quarta-feira, abril 19, 2017

PELA NOITE, COM ANTÓNIO GEDEÃO: "FALA DO HOMEM NASCIDO"




FALA DO HOMEM NASCIDO


Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no ato de que nasci.
Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.


ANTÓNIO GEDEÃO,
Teatro do Mundo, 1958



António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nasceu em Lisboa a 24 de novembro de 1906 e morreu no dia 19 de fevereiro de 1997. Foi um poeta português e professor de físico-química do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes e Liceu Camões, pedagogo, investigador de História da ciência.
Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições, como A Actividade Pedagógica da Academia das Ciências de Lisboa nos Séculos XVIII e XIX. Publicou ainda outros estudos, como História da Fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1959), O Sentido Científico em Bocage (1965) e Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (1979).
Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo. A esta viriam juntar-se outras obras, como Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967) e ainda Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990). Na sua poesia, reunida também em Poesias Completas (1964), as fontes de inspiração são heterogéneas e equilibradas de modo original pelo homem que, com um rigor científico, nos comunica o sofrimento alheio, ou a constatação da solidão humana, muitas vezes com surpreendente ironia. Alguns dos seus textos poéticos foram aproveitados para músicas de intervenção. Em 1963 publicou a peça de teatro RTX 78/24 (1963) e dez anos depois a sua primeira obra de ficção, A Poltrona e Outras Novelas (1973).
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada.


Imagem: pintura de Salvador Dali
Retoques de:



Voz: Adriano Correia de Oliveira




SEM ABRIGO, OS CIDADÃOS ANÓNIMOS QUE IGNORAMOS...






Sem Abrigo, os cidadãos anónimos que ignoramos, e que podia ser qualquer um de nós...
O outro lado de Lisboa, sem abrigo. Os cidadãos anónimos que ignoramos. E que todos deviam conhecer…

Foi esta madrugada em plena baixa de Lisboa que morreu Joaquim.

Não era ator nem artista. Não era famoso, nem conhecido. Não tinha fama. Era só o Joaquim.

Era apenas um homem que tinha passado pela guerra, que tinha sido abandonado pela nação e pelo povo pelo qual lutou. Um homem cuja vida era passada entre um embrulho de papel e uma resma de jornais sendo estes o cobertor que noite após noite abraçava o seu corpo cansado das cicatrizes dos homens e das mulheres que por ele passavam e nem um olhar lhe dirigiam.

Era o Joaquim. Homem que não se achava merecedor de uma cama quente, de um duche tranquilizante, de um prato de sopa que lhe apazigua-se o rato que amiúde lhe roía o estômago. Era o Joaquim de botelha na mão, carro do mercado nas unhas com o qual transportava os seus bens mais preciosos.

O Joaquim...

O homem de sobretudo roto, barba comprida entrançada pela sujidade do ar, rugas profundas resultado de uma vida cansada, desnorteada, carente de um ombro amigo, de uma palavra de alento, de um sorriso infantil.

Morreu o Joaquim.

Aquele que sorria para todos sem troco, que brincava aos loucos com plena consciência do seu estado de miséria, aquele cujo os seres passavam e diziam:
- Este é que a leva bem sem preocupações.

Sim...

Foi esse o Joaquim que morreu.

O Joaquim que tu, eu e ninguém quer ser mas que ninguém está livre de lá chegar.

Morreu o Joaquim. Sem honras, sem reconhecimento. Profundamente esquecido por uma sociedade hipócrita e egoísta de falsos princípios apregoados à vista de todos e olvidados em privado.

Morreu o Joaquim...

Aquele que um dia pode vir a ser qualquer um de nós.





quinta-feira, abril 13, 2017

VIA CRUCIS OU VIA SACRA - SEMANA SANTA 2017






Via Sacra ou Via Crucis ( do latim Via Crucis, "caminho da cruz"), é o trajeto seguido por Jesus Cristo carregando a cruz, que vai do Pretório até ao Calvário. O exercício da Via Sacra consiste em que os fiéis percorram mentalmente a caminhada de Jesus a carregar a Cruz desde o Pretório de Pilatos até ao monte Calvário, meditando simultaneamente com a Paixão de Cristo.

Percurso da Via Sacra ou Via Crucis
Tal exercício, muito comum no tempo da Quaresma, teve origem na época das Cruzadas ( do século XI ao século XIII): os fiéis que então percorriam na Terra Santa, os lugares sagrados da Paixão de Cristo, quiseram reproduzir no Ocidente a peregrinação feita ao longo da Via Dolorosa em Jerusalém.

O número de estações, passos ou etapas dessa caminhada foi sendo definido paulatinamente, chegando à forma atual, de quatorze estações, no século VI. 
O Papa João Paulo II introduziu, em Roma, a substituição de certas cenas desse percurso não relatadas nos Evangelhos, por outros quadros narrados pelos evangelistas. A nova configuração ainda não se tornou universal.

Existem diversas meditações de autores espirituais sobre a Via Crucis ou Via Sacra. 

De entre elas as que foram utilizadas em Roma, durante os últimos anos, foram: Via Crucis com a Mãe, 2006; Via Crucis do cardeal Ratzinger, 2005; Via Crucis de João Paulo II, 2004; Via Crucis de João Paulo II, 2000; Via Crucis de Karol Wojtyla, 1976, e são ainda conhecidas as Via Crucis de São Josemaria Escrivá  e a Via Crucis de Ernestina Champourcin, 1952.

O exercício da Via Sacra tem sido muito recomendado pelos diversos Sumos Pontífices, uma vez que proporciona uma meditação frutuosa da Paixão de Jesus Cristo, Nosso Senhor.



VIA SACRA




Via Sacra ou Via Crucis

1. Jesus é condenado à morte

2. Jesus carrega a cruz às costas

3. Jesus cai pela primeira vez

4. Jesus encontra a sua Mãe

5. Simão Cirineu ajuda a Jesus

6. Verónica limpa o rosto de Jesus

7. Jesus cai pela segunda vez

8. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém

9. Terceira queda de Jesus

10. Jesus é despojado das suas vestes

11. Jesus é pregado na cruz

12. Jesus morre na cruz

13. Jesus morto nos braços de sua Mãe

14. Jesus é sepultado








PELA TARDE, COM JOÃO MORGADO: "NUNCA MAIS"




NUNCA MAIS

Nunca mais a cama fria,
a noite de insónia, a vida vazia.
Nunca mais as palavras não ditas, 
nunca mais, os sonhos adiados,
os gestos parados, 
nunca mais...cada sonho que fique para depois!
Nunca mais.


JOÃO MORGADO


IMAGEM DO DIA






segunda-feira, abril 10, 2017

PELA NOITE, COM DAVID MOURÃO-FERREIRA: "AS ÚLTIMAS VONTADES"



AS ÚLTIMAS VONTADES



Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
 o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...

Deixa ficar a flor.

E nem murmures. Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada.
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se, fechados,
sem tréguas, os retratos!

Deixa ficar a flor.

A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu. Ninguém.

Deixa ficar a flor.

Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.

Deixa ficar a flor.

DAVID MOURÃO-FERREIRA





sexta-feira, abril 07, 2017

PELA NOITE, COM TERESA A. GONÇALVES: "COLOMBINA E ARLEQUIM"





COLOMBINA E ARLEQUIM


Do meu corpo
Dou em parte
O que sobrou da fantasia,
Mas agora ele já torto
Teve engenho, teve arte,
Enquanto ele crescia.


Fui noiva da minha vida,
Na mão com uma flor
E no dedo c’uma aliança.
Mas numa história cumprida,
Também viúva na dança
Levei p'ra cova o amor.


Retomo parte de mim,
Numa alma que não envelhece.
A vida p’ra mim é magia,
Eu Colombina, tu Arlequim,
E tudo ainda acontece
Quando a dança se recria.



TERESA A. GONÇALVES
Dia da Poesia 2017




UMA PÁSCOA DE SONHO - FELIZ PARA TODOS!





Peter Carl Fabergé foi um joalheiro russo nascido em São Petersburgo, Rússia. Foi um dos mais importantes ourives, joalheiros e designers da história das artes de decoração fina de objetos. Primeiro filho do também joalheiro Gustav Fabergé, aos 16 anos começou a trabalhar na empresa do pai e passou a trabalhar independentemente aos 21.

Estudou na Alemanha, Itália, França e Inglaterra,  mas depois de se casar com Augusta Jakobs, de quem teve quatro filhos, que também se tornaram desenhistas da Casa de Fabergé, assumiu o negócio do pai (1870), com 24 anos de idade. O seu irmão mais jovem, Agathon, também educado como joalheiro, associou-se a ele em Dresden (1882) e a empresa iniciou o seu período de sucesso mais brilhante. Juntos, atingiram a fama rapidamente, ganhando a Medalha de Ouro (1882) numa exposição na Rússia onde a esposa do Czar Alexander III lhes comprou um dos seus trabalhos.

                        Primeira Casa Fabergé, São Petersburgo                                                       Busto de Carl Fabergé

O grande prestígio dos Fabergé deveu-se principalmente à série incomparável dos Ovos de Páscoa Imperial, cerca de 56 (1884-1917). Dez destes ovos foram feitos para o Czar Alexander III como presentes para a czarina (1884-1894). O seu substituto, Nicholas II, comprou mais 44 ovos (1894-1918) para presentear a sua mãe e a sua esposa. Dois outros ovos só são conhecidos por fotografias e destes, apenas um se salvou após a Revolução de outubro (1917). Com lojas em Moscovo e São Petersburgo, fundou um seminário de artesãos em Moscovo (1887) e nos vinte anos seguintes, abriu filiais em Odessa, Londres, Paris, Cannes, Roma e Kiev, onde empregou três centenas de artesãos, a maioria formada no seminário da capital dos czares. Viajava regularmente entre Paris, Cannes, Roma, Moscovo etc, sem conseguir satisfazer a procura pelas suas luxuosas mercadorias.

Recebeu a medalha de ouro da exposição Paris Universelle (1900) e até à Revolução, cerca de 37 anos, a Casa Fabergé produziu cerca de 150 mil peças, dando a conhecer o domínio das várias técnicas do esmaltado, do ouro e cores diferentes como o amarelo, branco, verde e vermelho e ainda tons subtis como o laranja, cinzento e ouro azul. Conjuntamente com a Rússia imperial, durante o Primeira Guerra Mundial, a maioria dos artesãos da Casa Fabergé trabalhou no fabrico de armamentos para o exército.

Retrato de Carl Fabergé                                                           Museu Fabergé em Baden-Baden

Depois da Revolução bolchevique e do assassinato posterior da família imperial, Fabergé, pela Alemanha, fugiu para a Suíça, onde morreu em 24 de setembro de 1920, no Hotel Bellevue, em Lausanne. Em 1929 a sua família transladou os seus restos mortais para Cannes, conjuntamente com os de sua esposa, que morreu em 1925.


FELIZ PÁSCOA!





quarta-feira, abril 05, 2017

PELA NOITE, COM JOSÉ LUÍS TINOCO: "NO TEU POEMA"



NO TEU POEMA


Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.


JOSÉ LUÍS TINOCO

Pintura de Santiago Carbonell,
Retoque de: 




José Luís Tinoco (Leiria, 27 de dezembro de 1932) é um arquiteto, pintor, ilustrador, cartoonista, músico e letrista português.
Nascido numa família onde se dava grande relevância às artes plásticas, foi com naturalidade que ingressou na Escola Superior de Belas-Artes do Porto para cursar arquitectura, mas acabou por concluir a licenciatura em Lisboa, na ESBAL. Na década de 50 foi elemento activo do do movimento de renovação da arquitectura portuguesa, abrindo o seu próprio atelier. Ao mesmo tempo, desenvolvia actividades nas suas outras paixões: a música e as artes gráficas. Assim, dedicou-se à pintura e à ilustração de capas de livros e discos, bem como a uma colaboração assídua com os Correios de Portugal para quem assinou a ilustração de várias dezenas de selos.
Como pintor expôs, pela primeira vez, em 1956, tendo desde aí participado em numerosas exposições individuais e colectivas. Realizou um filme de animação a partir da obra O que diz Molero de Dinis Machado.
Para o grande público, José Luís Tinoco é particularmente conhecido como autor da música e, algumas vezes, também da letra de canções que obtiveram grande sucesso, tais como "O amarelo da Carris", "Um homem na cidade" e "No teu poema", todas cantadas por Carlos do Carmo. Em 1975 escreveu a letra e a música de "Madrugada" (interpretada por Duarte Mendes), que representou Portugal no Festival Eurovisão da Canção desse ano.




ESTA NOITE A MÚSICA ANDA NO AR , COM MICHAEL BUBBLÉ




Hoje "Preto, Branco, E..." convidou o fabuloso Michael Bubblé para a nossa noite de Dança e Música.
Life is a new dawn, a new day, life is beautiful!

BOA NOITE, AMIGOS




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