segunda-feira, julho 15, 2013

PELA NOITE...Com Manuel Alegre






TRINTA DINHEIROS

No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curva-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
Alma não têm. Penduraram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.


MANUEL ALEGRE
(In Praça da Canção)



SENHORA DO MUNDO... NOSSA SENHORA DE CAACUPÉ, PADROEIRA DO PARAGUAI









Nesta manhã de domingo, quando entrei em casa, regressada do habitual cumprimento da missa dominical, fui surpreendida por  uma referência a esta  lenda ou milagre, como se queira chamar.  Logo me encantou. Caso raro, da comunicação social. Mas fui saber mais...

Santuário de Nossa Senhora de Caacupé

No ano de 1600 um índio guarani, convertido ao cristianismo e paroquiano dos franciscanos, foi perseguido pelos seus inimigos Mbayaes. Cercado e desesperado, o jovem índio escondeu-se atrás de uma árvore que parecia protegê-lo.

Aterrorizado, invocou a Imaculada Conceição, a Virgem da sua devoção. Entre súplicas, suspiros, medo e esperança, prometeu à Rainha dos Céus que, se o livrasse dos seus inimigos, lhe faria uma imagem com a madeira daquela árvore.

Milagrosamente os Mbayes não o encontraram e, a partir daquele momento, o objetivo da sua vida passou a ser o cumprimento da sua promessa. Passado algum tempo o guarani voltou à árvore protetora, retirou do tronco a madeira necessária para o seu objetivo, fê-la secar. Pacientemente, com toda a arte de que era capaz e com o fervor da sua alma, começou a esculpir duas estátuas da Virgem: uma maior para a Igreja de Tobatí, nas proximidades, e uma outra, mais pequena, para a sua própria devoção.

Índio Guarani, esculpindo as duas imagens da virgem

A imagem mais pequena é a Virgem dos Milagres, venerada na cidade de Caacupé. Quanto à imagem mais pequena, supõe-se ter sido saqueada pelos selvagens. E não se soube mais nada, nem mesmo do jovem índio guarani e cristão.

Mais tarde, em 1603, ocorreu uma grande inundação que provocou imensa destruição, inclusive a perda da imagem. Posteriormente, quando as águas baixaram, milagrosamente, reapareceu a Virgem esculpida  pelo índio, toda embalada, dentro de uma maleta de couro. Os habitantes do lugar, conhecedores da imagem, começaram a difundir a devoção e a evocá-la com o nome de Virgem dos Milagres. 

Resgatada das águas barrentas por um índio carpinteiro, chamado José, permaneceu por um tempo em sua casa. Mas após este ter testemunhado inúmeros prodígios e graças, a imagem foi levada para a aldeia de Tobati, onde lhe construíram uma capela.

Interior do Santuário e o altar onde se encontra a imagem da Padroeira do Paraguai

Para ali acorreram muitos moradores e logo a aldeia cresceu, dando origem à cidade de Caacupé.

Caacupé é hoje uma realidade mariana e crescem a cada dia o número de peregrinos, as romarias e procissões para aquele santuário. Padroeira do Paraguai, Nossa Senhora de Caacupé tem a sua festa principal no dia 8 de dezembro de cada ano.
Plena de simbolismo, não poderia ignorar a descrição desta imagem da Padroeira do Paraguai:
  • Os três círculos de estrelas, como a Igreja ensina, representam Maria "virgem antes, durante e após o parto.
  • O seu rosto moreno (cruzamento entre Guarani raça indígena e caucasianos europeus) são as mulheres típicas paraguaias.
  • O olhar materno da Virgem, o cuidar dos seus filhos.
  • A estrela brilhante da coroa lembra Maria "Estrela da Manhã", que anuncia o fim da noite e o começo de um novo dia.
  • O cabelo comprido que cai pelas costas é uma características das mulheres indígenas.
  • Veste uma luxuosa túnica branca e tem sobre os ombros um requintado manto azul.
  • O manto é adornado com figuras da flor nativa dos trópicos: "Maracujá". Os nativos, nas suas migrações, reconhecem a fertilidade da terra, pela presença desta flor.
  • A imagem da Virgem está de pé, pisando uma cobra, sobre o globo azul com três estrelas douradas, e fitas com as cores da bandeira do Paraguai. 
O simbolismo é múltiplo:

  • em primeiro lugar, Maria vence o mal (a serpente da figura mítica do mal que ameaça a humanidade),
  • e excede os ídolos pagãos (três estrelas).
  • Por outro lado, as fitas simbolizam Maria a proteger o povo do Paraguai.






sábado, julho 13, 2013

BANA, "REI DI MORNI" DE CABO VERDE (1932-2013), DEIXOU-NOS HOJE.










Adriano Gonçalves, Bana, morreu hoje aos 81 anos, no Hospital de Loures. Considerado por muitos património do mundo, nasceu no Mindelo, São Vicente, em 11 de março de 1932.

Gravou mais de cinquenta discos ao longo da sua carreira, iniciada apenas com 10 anos de idade e apadrinhado por um dos maiores poetas de Cabo Verde, B. Leza. Alto (quase dois metros), de sorriso fácil e atento, embora facilmente irritável foi também o impulsionador e protetor de muitas das estrelas da música cabo-verdeana que agora começam a brilhar.

Sucedendo a Cesária Évora, foi distinguido com o Prémio Carreira em 2012.

"Há um ano, a meu lado, via-lhe e sentia-lhe as lágrimas fartas de um homem e de uma alma plenos de autenticidade. Ainda cantou uma morna. E continuou com as lágrimas. Foi-se o nosso Bana?! Não, fica eternamente connosco", escreveu o chefe de Estado cabo-verdeano.

Bana. A sua voz ímpar, continua a cantar  "Eternidade", "Nossa Senhora de Fátima", "Lua nha testemunha" e tantas composições mais. Bana só realmente nos deixará quando a morna de Cabo Verde nos deixar...



Descanse em paz.








quinta-feira, julho 11, 2013

PELA NOITE...Com Cecília Meireles






A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que
pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta.

Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar,
cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar para poder vê-las assim...


CECÍLIA MEIRELES




COMUNICAÇÃO DO P.R. PORTUGUESA ANÍBAL CAVACO A PORTUGAL, EM 10-7-2013 - Reações Dos Principais Partidos Políticos











O Presidente da República propôs hoje um "compromisso de salvação nacional" entre PSD, PS e CDS que permita cumprir o programa de ajuda externa e que esse acordo preveja eleições antecipadas a partir de junho de 2014.



















terça-feira, julho 09, 2013

PELA NOITE...Com Adalto José Sousa





               DESENCONTRO-mindim
 
               
          Maio! 
               a moça
               casou...
               Correu
               tudo
               normal.  
               Que mal 
               pode 
               haver? 
               Nenhum 
               mal, 
               claro... 
               Por que,
               então,
               falo?
               Quem é
               essa 
               moça?
               Vou lhe
               dizer 
               logo:    
               Não é  
               uma   
               qualquer:
               É a mulher
               a quem
               amo... 
               Por quem
               muito
               choro...
               Só 
               porque
               é Maio
               e ela
               ali 
               casou...
               Passou
               um
               bom tempo... 
               Anos
               depois
               casei.
               O mês?
               Foi em
               Maio...
               Depois
               eu   
               soube:
               Ela
               também
               chorou...


                       ADALTO JOSÉ SOUSA
   
   

   
     

segunda-feira, julho 08, 2013

PAPA FRANCISCO FOI A LAMPEDUSA "CHORAR OS MORTOS QUE NINGUÉM CHORA"...














A ilha italiana do Mediterrâneo, entre a Sicília e a costa da Tunísia e da Líbia, é uma das principais portas de entrada para a União Europeia, juntamente com a fronteira entre a Grécia e Turquia. Desde Janeiro, 4000 imigrantes chegaram já à ilha – esse número é três vezes maior do que os do ano passado. 2011, com as Primaveras Árabes, foi particularmente movimentado. Nesse ano, cerca de 50 mil imigrantes e refugiados desembarcaram em Lampedusa, metade dos quais vindos da Líbia e da Tunísia, cuja costa fica a pouco mais de 100 quilómetros da ilha.

A escolha de Lampedusa para a primeira deslocação fora de Roma é altamente simbólica para um Papa que colocou os pobres e os excluídos no centro do seu pontificado e lançou um apelo à Igreja para que regresse à sua missão de os servir.

“Oremos pelos que hoje não estão aqui”, disse o Papa a um pequeno grupo de imigrantes acabados de chegar, no domingo, a este primeiro porto seguro para milhares de pessoas que tentam chegar à Europa. "Perdemos o sentido da responsabilidade fraterna e esquecemo-nos de como chorar os mortos no mar”, lamentou. “Ninguém chora estes mortos", acrescentou, criticando "os traficantes" que "exploram a pobreza dos outros."


Depois o Papa Francisco lançou ao mar uma coroa de crisântemos (brancos e amarelos, cores do Vaticano) antes de se recolher em silêncio... 








sexta-feira, julho 05, 2013

PARA TI...







ALMA MINHA GENTIL, QUE TE PARTISTE…



Alma Minha Gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.




LUÍS VAZ DE CAMÕES, in "Sonetos"












quarta-feira, julho 03, 2013

NÃO É UM ADEUS...MAS UMA PARTIDA PARA FÉRIAS







Vou  ausentar-me inesperadamente, e consequentemente "Preto, Branco, E..." também. Nem sempre é verdade quando se afirma que tudo está à distância de um clique, e é este o caso. Serão umas férias sem blogue. Também não tenho hipótese de apontar uma data de regresso...

Confessemos que ambos andamos cansados e que uma ausência só poderá ser benéfica e produzir resultados mais frutuosos.

Por partir uma andorinha, não acaba a primavera...


Boas e proveitosas férias para todos!








terça-feira, julho 02, 2013

PELA NOITE...Com Sophia de Mello Breyner Andresen






PORQUE



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.



Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.



Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.



Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.





SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN 

(in Obra Poética)







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