sexta-feira, junho 20, 2014

UM PEDAÇO DA CULTURA PORTUGUESA ESTÁ À VENDA - Frescos "Cenas De Baile"(1891)








Um pedaço da cultura portuguesa está à venda.

Na próxima quarta-feira cinco painéis de grandes dimensões do pintor Columbano Bordalo Pinheiro poderão passar para as mãos de um particular. A base de licitação é de meio milhão de euros. Os painéis foram pintados em 1891 e retratam a história da dança. A obra foi encomendada pelo conde de Valenças para um palácio na Lapa.





FELIPE VI PROCLAMADO REI DE ESPANHA









Fernando Jáuregui, um dos mais conhecidos analistas políticos espanhóis, falou sobre a mudança de rei e os desafios que Felipe VI vai ter pela frente.

“É preciso regenerar a vida política espanhola”, defende Fernando Jáuregui, director do “Diário Crítico”, sugerindo que o grande desafio de Felipe VI “será reinar de outra forma”. Popular analista político da TVE e ex-director da TeleCinco, define-se como “monárquico crítico” não percebendo “a absurda ausência” de Juan Carlos I da cerimónia de coroação do filho. Jáuregui foi jornalista do “El Pais” e “Diario 16” e é dos mais conhecidos analistas políticos espanhóis. Acrescentou:


«…Vai ser reinar de outra maneira, de maneira diferente. Em Espanha abriu-se uma nova era. Uma “segunda transição”. Felipe VI tem de marcar o caminho, porque o actual poder político não o faz ancorado que está nos velhos hábitos. Acredito que Felipe VI, um jovem, um homem do seu tempo, terá, de alguma maneira, de desenhar directrizes distintas. Creio que já vamos todos dar conta disso já no discurso da cerimónia da proclamação. Vamos dar conta de diferentes pistas de grelhas de leitura para o futuro. É o que espero. Tenho grande confiança em Felipe VI.

Quando o rei pede perdão por “um erro que não voltará a acontecer” é um momento importante. Mas nesse momento, Juan Carlos não pensa na abdicação. São outros erros em menor grau de culpa, mas mais naturais, decorrentes da idade, por exemplo, que o fazem pensar que já não pode continuar no trono. A partir daí desencadeia-se uma nova dinâmica com um rei consciente da necessidade de abrir caminho para uma nova era através do filho. Isso é o mais importante que vai acontecer. Não me chamem chauvinista, porque não sou, mas creio que a Espanha pode agora encabeçar um ranking de monarquias modernas. Acredito nas monarquias europeias modernas, democráticas e avançadas. Oxalá Felipe VI não se engane num discurso em que temos colocado um elevado grau de esperança. Verdade é que Felipe VI não cometeu, até ao momento, nenhum dos erros do seu pai, o rei. Nenhum. Não cometeu nenhum. É importante sublinhar este aspecto porque nós espanhóis estamos à procura de uma figura em que possamos depositar toda a esperança. Oxalá Filipe VI seja essa figura.


Como monárquico crítico digo que Felipe VI deve tentar evitar fazer praticamente tudo o que o seu pai fez. O seu pai tirou a Espanha da ditadura rumo à democracia. Mas a democracia já está consolidada. O seu pai descentralizou até certo ponto, mas agora o país precisa uma ainda maior descentralização. O seu pai harmonizou um pouco a injusta política social e económica. Mas a questão da desigualdade social está, de novo, na ordem do dia. Felipe VI terá de procurar que uma maior justiça social impere sobre os espanhóis. Terá de facilitar uma nova disposição territorial. Temos um problema muito sério com a Catalunha. Felipe VI terá de facilitar na medida do que possa – porque também não pode tudo – uma reforma de uma Constituição que se tornou antiquada em muitos aspectos. Em resumo: o desafio que espera o novo rei é enorme e nada tem a ver com o desafio enfrentado pelo seu pai.

Juan Carlos I já teve de enfrentar exigências republicanas. O desafio de harmonizar tensões entre monárquicos e republicanos foi muito maior que o colocado agora a Felipe VI nesse capítulo. Quanto às reivindicações territoriais é verdade que se agravaram um pouco, porque Artur Más avançou para um referendo que não deixa de envolver dificuldades, até para o próprio líder catalão. Mas aí deve impor-se um sistema de diálogo aberto com a Catalunha e de concessões até do ponto de vista constitucional. O meu ponto é que a habilidade do chefe de Estado – já que não temos essa habilidade no líder do Governo – vai ser muito importante para solucionar e suavizar as tensões territoriais e de organização do Estado. Muitas das petições dos republicanos fazem todo o sentido, são totalmente legítimas e terão de ser apresentadas num marco legal distinto. Mas têm todo o direito de as apresentar. O novo rei terá no seu discurso de proclamação de contemplar também estas reivindicações republicanas e de quem se quer separar de Espanha. Daí a importância decisiva da figura do novo rei. Se Felipe VI for capaz de iniciar um diálogo com todos os sectores descontentes com o actual sistema – não digo que resolva todos os problemas anulando-os – para chegar a alguma forma de equilíbrio territorial, de balanço na reforma do estado então será um privilégio autêntico tê-lo como rei. Felipe VI tem qualidades que nem os actuais políticos espanhóis têm, nem o seu próprio pai teria.. Juan Carlos estava muito desgastado pelos escândalos. Felipe VI surge “novo”, imaculado e acredito que os espanhóis olham para a sua chegada ao trono com enorme esperança. Oxalá não defraude esse capital de esperança.


O entendimento entre o PP e o Partido Socialista é, neste momento, inevitável. Um entendimento para o fortalecimento da Monarquia, para a reforma constitucional, para a reforma da lei eleitoral e para outras tantas reformas legais que são imprescindíveis. Incluindo algumas reformas económicas que facilitem maior justiça social, porque poderá chegar o dia em que a Espanha acabe por estoirar nalgum sítio se estas reformas não se fizerem. Portanto, o surgimento de fenómenos políticos como o movimento PODEMOS, ou, no passado, o auge da Izquierda Unida – forças que também se anulam umas às outras – mostram, de forma simples, que a sociedade espanhola está cansada de uma certa maneira de governar. A sociedade espanhola está cansada de uma mensagem política obsoleta. A sociedade espanhola está cansada de muitas armadilhas, escândalos de corrupção, cansada de falta de transparência. Espero simplesmente que os grandes partidos políticos cheguem a acordo para governar de uma maneira diferente. As informações de que disponho apontam para que o discurso do novo rei aponte nesse sentido. É preciso governar de outra forma. É preciso regenerar – a expressão é muito forte – a vida política espanhola. É preciso alterar o marco legal, incluindo a Constituição.

Gostaria que tivesse lugar um referendo Monarquia vs República e sou monárquico. Acredito que a Monarquia ganharia. Gostaria que na Catalunha se realizasse um referendo sobre a independência e acredito que venceria a continuidade da ligação da Catalunha com o resto da Espanha. A democracia implica que o povo possa opinar e possa votar. Suspeito que algo do género vá acabar por acontecer. Até lá todos os espanhóis têm de encontrar maneira de arbitrar estas opções para que a consulta seja possível e se desenrole da forma mais democrática e civilizada possível. Mas dizer que não é possível votar sobre o tipo de organização do Estado – Monarquia ou República - nem sobre a continuidade territorial parece-me ser uma posição difícil de sustentar no futuro porque – suspeito – é uma exigência democrática.

A escolha do uniforme militar enquadra-se na tradição espanhola. O rei é o chefe das forças armadas e assumir o seu novo papel como chefe do Estado vestido de capitão-general do Exército é um gesto, um “piscar de olhos” à tradição. Estes gestos voltados para a tradição também são importantes tanto na forma monárquica como na republicana. Não creio que tenha qualquer significado especial, sobretudo, porque as forças armadas espanholas de hoje nada têm nada a ver com as forças armadas de há 30 anos. Aquelas forças armadas golpistas, aristocráticas – de Tejero Molina, do general Jaime Milláns del Bosch, do general Alfonso Armada que chegou a ser chefe da Casa Militar do Rei – não têm nada a ver com os militares actuais. Entre os militares espanhóis talvez se tenha produzido uma catarse – tal como, há muitos anos, aí em Portugal – uma renovação absolutamente decisiva. Não há pontos comuns entre os actuais militares e os do antigo regime.


Eu percebo a ausência da irmã (a aguardar decisão judicial sobre alegado envolvimento num caso de corrupção protagonizado pelo marido, Inãki Urdangarín). É perfeitamente compreensível. Não entendo, sob qualquer ângulo de observação, a ausência do pai e da mãe. É um absurdo. O rei terá pretendido potenciar o protagonismo do seu filho, mas é uma decisão absurda porque o protagonismo do filho vai ser absoluto em qualquer circunstância. O rei não pode ter vergonha de ter passado quase 40 anos na chefia do Estado. Com todos os períodos claros e escuros – que os houve de todo o tipo – foram 40 anos claramente benéficos para os espanhóis. No balanço foi maior a parte positiva que a negativa. Não entendo. O rei parece envergonhar-se do passo dado com a abdicação. Devia estar presente na cerimónia para dar um abraço ao seu filho e para sancionar a sua chegada ao trono. Não percebo a ausência de Juan Carlos.

Suspeito que o rei se dedique à sua vida privada e esqueça o seu papel “na assessoria” da sociedade espanhola, esquecendo-se de legar a importante experiência de 14 mil dias acumulada ao longo de 40 anos. Oxalá que me engane. Oxalá que o rei e, claro, a rainha não decidam dedicar-se à vida privada e, de alguma maneira, continuem a exercer algum tipo de funções públicas. A ausência na cerimónia de coroação de Filipe VI provoca-me más vibrações e indicia-me um muito mau prognóstico…»

Desejamos as maiores felicidades ao novo rei. Que proporcione toda a paz e prosperidade a Espanha,  país nosso amigo e vizinho.







terça-feira, junho 17, 2014

PELA NOITE, COM MIA COUTO."Amei-te Sem Saberes"...





AMEI-TE SEM SABERES


No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos


E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar


No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada


Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio



MIA COUTO,
in 'Raiz de Orvalho'






A NOITE MÁGICA DE STRAUSS EM VIENA - "TILL EULENSPIEGEL"









Um dos poemas sinfónicos mais populares de Strauss é Till Eulenspiegel, uma obra num só movimento para orquestra. Composta entre 1894 e 1895, logo após a estreia crítica da sua primeira ópera Guntram. Ao escolher o conto popular de Till Eulenspiegel como base para o poema musical, Strauss encontrou um veículo eficaz para responder aos seus críticos, que trataram a sua primeira ópera tão desfavoravelmente.

O personagem de Till Eulenspiegel é um brincalhão convicto, cujo implacável sentido do humor desafia continuamente os seus pares e condu-los a situações de apuros. Nunca  aprende com os seus erros e mete constantemente o nariz na convenção e na crítica.
O poema musical é baseado neste conto popular alemão que apareceu em várias versões, desde a sua primeira aparição no século XIV. 

Alguns encontraram uma base histórica para o personagem, mas é mais popular como uma espécie de herói que desafia convenções. Embora nenhuma fonte segura forneça  todas as aventuras de Till Eulenspiegel, a participação deste personagem é reconhecida em várias adaptações, como o é na representação musical de Strauss no tema do rondó, popular entre todas as composições musicais.
A forma musical de Till Eulenspiegel é um rondó em grande escala. Ao identificar o personagem de Till com o tema do rondó, Strauss encontrou uma maneira de demonstrar a natureza recalcitrante do protagonista e também de unificar a obra. Após uma breve introdução, muitas vezes interpretado como uma expressão de "era uma vez", Strauss afirma o tema no início das diversas passagens.

Este é recorrente entre os episódios do rondó, e é nesses episódios que Till Eulenspiegel tem as suas aventuras. Este personagem enfrenta os juízes, que reveem o seu comportamento e o  condenam à morte. Mesmo assim, não parte sem um gesto de zombaria.

Till Eulenspiegel contém alguns dos momentos mais brilhante de orquestração de Strauss.  Faz uso de vários instrumentos, incluindo o clarinete em D. Strauss  tratou  a orquestração deste trabalho com uma mão de mestre, muitas vezes alternando abrutamente grupos instrumentais. Isto dá ao trabalho a sua cor atraente e também faz com que seja uma peça de virtuose para orquestra. Ao escrever o programa da música, Strauss escolheu uma nova abordagem para a composição , lado a lado com o avant-garde. A sua pontuação brilhantemente orquestrada com a instrumentação virtuosa e dissonâncias coloridas, revelaram Strauss como um modernista.

Continua a ser uma peça de concerto muito popular e uma das composições mais conhecidas de Strauss.

No ano em que se comemoram 150 anos do nascimento de Strauss, a Orquestra Filarmónica de Viena presta homenagem a Richard Strauss num Concerto de Verão nos jardins do Palácio de Schönbrunn, justificando assim as estreitas relações do grande compositor com esta orquestra, que tantas vezes conduziu.


Num cenário barroco, Património Mundial da UNESCO, a música reforça o deslumbramento…









segunda-feira, junho 16, 2014

PELA NOITE...Com CECÍLIA MEIRELES




CÂNTICO VI

Tu tens um medo:
Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.


E então serás eterno.

CECÍLIA MEIRELES


(in memoriam 16/6)


sexta-feira, junho 13, 2014

ESPANHA PERDE UMA PRINCESA, MAS GANHA A MAIS BELA DAS RAINHAS













Úlltimas imagens de Letizia de Espanha como Princesa das Asturias, durante uma cerimónia oficial em que os reis de Espanha acolheram o Presidente do México e esposa, há dias, e  imagens que a Casa Real Espanhola
divulgou em 2012, quando a princesa completou 40 anos.
Espanha perde uma princesa, mas ganha uma das mais belas, senão a mais bela rainha.




quinta-feira, junho 12, 2014

ESTA NOITE, LISBOA TROCA A BOLA DE RONALDO...- Noite de Santo António de Lisboa









ESTA NOITE LISBOA ESQUECE A BOLA DE RONALDO, PINTA-SE COM AS SUAS CORES MAIS BELAS, COME A BELA SARDINHA NO PÃO E PARTE PARA A  FESTA...










quarta-feira, junho 11, 2014

OS PICOS DA VERGONHA...EXISTEM!








Este artigo, inserido num jornal matutino, além da minha própria indignação, indignou o resto do mundo.
Vejam...


Na Europa dos 28, com a crise e o aumento do desemprego, havia em 2012 (os dados são da Rede Europeia Anti-Pobreza, EAPN, e são os mais recentes) cerca de 124,5 milhões de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social. Uma dúzia de Portugais, um número assustador. E isto apenas na União Europeia.

Ora nas sociedades desenvolvem-se duas formas de lidar com a pobreza: uma é o assistencialismo, a ajuda a partir de instituições privadas ou estatais, uma forma de minorar o problema e sobretudo aliviar as carências dos que pouco ou nada têm; outra é a repressão, a intimidação, a ameaça, escondendo os pobres à força em instituições para que não “incomodem” (isso foi feito durante o salazarismo, a coberto de uma política de sanidade pública) ou afugentando-os para que vão “incomodar” para outro lado. Tratados como animais vadios, não como pessoas com os mesmos humanos direitos de todos os outros. 

Foi isto que aconteceu agora num edifício do centro de Londres e que, pelas informações conhecidas, já é norma noutras cidades: num lugar onde dormiam sem-abrigo foram colocados picos de metal para os afugentar, como se faz aos pombos.

Numa Europa onde com o que é gasto num só “almoço de negócios” podiam alimentar-se dezenas de pessoas! Não se trata de gritar igualdade, essa inatingível quimera, mas de exigir humanidade onde começa a imperar o desprezo na sua forma mais vil.

Finalmente sugiro uma visita ao link deste blog, inserido em baixo, para, uma vez mais e através desta mensagem, viverem a realidade dos sem abrigo mesmo num tempo em que a atual crise não existia. 





Hoje, a sua situação é bem pior.








terça-feira, junho 10, 2014

PELA NOITE, COM FERNANDO PESSOA E SANTO ANTÓNIO (Obra Édita)...







SANTO ANTÓNIO



Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!



Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Católico, apostólico e romano.



(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

Mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João...

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)



Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.

Tens uma auréola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.



Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,

Etcetera...

Mas qual de nós vai tomar isso à letra?

Que de hoje em diante quem o diz se digne

Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.



Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.



Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.



Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instinto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.



Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro título de glória,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido tais quando aqui andámos,

Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que há na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.



(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm beleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a manjerico.



És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nulidade, a que se chama história,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.



És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retrato, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.



És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vai alta a lua

Num plácido e legítimo recorte,

Atira risos naturais à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.



Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?



FERNANDO PESSOA


OBRA ÉDITA • FACSIMILE • INFO (ARQUIVO PESSOA)






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