8, 2013

in “Guardar o Fogo” (Ed. Edições Esgotadas, 2013)

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