domingo, julho 21, 2013

PELA NOITE...Com António Nobre







O TEU RETRATO


Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.


Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!


Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!


Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!




ANTÓNIO NOBRE,
in Despedidas(1902)











quinta-feira, julho 18, 2013

NOITE DENTRO... Com João Roiz de Castel-Branco









CANTIGA SUA PARTINDO-SE



Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.



Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d' esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.




JOÃO ROIZ DE CASTEL-BRANCO
(in Cancioneiro Geral)













PELA NOITE...Com Manuel Alegre.








OS RATOS INVADIRAM A CIDADE




Os ratos invadiram a cidade
povoaram as casas os ratos roeram
o coração das gentes.
Cada homem traz um rato na alma.
Na rua os ratos roeram a vida.
É proibido não ser rato.



Canto na toca. E sou um homem.
Os ratos não tiveram tempo de roer-me
os ratos não podem roer um homem
que grita não aos ratos.



Encho a toca de sol.
(Cá fora os ratos roeram o sol).
Encho a toca de luar.
(Cá fora os ratos roeram a lua).
Encho a toca de amor.
(Cá fora os ratos roeram o amor)
Na toca que já foi dos ratos cantam
os homens que não chiam. E cantando
a toca enche-se de sol.
(O pouco sol que os ratos não roeram).




MANUEL ALEGRE

(In Praça da Canção)







NO SEU 95.º ANIVERSÁRIO E NO SEU DIA, O POEMA QUE SEMPRE MOTIVOU NELSON MANDELA - " INVICTUS " do poeta inglês William E. Henley







INVICTUS



Do fundo desta noite que persiste 
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.




Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.



Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa; 
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.



Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.



William E. Henley

(Tradutor: André C S Masini)








segunda-feira, julho 15, 2013

PELA NOITE...Com Manuel Alegre






TRINTA DINHEIROS

No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curva-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
Alma não têm. Penduraram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.


MANUEL ALEGRE
(In Praça da Canção)



SENHORA DO MUNDO... NOSSA SENHORA DE CAACUPÉ, PADROEIRA DO PARAGUAI









Nesta manhã de domingo, quando entrei em casa, regressada do habitual cumprimento da missa dominical, fui surpreendida por  uma referência a esta  lenda ou milagre, como se queira chamar.  Logo me encantou. Caso raro, da comunicação social. Mas fui saber mais...

Santuário de Nossa Senhora de Caacupé

No ano de 1600 um índio guarani, convertido ao cristianismo e paroquiano dos franciscanos, foi perseguido pelos seus inimigos Mbayaes. Cercado e desesperado, o jovem índio escondeu-se atrás de uma árvore que parecia protegê-lo.

Aterrorizado, invocou a Imaculada Conceição, a Virgem da sua devoção. Entre súplicas, suspiros, medo e esperança, prometeu à Rainha dos Céus que, se o livrasse dos seus inimigos, lhe faria uma imagem com a madeira daquela árvore.

Milagrosamente os Mbayes não o encontraram e, a partir daquele momento, o objetivo da sua vida passou a ser o cumprimento da sua promessa. Passado algum tempo o guarani voltou à árvore protetora, retirou do tronco a madeira necessária para o seu objetivo, fê-la secar. Pacientemente, com toda a arte de que era capaz e com o fervor da sua alma, começou a esculpir duas estátuas da Virgem: uma maior para a Igreja de Tobatí, nas proximidades, e uma outra, mais pequena, para a sua própria devoção.

Índio Guarani, esculpindo as duas imagens da virgem

A imagem mais pequena é a Virgem dos Milagres, venerada na cidade de Caacupé. Quanto à imagem mais pequena, supõe-se ter sido saqueada pelos selvagens. E não se soube mais nada, nem mesmo do jovem índio guarani e cristão.

Mais tarde, em 1603, ocorreu uma grande inundação que provocou imensa destruição, inclusive a perda da imagem. Posteriormente, quando as águas baixaram, milagrosamente, reapareceu a Virgem esculpida  pelo índio, toda embalada, dentro de uma maleta de couro. Os habitantes do lugar, conhecedores da imagem, começaram a difundir a devoção e a evocá-la com o nome de Virgem dos Milagres. 

Resgatada das águas barrentas por um índio carpinteiro, chamado José, permaneceu por um tempo em sua casa. Mas após este ter testemunhado inúmeros prodígios e graças, a imagem foi levada para a aldeia de Tobati, onde lhe construíram uma capela.

Interior do Santuário e o altar onde se encontra a imagem da Padroeira do Paraguai

Para ali acorreram muitos moradores e logo a aldeia cresceu, dando origem à cidade de Caacupé.

Caacupé é hoje uma realidade mariana e crescem a cada dia o número de peregrinos, as romarias e procissões para aquele santuário. Padroeira do Paraguai, Nossa Senhora de Caacupé tem a sua festa principal no dia 8 de dezembro de cada ano.
Plena de simbolismo, não poderia ignorar a descrição desta imagem da Padroeira do Paraguai:
  • Os três círculos de estrelas, como a Igreja ensina, representam Maria "virgem antes, durante e após o parto.
  • O seu rosto moreno (cruzamento entre Guarani raça indígena e caucasianos europeus) são as mulheres típicas paraguaias.
  • O olhar materno da Virgem, o cuidar dos seus filhos.
  • A estrela brilhante da coroa lembra Maria "Estrela da Manhã", que anuncia o fim da noite e o começo de um novo dia.
  • O cabelo comprido que cai pelas costas é uma características das mulheres indígenas.
  • Veste uma luxuosa túnica branca e tem sobre os ombros um requintado manto azul.
  • O manto é adornado com figuras da flor nativa dos trópicos: "Maracujá". Os nativos, nas suas migrações, reconhecem a fertilidade da terra, pela presença desta flor.
  • A imagem da Virgem está de pé, pisando uma cobra, sobre o globo azul com três estrelas douradas, e fitas com as cores da bandeira do Paraguai. 
O simbolismo é múltiplo:

  • em primeiro lugar, Maria vence o mal (a serpente da figura mítica do mal que ameaça a humanidade),
  • e excede os ídolos pagãos (três estrelas).
  • Por outro lado, as fitas simbolizam Maria a proteger o povo do Paraguai.






sábado, julho 13, 2013

BANA, "REI DI MORNI" DE CABO VERDE (1932-2013), DEIXOU-NOS HOJE.










Adriano Gonçalves, Bana, morreu hoje aos 81 anos, no Hospital de Loures. Considerado por muitos património do mundo, nasceu no Mindelo, São Vicente, em 11 de março de 1932.

Gravou mais de cinquenta discos ao longo da sua carreira, iniciada apenas com 10 anos de idade e apadrinhado por um dos maiores poetas de Cabo Verde, B. Leza. Alto (quase dois metros), de sorriso fácil e atento, embora facilmente irritável foi também o impulsionador e protetor de muitas das estrelas da música cabo-verdeana que agora começam a brilhar.

Sucedendo a Cesária Évora, foi distinguido com o Prémio Carreira em 2012.

"Há um ano, a meu lado, via-lhe e sentia-lhe as lágrimas fartas de um homem e de uma alma plenos de autenticidade. Ainda cantou uma morna. E continuou com as lágrimas. Foi-se o nosso Bana?! Não, fica eternamente connosco", escreveu o chefe de Estado cabo-verdeano.

Bana. A sua voz ímpar, continua a cantar  "Eternidade", "Nossa Senhora de Fátima", "Lua nha testemunha" e tantas composições mais. Bana só realmente nos deixará quando a morna de Cabo Verde nos deixar...



Descanse em paz.








quinta-feira, julho 11, 2013

PELA NOITE...Com Cecília Meireles






A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que
pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta.

Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar,
cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar para poder vê-las assim...


CECÍLIA MEIRELES




COMUNICAÇÃO DO P.R. PORTUGUESA ANÍBAL CAVACO A PORTUGAL, EM 10-7-2013 - Reações Dos Principais Partidos Políticos











O Presidente da República propôs hoje um "compromisso de salvação nacional" entre PSD, PS e CDS que permita cumprir o programa de ajuda externa e que esse acordo preveja eleições antecipadas a partir de junho de 2014.



















terça-feira, julho 09, 2013

PELA NOITE...Com Adalto José Sousa





               DESENCONTRO-mindim
 
               
          Maio! 
               a moça
               casou...
               Correu
               tudo
               normal.  
               Que mal 
               pode 
               haver? 
               Nenhum 
               mal, 
               claro... 
               Por que,
               então,
               falo?
               Quem é
               essa 
               moça?
               Vou lhe
               dizer 
               logo:    
               Não é  
               uma   
               qualquer:
               É a mulher
               a quem
               amo... 
               Por quem
               muito
               choro...
               Só 
               porque
               é Maio
               e ela
               ali 
               casou...
               Passou
               um
               bom tempo... 
               Anos
               depois
               casei.
               O mês?
               Foi em
               Maio...
               Depois
               eu   
               soube:
               Ela
               também
               chorou...


                       ADALTO JOSÉ SOUSA
   
   

   
     
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