domingo, junho 07, 2015
À NOITINHA, COM ANTÓNIO RAMOS ROSA: "A PALAVRA"
A PALAVRA
que estremece em escuros bosques,uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos,os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.
ANTÓNIO RAMOS ROSA
(de Acordes,1989)
PELA NOITE, COM JUAN JAMÓN JIMÉNEZ: "QUE ACONTECE A UMA MÚSICA"
QUE ACONTECE
A UMA MÚSICA
Que acontece
a uma música,
quando deixa
de soar;
e a uma
brisa que deixa
de voar,
e a uma luz
que se apaga?
Morte, diz:
que és tu, senão silêncio,
calma e
sombra?
JUAN JAMÓN
JIMÉNEZ
sábado, junho 06, 2015
PARA OS AMIGOS...- Os mais belos poemas recordam-se sempre
POEMA
Desejo
primeiro que você ame,
E que
amando, também seja amado.
E que se não
for, seja breve em esquecer.
E que
esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo,
pois, que não seja assim,
Mas se for,
saiba ser sem desesperar.
Desejo
também que tenha amigos,
Que mesmo
maus e inconseqüentes,
Sejam
corajosos e fiéis,
E que pelo
menos num deles
Você possa
confiar sem duvidar.
E porque a
vida é assim,
Desejo ainda
que você tenha inimigos.
Nem muitos,
nem poucos,
Mas na
medida exata para que, algumas vezes,
Você se
interpele a respeito
De suas
próprias certezas.
E que entre
eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que
você não se sinta demasiado seguro.
Desejo
depois que você seja útil,
Mas não
insubstituível.
E que nos
maus momentos,
Quando não
restar mais nada,
Essa
utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda
que você seja tolerante,
Não com os
que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os
que erram muito e irremediavelmente,
E que
fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva
de exemplo aos outros.
Desejo que
você, sendo jovem,
Não
amadureça depressa demais,
E que sendo
maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo
velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada
idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso
deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por
sinal que você seja triste,
Não o ano
todo, mas apenas um dia.
Mas que
nesse dia descubra
Que o riso
diário é bom,
O riso
habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que
você descubra ,
Com o máximo
de urgência,
Acima e a
respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados
e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda
que você afague um gato,
Alimente um cuco
e ouça o joão-de-barro
Erguer
triunfante o seu canto matinal
Porque,
assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo
também que você plante uma semente,
Por mais
minúscula que seja,
E acompanhe
o seu crescimento,
Para que
você saiba de quantas
Muitas vidas
é feita uma árvore.
Desejo,
outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é
preciso ser prático.
E que pelo
menos uma vez por ano
Coloque um
pouco dele
Na sua
frente e diga "Isso é meu",
Só para que
fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo
também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e
por você,
Mas que se
morrer, você possa chorar
Sem se
lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por
fim que você sendo homem,
Tenha uma
boa mulher,
E que sendo
mulher,
Tenha um bom
homem
E que se
amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando
estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja
amor para recomeçar.
E se tudo
isso acontecer,
Não tenho
mais nada a te desejar ".
VITOR HUGO
Etiquetas:
POEMAS SOLTOS- Poema. Vitor Hugo.
À NOITINHA COM JUAN RAMÓN JIMÉNEZ: "TODAS AS ROSAS SÃO A MESMA ROSA"
TODAS AS
ROSAS SÃO A MESMA ROSA
Todas as
rosas são a mesma rosa,
amor!, a
única rosa;
e tudo está
contido nela,
breve imagem
do mundo,
amor!, a
única rosa.
JUAN RAMÓN
JIMÉNEZ
Juan Ramón
Jiménez Mantecón foi um poeta espanhol, nascido a 23 de Dezembro de 1881, em
Moguer, Espanha.
Morreu a 29
de Maio de 1958 em Santurce, Porto Rico.
Por sua oposição ao regime franquista
foi obrigado a exilar-se nos EUA, no ano de 1936.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1956
sexta-feira, junho 05, 2015
PELA NOITE, COM SOFIA MEIRELES: "LUA ADVERSA"

LUA ADVERSA
Tenho fases,
como a lua.
Fases de
andar escondida,
fases de vir
para a rua...
Perdição da
minha vida!
Perdição da
vida minha!
Tenho fases
de ser tua,
tenho outras
de ser sozinha.
Fases que
vão e vêm,
no secreto
calendário
que um
astrólogo arbitrário
inventou
para meu uso.
E roda a
melancolia
seu
interminável fuso!
Não me
encontro com ninguém
(tenho fases
como a lua...)
No dia de
alguém ser meu
não é dia de
eu ser sua...
E, quando
chega esse dia,
o outro desapareceu...
CECÍLIA
MEIRELES,
in C. Poesia
completa,
Volume 2
Etiquetas:
POEMAS SOLTOS- Lua Adversa. Cecília Meireles
quarta-feira, junho 03, 2015
À NOITINHA, COM JOSÉ GOMES FERREIRA: "VAI-TE, POESIA!"
VAI-TE, POESIA!
Deixa-me ver a vida exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.
Vai-te, Poesia!
Não quero cantar.
Quero gritar!
JOSÉ GOMES FERREIRA
Etiquetas:
POEMAS SOLTOS- Vai-te,
Poesia!. José Gomes Ferreira.
PELA NOITINHA,COM MARIO MASSARI: "DE ONDE A MÚSICA?" (Novos Perfis)
DE ONDE A
MÚSICA?
Havia
sorriso e luz
nas tardes
brancas de outono
em que os
meninos soltos
olvidando
quaisquer conselhos
burlavam a
vigilância das horas.
O mundo não
era ainda
esse
labirinto de espantos
e acrobatas
por instinto
saltávamos o
muro do encanto.
Hoje há essa
encruzilhada
cravada no
peito da noite
de onde virá
a música
soando feito
pranto?
MARIO MASSARI
Mário Massari:
nasceu em 21 de novembro de 1962 na cidade de Matão, mas mora em
Sertãozinho, ambas as cidades localizadas no
interior do estado de São Paulo - Brasil.
Quando ainda aluno do curso de Graduação em Agronomia -
UNESP, iniciou a publicação dos seus poemas.
Livros: Cais
- poemas (1987) , Não acordem os pássaros - contos (1994) , Achados e guardados
- poemas (2002), Beirais - poemas (2007), Arabescos - poemas (2008) , Portos,
olhares e ausências... - poemas (2009), Espelhos do tempo - poemas (2010),
Borboletas no aquário - poemas (2011) e Antecedentes Postais - diários de
naufrágios - poemas - 2012. Participou,
ainda, de diversas Antologias/Coletâneas.
É membro da
Academia Sertanezina de Letras - ASEL.
segunda-feira, junho 01, 2015
PELA NOITE, COM JOSÉ GOMES FERREIRA: "ENTREI NO CAFÉ COM UM RIO NA ALGIBEIRA"
ENTREI NO CAFÉ COM UM RIO NA ALGIBEIRA
Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
JOSÉ GOMES FERREIRA
HOJE, COM PEDRO CHAGAS FREITAS: "EU SOU DEUS"
Respira a criança que ri. Olha-a nos olhos,
sente-lhe o sonho, a
esperança, o futuro. Sente, nela, o sonho, a esperança, o
futuro. Sente, nela, que vale a pena continuar, que vale a pena tudo o resto
para que algo assim te caia nas mãos - para que algo assim te caia nos olhos.
Respira a chuva que cai, o sol que aquece, o
vento que empurra.
Respira o cheiro da terra húmida, a
imponência da árvore erguida, a magia das asas de um pássaro.
Respira - para saberes que vale a pena
continuar.
RESPIRA O SABOR DE UM BEIJO, O TOQUE DE UM
AFAGO, O SOM DE UM ARFAR.
RESPIRA A MÃO DE FOGO DE QUEM TE AMA, O SUOR
EM ÊXTASE DE QUEM TE CHAMA. E O ABRAÇO QUE NÃO PASSA, E AS PALAVRAS QUE TE
EMBRAÇAM, E OS OLHARES QUE TE APERTAM.
RESPIRA - PARA SABERES QUE VALE A PENA
CONTINUAR.
Pedro Chagas Freitas,
in "Eu sou Deus"
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